(professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio,
decana do Centro de Teologia e Ciências Humanas da PUC-Rio *)
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Há situações na vida em que a dor é tão grande que as palavras serão sempre inúteis para consolá-la ou exorcizá-la.  Apenas o silêncio denso e presente pode ser uma atitude compassiva e misericordiosa. Calar-se diante da dor dos outros, da dor de todos e também nossa é a única atitude possível.

Esta é a situação que hoje vive o Brasil, assolado e machucado mortalmente pela pandemia do coronavírus que açoita a torto e a direito, entrando pelos corpos de todas as idades e categorias de pessoas e levando embora vidas que são amadas, queridas e vão deixar um vazio e uma falta imensos no coração de tantos.

Diante de tantos mortos, de tanta tragédia o que se pode fazer?  Quantas vezes não fizemos essa pergunta a nós mesmos, enquanto diante de nossos olhos desfilavam os caixões, os prantos, os gritos de dor, os enterros em vala comum enfileirados às dezenas, às centenas. O que fazer? Como ajudar? Como consolar todos estes e estas que choram os mortos dos quais nem puderam despedir-se, que se foram sem um último carinho, uma última presença, um último adeus?

Há mães que choram a perda dos filhos inexplicavelmente perdidos e se foram antes delas, vitimados por um vírus que todos dizem que ataca sobretudo os mais velhos.  Mas há filhos órfãos de todas as idades, que choram impotentes a perda de seus maiores, de seus ancestrais: pais, mães, avôs e avós.  Não conseguiram protegê-los, tiveram que vê-los desaparecer pela porta da UTI de onde nunca mais saíram.  Ou então correram desesperados atrás de um respirador e um leito de terapia intensiva que nunca veio e tiveram que vê-los sufocar nas cadeiras ou no chão das emergências.

 O que se pode fazer por essas pessoas que têm o coração em carne viva?  Como podemos ajudar a amenizar a dor de todos que hoje vivem num país transformado em um gigantesco cemitério? Como chamar a atenção para essa dor anônima e profunda que afoga o Brasil em lágrimas e indignação muda? Como fazer algo que ressoe e pressione sem violência aqueles que desejamos retirar de sua ausência irresponsável, a fim de que assumam seu lugar no combate a essa pandemia?

A resposta, ou pelo menos um começo dela, talvez possa ser encontrado no livro do profeta Jeremias que, em pleno exílio, proclama o sofrimento do povo.  E o simboliza com a dor de uma mãe que não quer ser consolada. “Ouve-se uma voz em Ramá, pranto e amargo choro; é Raquel que chora por seus filhos e recusa ser consolada, porque os seus filhos já não existem”.

Raquel – mãe em Israel, mãe dos filhos de Jacó e mãe do povo –  recusa o consolo das palavras.  Reivindica o direito do gemido e do pranto solitário.  Somente ela conhece a dor que a prostra.  O melhor a dar-lhe é o silêncio. Silêncio orante, presente, solidário. Inspirado por essa dor sem consolo, o profeta põe diante de seus ouvintes a dor de Raquel, digna e solitária. Como a de tantas e tantos que não puderam enterrar seus mortos na pandemia que vivemos.

Inspirados por essa dor e por essa necessidade imperiosa de um silêncio que conscientize, denuncie e regenere, a Comunidade da Trindade, em Salvador, Bahia, lançou a campanha Silêncio pela dor.  Convida a todos, brasileiros ou estrangeiros, a aderir e expor nas redes sociais sua solidariedade a essa dor coletiva e gigante com uma palavra, um gesto, uma imagem, uma frase.

Subir hoje a hashtag #Silênciopelador é o nosso modo de chorar e con-doer-nos com a dor da pátria mãe que vê seus filhos irem embora sem nada poder fazer para salvá-los.  E que assiste igualmente outros filhos seus obstaculizando os caminhos que a ciência oferece para que haja menos mortes, menos luto e menos dor em nosso território.

Nosso silêncio pela dor deve preparar o futuro que Deus guardou para o Brasil que hoje geme sob o luto.  A dor não será a última palavra. O profeta Jeremias garante: “Assim diz o Senhor: “Contenha o seu choro e as suas lágrimas, pois o seu sofrimento será recompensado”, declara o Senhor.

Calemo-nos, então, pela dor.  E convidemos outros, tantos quantos pudermos, a fazer o mesmo.  Nosso silêncio será mais eloquente do que mil palavras que até agora se mostraram inúteis. Que nosso silêncio ecoe por todo lado, trazendo de volta a solidariedade, a união e a compaixão.  #Silênciopelador

Obs: A   teóloga é  professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio e autora de “O mistério e o mundo”  (Editora Rocco), entre outros livros.

Copyright 2020 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato: agape@puc-rio.br>

Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor e foi publicado da forma como foi recebido, sem alterações pela equipe do Entrelaços.


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