Dasilva 15 de agosto de 2020

A mãe era alta e alquebrada pela labuta diária e os murros do homem. Seu largo rosto oval, cheio de rugas, meio inchado, olhos escuros, tristes e inquietos como os da maioria das mulheres do bairro. A funda cicatriz na sobrancelha levantava sua orelha direita, dando o ar de estar sempre à espera, temerosa. Toda ela era doçura, tristeza resignação.

O marido morre numa manhã quando a sirene chamava para o trabalho. A caminho do cemitério ela chora em silêncio. O povo que cruzava com o cortejo parava, se benzia e dizia: “sem dúvida a mulher deve estar contente por ele ter morrido”. Recordando seu pedido de casamento, ela lembrava que ele a agarrou no escuro, amassou-a e, fungando lhe perguntou: “Queres casar comigo? ” Ela sentindo-se ultrajada e machucada, tenta soltar-se e fugir. “Aonde vais? Respondes ou não? ”, disse ele. Envergonhada e ferida, calou-se. Alguém abriu a porta, ele a liberta, mas jurou: “Domingo mandarei pedir-te”; e cumpriu a palavra.

Quinze dias após a morte do pai, o filho chega bêbado em casa, cambaleando e dando soco na mesa, e como o pai, grita: “O jantar! Vamos, rápido! ”. A mãe senta-se ao lado e aconchega, no peito, a cabeça do filho. Era a primeira vez que ele se embriagava. O álcool lhe enfraquecera o corpo, mas não lhe levara a consciência das coisas. As carícias da mãe o tornaram confuso e a tristeza dela o comovera.

Ela sabia que ele tinha razão – os operários não tinham outro local onde buscar um pouco de alegria, a não ser a taberna. Apesar disso, lhe falou: ”. Não beba, filho! Teu pai bebeu o suficiente por ti, atormentou-me o suficiente; podias bem ter piedade de tua mãe! ” Ao ouvir essas tristes e ternas palavras lembrou-se da existência apagada e silenciosa da mãe, quando o pai era vivo – vivia na espera angustiante das pancadas.

Porém, continuou a fazer tudo que convinha a um jovem, torna-se como os outros rapazes da sua idade. Só que a vodca não lhe caía bem; no outro dia, vomitava, tinha dor de cabeça e ficava pálido e apático. Um dia, fala para mãe que estava chateado. Insatisfeito preferiu ir pescar. Aos poucos, foi se afastando da vida comum e regressava sem ter bebido. Mas, a obstinação em esquivar-se da vida comum, alertava o coração da mãe com uma sensação de perigo.

O filho passou a trazer livros que lia escondido. Quando voltava do trabalho, se lavava, jantava, trocava poucas palavras e caía na leitura. Aos domingos ia à cidade e só voltava à noite. Falava menos, mas certos pormenores chamaram a atenção da mãe: ele se arrumava, usava palavras novas, ficou mais terno e mais simples. Sua atitude também era nova: varria a casa, arrumava a cama, fazia trabalhos domésticos. Era o único que fazia aquilo no bairro.

Tratava-a por ‘tu’ e ‘mãe’. Mas, a inquietude dela crescia e algo de extraordinário lhe apertava o coração. Certa noite, após o jantar, quando o filho se senta num canto para ler ela, hesitante, se achega e diz: “não, não é nada… só queria… queria te perguntar que tu estás sempre lendo? ”. “Senta-te aqui, mãe”, disse ele. Ela se preparou para ouvir algo importante. “Mãe, leio livros proibidos; proibidos porque dizem a verdade sobre a vida diária dos operários… São impressos às escondidas; se eles encontram, me prendem porque quero saber a verdade, entende?”

Ela teve dificuldade de respirar. O medo pelo filho e a piedade se apoderam dela. “Por que fazes isto? ”, indaga ela. “Quero saber a verdade”. O coração compreendeu que o filho se dedicava a algo misterioso e terrível. Tudo na vida lhe parecia inevitável, estava acostumada a submeter-se sem refletir. Pôs-se a chorar baixinho, martirizada pelo desgosto e angústia.

“Não chores, mãe”, pediu ele, com ternura. “Pensa na vida que a gente levava. Tens quarenta anos, mas que, de fato, viveste? O pai batia-te e entendo, agora que vingava em ti, o desgosto que o sufocou, durante toda a vida, sem saber a razão”. Era a primeira vez que ele falava da verdade que acabava de compreender. “Que alegria tiveste? Podes dizer o que há de bom na tua vida? ” Era a primeira que ouvia falar assim da sua vida. Essas palavras trouxeram memórias adormecidos e de extinta insatisfação. Falava de vida às suas amigas, mas só para lamentar-se. Ninguém lhe explicara a razão da vida ser tão dura e difícil.

Encheu-se de orgulho do filho que entendia tão bem a vida da sua mãe. As mães ninguém tem pena delas… sabia disso. Mas, o que o filho falou da vida das mulheres era a verdade amarga e familiar. Pergunta: “e o que vás fazer? ” Disse ele: “Aprender e depois ensinar a outros. Os operários precisam saber porque a vida é tão dura para nós”. O coração da mãe bateu satisfeito e, nos lábios, aflora um sorriso de orgulho misturado com o medo dessa batalha contra a vida rotineira.

O filho reuniu um grupo para estudar. A mãe gostava das conversas. Foi quando crescem os boatos que os socialistas distribuíam panfletos denunciando as injustiças da fábrica, as greves em outras cidades e conclamavam os operários a se unir e lutar na defesa dos seus interesses. Ela exultou com sua primeira ação perigosa. Ir à cidade para imprimir um panfleto contra um imposto injusto. O panfleto agitou a fábrica e o filho liderou o protesto. Sua casa foi invadida e, junto com outros, ele foi levado preso, acusado dos panfletos.

Os camaradas buscaram formas de libertá-lo. Era preciso denunciar sua prisão. Um panfleto provaria que o filho não era o culpado. A mãe seria a melhor pessoa para introduzir os panfletos na fábrica. Pelo filho e pela consciência aceitou e foi se oferecer como ajudante da mulher que vendia comida lá dentro. Por debaixo da roupa, levou os volantes que a militância, lá dentro, se encarregou de espalhar. Tal panfleto foi decisivo para libertar o filho e camarada .22 de maio 2020

*Extratos do romance “A MÃE”, de Máximo Gorki

Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor e foi publicado da forma como foi recebido, sem alterações pela equipe do Entrelaços.


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