Não estamos dizendo que sonhar não seja importante. É bom projetar metas e alimentar utopias, sobretudo quando a realidade torna-se pesada. Viver, contudo, é o desafio maior, pois exige ética, atitude, decisão, compromisso, inaugurar processos, arregaçar as mangas. O viver nos põe diante do apelo maior do ser, ou seja, faz-nos existir de modo concreto.

Um passo importante da vida é a maturidade, o qual descortina um realismo sereno e ao mesmo tempo inquietante. As nossas ilusões, que acreditamos ser verdadeiras, vão cedendo lugar ao espirito crítico, o qual nos põe em contato com os dramas mais profundos, como o amor, o cuidado com os mais frágeis e consigo próprio, a família, os amigos, tudo aquilo que pertence a esfera das relações. O risco é criar um mundo paralelo como fuga e esquecer-se do essencial: viver, apesar de tudo.

Em se tratando do cristianismo, o Evangelho é a chave de maior lucidez para vivermos intensamente. Nele encontra-se a nossa máxima humanização, a forma da felicidade, o sentido maior da vida, a motivação para não desistirmos. O Evangelho é o ponto vital para toda existência. No entanto, a sua ontologização, realizada pela filosofia grega, o arrancou de um terreno concreto (do viver) para uma dimensão abstrata. Em outras palavras, se o Evangelho apresenta um Deus presente no concreto de nossas vidas, experimentando os nossos dramas, a filosofia por sua vez, insiste numa ideia de Deus distante, sem relação, pura ontologia. Enxergo nesta mudança de eixo, a principal causa das confusões religiosas de nossa vida cristã, hoje.

O teólogo Von Harnak, em seu Manual da história do dogma, faz uma afirmação avassaladora: “A primeira ortodoxia virou heresia”. Consideremos o Evangelho a primeira ortodoxia. Quando é, então, que o mesmo torna-se heresia? Quando vem julgado pelo tribunal da reflexão abstrata que o preenche de proposições distantes, ilusórias que o transforma em mera erudição. E assim a razão fria e calculista passa a ser a nova ortodoxia; e o Evangelho, que era a norma de vida por excelência dos primeiros cristãos, torna-se algo herético, carente de argumentação intelectual. Este modo de pensar levou a vida cristã a assumir uma linguagem mais dogmática que bíblica, mais voltada para o ideal que o real; mais sonho que realidade (vida).

Temos que retornar as implicações de uma linguagem bíblica. Jesus falou da vida de modo concreto, usando parábolas, todas com elementos do cotidiano. Ele não fugiu da realidade, foi concreto e não idealizou situações. Com sua linguagem real, não desperdiçou nenhuma oportunidade de relacionar-se com rostos e vidas, sejam elas quais forem. Por outro lado, a vida cristã, com sua linguagem ontológica, muitas vezes prefere apenas sonhar, investir tempo em projetos de futuro, porém se esquece que o melhor está ficando para trás: as relações, as pequenas oportunidades de encontro, de celebrar momentos, de fazer acontecer a justiça, paz e fraternidade.

Oxalá nossos sonhos dogmáticos, cedam lugar ao viver concreto. Oxalá o Evangelho volte a ser a norma suprema da vida cristã. Se você é um desses que gasta seus dias com sonhos, deixando para depois as relações, lembre-se: Jesus optou pela vida no seu aspecto mais concreto, pois Ele foi a carne do Deus vivo que veio a este mundo para encontrar-se conosco, sempre no agora! Coragem, apenas viva!
(Camaragibe/PE, 12 de agosto de 2020)

Obs: O autor é religioso da Congregação da Paixão de Jesus Cristo (Passionistas). Natural de Fagundes, Paraíba. É mestre em Teologia Fundamental pela Pontifícia Universidade Gregoriana (PUG) – Roma.

Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor e foi publicado da forma como foi recebido, sem alterações pela equipe do Entrelaços.


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