No ponto morto da avenida deserta aconteceu o que mais temia quando fazia o trajeto de volta para casa: deparar-se com um homem. Disfarçou o medo, manteve a caminhada a passos firmes e, ao passar pelo homem, o encarou fingindo naturalidade. Ele tinha os olhos brilhantes, porém tristes. Guardou outros detalhes como a camiseta preta e o short cinza, pés em sandálias. Quis acelerar os passos mas o peso da mochila nas costas a deixava fincada naquele lugar ermo. Não ia deixar-se trair pelo medo olhando para trás. Alcançou o quarteirão, ofegante. Era tarde demais para ficar parada em qualquer parada, mudou a rota e prosseguiu. À certa distância um grupo de jovens caminhava em direção contrária. Sentiu alívio. Agora, precisava disfarçar essa euforia. Era sempre assim quando estava na rua: esforçava-se para manter alguns disfarces. Pensou como seriam suas reações e atitudes sem os mesmos. Voltou ao ponto inicial de quando encontrou o homem. Desesperadamente o encarou e percebeu seus olhos tristes, porém brilhantes. Nervosa, lançou um riso ponta de lábios sem que houvesse retribuição pelos olhos tristes e brilhantes num rosto inerte. Deu alguns passos e olhou para trás vendo o homem sumir do mesmo jeito que os raios de sol caiam. O peso da mochila, o andar apressado a deixavam ofegante. Eliminou, de imediato, qualquer possibilidade de ficar parada em qualquer parada, como se o tempo para ficar naquele local estivesse acabando. Mudou a rota e prosseguiu, ligeira. Precisava parecer natural ao passar em direção contrária, pelo grupo de jovens que, eufóricos, riam e conversavam. Queria rir e conversar para liberar de vez tanta adrenalina. Atravessou largos e praças e só tornou a si, sem nenhum disfarce e com o sistema cardiovascular relaxado quando ouviu o barulho frenético do bando de periquitos que tomava a copa do pé de castanhola na esquina de sua casa. Para quem ficou enclausurada nas armadilhas do medo, sem por muito tempo sair às ruas, abriu um sorriso largo, lançou um beijo no ar e contabilizou mais um dia de vitória na sua ousadia.
Fim.

Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor e foi publicado da forma como foi recebido, sem alterações pela equipe do Entrelaços.


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