Dasilva 1 de setembro de 2020

Um velho operário, chega à casa de Pavel e, meio sem jeito, diz: “Há muito que te observo. Somos quase vizinhos. Vejo que recebes muita gente. Não são bêbados nem brigões. Se uma pessoa não faz escândalo, logo é notada e começam a perguntar o que isso quer dizer. Te digo, já começam a falar de ti. Meu patrão te chama de herege porque não vás à igreja.  É uma boa ideia os panfletos na fábrica. Agita os operários. Mas, há coisas difíceis de entender; além disso, é assunto demais. És jovem não conheces as pessoas”. Pavel diz: “Não falemos de jovem ou de velho, mas de ideias e de propostas justas”.

Outro dia, perguntou: “Pavel, achas que a vida não é como devia ser? ” Pavel responde: “Não, ela vai bem. Ela trouxe você aqui de coração aberto; ela nos une, pouco a pouco e, um dia, unirá a todos. Para nós, ela é injusta dura, mas nos abre os olhos, nos revela o seu sentido amargo e ensina às pessoas como deve acelerar a marcha. ” “É isso! ”, disse o operário. “É preciso transformar o homem. Se tem sarna se dá um banho e se cura. Mas, como lavá-lo por dentro? ” No meio da conversa o operário se sai com a pergunta: “Então, achas que nos enganaram até sobre Deus? Também me parece que a religião é falsa”.

A mãe calada, pedia que Pavel não lhe ferisse o coração com brutal incredulidade. Pois, julgava que, por trás do ceticismo, ele tinha fé e se consolava. “No que toca a Nosso Senhor, deviam ter mais respeito”. Tomou um suspiro e falou com mais força: “em que vai se apoiar, na infelicidade, uma velha como eu, se vocês lhe tiram o bom Deus? ”  “Perdoa-me, mãe! Eu falava não do Deus bom e misericordioso, mas daquele com os quais os padres nos ameaçam, como se fosse um bastão. Em nome desse Deus, querem forçar que todo mundo se submeta à vontade cruel de alguns”.

Na outra vez que esse assunto volta, a mãe fala: “Ouvir tais coisas está acima de minhas forças; melhor eu sair daqui” E foi pra cozinha. O velho operário adverte: “Vês. Não é a cabeça, mas o coração que está na base de tudo. O coração é um canto, na alma humana, onde tudo cresce”. “Só a razão liberta o homem”, falou Pavel. “Mas, a razão não dá força. É o coração que dá força”, disse o operário. “Um lugar santo não pode estar vazio. Nossa alma é um ponto crucial; é aí, que vive Deus; se ele sai, se forma uma chaga! É preciso inventar uma fé nova… é preciso criar um Deus, amigo dos homens”.

Em outra reunião o mesmo operário volta a insistir: “Como foguista, digo que Deus é como o fogo. Vive no coração. Deus é o verbo e o verbo é espírito! Deus está no coração e na razão, não na igreja. A igreja é o túmulo de Deus. Falo do que se passa hoje. Quando o povo for livre, vai decidir o que é melhor fazer. Meteram em sua cabeça muita coisa que não queria, como o Deus da Igreja. Se ele tomar consciência, ele próprio encontrará a resposta”. Eles debatiam o assunto, mas sem nunca perder a fé e a esperança. Às vezes, por trás de palavras que negavam Deus, eles mesmos sentiam uma fé sólida nele

Alexandra, namorada de Pavel, chegou e foi com a mãe até a cozinha. Com a mão atrás da cabeça, continua a conversa sobre a prisão de militantes. “Seja como for… a prisão esgota. Maldita falta de ação! Não há nada pior! Com todo o trabalho para fazer e nós, lá na jaula, como animais…” “Só Deus, não é? Ou você também não acredita nele? ”, pergunta a mãe. “Não acredito! ”, disse a moça. “Pois bem, eu é que não acredito em você! ”, disse a mãe e continuou com convicção: “Você não compreende a fé que tem dentro de si! Como podem vocês viver a vida que levam e não crer em Deus? ”

A mãe de Pavel via nos seus camaradas algo de obstinado, de confiança em si. Para ela, tantos rostos e tão diversos fundiam-se num só rosto magro, resoluto, com dois olhos de olhar profundo, carinhoso e severo, o olhar de Cristo a caminho de Emaús. O que mais lhe comovia e causava satisfação era a fé deles. Era ver que o sonho de ver triunfar a justiça lhes dava alento. Emocionava-se com a simplicidade e generosidade de cada um; chegavam a se esquecer de si próprios. Agora, compreendia mais quando falavam da vida. Sentia que tinham descoberto a verdadeira causa da infelicidade e concordava com eles.

Um dia, numa data importante, fizeram uma passeata, à frente uma voz bradava: “Camaradas, marchamos sob o nome de nosso Deus, Deus da luz, da verdade, da razão e do bem! Cerrai fileiras, todos que têm fé na verdade e na vitória! ” A polícia veio violenta, reprimiu a marcha e prendeu as lideranças. O coração da mãe ficou dilacerado, o peito oprimido e a garganta seca e febril. Mas foi ela, antes tão frágil, que se levanta e anima a multidão em choque: “Ouvi-me, por amor de Deus! Somos todos irmãos. Abri os olhos, olhai sem medo; nossos filhos se erguem pela verdade, por dias radiosos, pela vida, pelo bem de todos. ”

 Do seu âmago nasciam palavras de amor por todas as coisas e todos os seres; palavras de crescente força que lhe queimavam a boca, brotando com espontânea facilidade. Viu que as pessoas calaram e escutaram. Foi, então, que ela fez de tudo para os chamar para junto dos que ficaram à mercê dos soldados. “Nossos filhos saem pelo mundo, em busca da alegria, por causa da verdade de Cristo, contra os malvados; é pelos operários do mundo que eles marcham; não deixem que caminhem sozinhos! Tende fé no coração de vossos filhos, pois, eles fazem nascer a verdade e até morrem por ela. Tende fé neles! ”

Por fim, a voz da mãe some, ela cambaleia e braços a sustentam. Nessa hora, alguém na multidão grita: “É a palavra de Deus; ouvi, gente boa, é a palavra de Deus! Ela não sofre, nos dá uma pancada por nosso medo. Somos bons cristãos; por que abandonamos nossos filhos? ” Calaram, tomados por algo grandioso e novo que já não os assustava. Diante daqueles olhos em lágrimas ela diz: “Amigos, a vida é feita para os filhos; o mundo é para eles”. E repetiu o pensamento novo desabrochado em seu coração, e diz: “Jesus Cristo não existiria se as pessoas não se entregassem pela glória d’Ele”
25 de maio de 2020

*Extratos do romance A MÃE de Máximo Gorki

Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor e foi publicado da forma como foi recebido, sem alterações pela equipe do Entrelaços.


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