Djanira Silva 1 de setembro de 2020

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Nunca sei como viverei a cada dia. Todas as manhãs repito-me e faço sempre as mesmas coisas: levanto, forro a cama, guardo os travesseiros, vou ao banheiro, leio o jornal, tomo café. O tédio me faz pensar que os dias são iguais. Para não ver o mundo repetido fecho os olhos. Não posso enterrá-los na areia, feito o avestruz.
Ameaçada pela monotonia, chamo o marceneiro. Portas e prateleiras me fascinam, são mistérios que minha curiosidade não consegue explicar e mesmo se existisse alguma explicação não mudaria nada. Gavetas e portas, portas e janelas. Possibilidades que podem esconder e revelar segredos até dos dias perdidos. Os óculos, o celular, os chinelos, os cadernos, a carteira deveriam ter alarme e controle remoto para acabar com a cumplicidade das coisas que se escondem.
Arrumo os livros. Num dia pela ordem alfabética, no outro pelo assunto alguns pela nacionalidade dos autores. Logo logo inverto tudo.
Vivo com os sentidos de plantão. Amo o cheiro da terra molhada quando rego as plantas. Cultivo roseiras porque sou teimosa, elas são ariscas, arengueiras e alimentam formigas. De vez em quando me beliscam. Passo a ignorá-las, faço mudanças radicais – nos canteiros, nos jarros planto novas mudas, troco outras. Faço isto para não ver meu jardim transformado numa fotografia antiga.
E os cadernos? Ah! Estes são verdadeiros atestados de loucura. Em algumas páginas, anotações para um ensaio que comecei nem lembro quando. Em outras, rabiscos feitos pelos filhos, linhas inteiras com um O quadrado, um A de pernas tortas, o P, assoando o nariz, além de desenhos toscos de animais, casas, plantas, o pai e a mãe de mãos dadas arrastando um menino barrigudo, uma casa cheia de flores brotando das paredes, um número na frente e, um bando de passarinhos voando nas nuvens amarelas onde o sol é maior do que a casa e coabita com uma lua anêmica por detrás da chaminé. Morro de rir. Será que já fui assim? Nas páginas de trás, anotações aleatórias: ketchup, bolacha, fósforos. Estas coisas não me deixam esquecer de que sou gente.
Em meio a esta confusão envelheço cercada de móveis, quadros, e livros e me aposento todos os dias. Aborrece-me olhar e ver as coisas sempre no mesmo lugar. Parecem crianças de castigo. Tudo na vida tem princípio meio e fim, até as histórias mal contadas. A cadeira de balanço, por exemplo, já foi árvore, nela, certamente, pássaros fizeram ninhos. Pode até ter dato frutos. Quem sabe? Balanço pra lá e pra cá para que ela se lembre do vento.
O retrato na parede prende a família. O pai, a mãe, os filhos, não são acadêmicos, mas são imortais. Gente de retrato nem cresce nem morre. O ar do homem-dono, o senhor, o todo poderoso. Sorri como quem viu passarinho verde. A mulher, desconfiada e barriguda, não viu foi nada. Imaginem se tivesse visto.
A roupa da primeira comunhão pendurada no cabide de uma infância enganada. A idéia de habitá-lo sempre me assustou. A toalha pendurada na janela, o ventilador ciranda, cirandinha, na mesa, livros, cadernos, o computador. Pensamentos presos, pensamentos soltos. Ventos de agosto ainda soprarão.
Silêncio. O gato caiu do telhado.
Vivo numa floresta camuflada: a mesa, a cadeira, o guarda-roupa, o lápis, a estatueta, as molduras, dos retratos. Na cesta de costura o algodão dos campos.
Nem sei se quero fazer alguma coisa presente. Não consigo, quando começo já é futuro quando termino já é passado. Na verdade o presente é apenas um suspiro.
O tempo manda, manda nos pensamentos, na vida, na pele, nos cabelos, na altura, nas imagens dentro dos olhos. Coloca armadilhas nos caminhos. Faz de mim o seu relógio. Enlouquece os meus ponteiros. Daqui a pouco já serei outra de mim, a sombra que acompanha os minutos, os segundos. O pêndulo que balançou ontem balança hoje, balançara amanhã. Nas frações do tempo que roda o mundo, a alma balança entre a dor e a ilusão. Tropeço caio e ele passa sobre o meu cadáver.
De manhã acordo. A vida foi prorrogada, jogarei ainda um segundo tempo.
Cansada de ter juízo me equilibro nas idéias. Há uma cumplicidade nas coisas esquecidas.
Penso que sou dona de mim e logo descubro que doido não sofre, quem sofre é o dono do doido.
Se alguém quiser saber não me pergunte porque também nada sei.
Quando sofremos por alguém plantamos um coração no outro.
O silêncio mastiga-me os pensamentos. Desligo as idéias.
Vou ali e volto já.

Obs: A autora é poetisa, escritora contista, cronista, ensaísta brasileira.

Faz parte da Academia de Artes e Letras de Pernambuco, Academia de Letras e Artes do Nordeste, Academia Recifense de Letras, Academia de Artes, Letras e Ciências de Olinda, Academia Pesqueirense de Letras e Artes , União Brasileira de Escritores – UBE – Seção Pernambuco
Autora dos livros: Em ponto morto (1980); A magia da serra (1996); Maldição do serviço doméstico e outras maldições (1998); A grande saga audaliana (1998); Olho do girassol (1999); Reescrevendo contos de fadas (2001); Memórias do vento (2003); Pecados de areia (2005); Deixe de ser besta (2006); A morte cega (2009). Saudade presa (2014)
Recebeu vários prêmios, entre os quais:

Prêmio Gervasio Fioravanti, da Academia Pernambucana de Letras, 1979
Prêmio Leda Carvalho, da Academia Pernambucana de Letras, 1981
Menção honrosa da Fundação de Cultura Cidade do Recife, 1990
Prêmio Antônio de Brito Alves da Academia Pernambucana de Letras, 1998 e 1999 
Prêmio Vânia Souto de Carvalho da Academia Pernambucana de Letras, 2000
Prêmio Vânia Souto de Carvalho da Academia Pernambucana de Letras, 2010
Prêmio Edmir Domingues da Academia Pernambucana de Letras, 2014

Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor e foi publicado da forma como foi recebido, sem alterações pela equipe do Entrelaços.


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