Vou contar a história do Sr. Pedro que morava no Vital Brasil, município de Lago Verde no Maranhão. Quando ele ainda não era alfabetizado, comprou a Bíblia na mão do frei Estêvão, e já com mais de 50 anos aprendeu a ler a Palavra de Deus. De profissão era lavrador, carpinteiro e ferreiro. Em Sabedoria popular era Doutor.

Eu, morando em Bacabal nos anos de 80, era responsável de celebrar em todas as comunidades do município. O lugar que mais sofria neste tempo era São Constâncio, uma légua de Lago Verde. A situação imprensada era bem visível, pois a capela era situada entre a casa da fazenda e o curral. Por sinal, o administrador reinava tranqüilo na região que na verdade era terra pública. O dirigente da capela, chamado Antonio, que rezava pelo fim do cativeiro, às vezes arriscava uma palavra corajosa. Mas tudo chegava aos ouvidos do homem, tão perto que era a casa dele. Certo dia chamou o Antonio e falou: Se você quiser viver mais uns dias, largue este ofício. – O susto valeu e Antonio fechou a capela. A porta não se abriu no outro domingo para acolher o povo.

Isto doeu a São Pedro lá no céu, que guarda as chaves do Reino. “Quem pode fechar a igreja sem a minha ordem?”

O Santo avisou em sonho o dito Pedro do Vital Brasil, que neste tempo já era dirigente e pregador em Lago Verde. A mensagem do sonho dizia: Amanhã você vai ter que lapidar sua língua!  – Que coisa estranha! Lapidar é obviamente do linguajar dos ferreiros. O sonho só disse isto, sem falar nada do São Constâncio. Por isto Pedro preparou sua língua qual espada afiada e pregou na celebração dominical com tanto fervor que o velho Marçal comentou: Êta, Evangelho pesado!

Mas francamente, São Pedro deveria ter explicado melhor, qual era o problema. Só depois do Culto, o pregador ficou sabendo da capela fechada em São Constâncio. Quando saiu da igreja, Pedro falou: A missão ainda não foi esta! – Com isto se dirigiu até a casa do administrador da fazenda que tem segunda residência em Lago Verde e avisou: No próximo domingo vai ter culto em São Constâncio! – O homem não estava, mas a mulher disse: Vou dar o recado para o marido.

Agora começava uma semana de preparação com a pergunta: Como vamos fazer?

Um sonho ajudou novamente: Pedro viu São Francisco no meio dos pobres, fazendo curas, e tendo um cordão laçado pelo pescoço. – No caminho da roça, de noite e de dia, só pensava na igreja fechada, pedindo a São Pedro que lhe mostrasse a chave. Durante a semana achou um grupo de gente que estava disposto a enfrentar a viagem.

No domingo, dia 1 de julho de 1984, quando deu uma hora da tarde, Pedro atravessou o cancelão que abre a estrada para São Constâncio. Os acompanhantes atrasaram um pouco e isto foi bom. Havia tres capangas armados, a cavalo, e Pedro pensou: Ainda bem que estou sozinho. No meio de muitos, alguém poderia perder os nervos. – Os homens valentes se desanimaram, quando o aspecto deles não desanimou a viagem do peregrino. Saíram da sombra e pararam o homem numa passagem estreita depois de um igarapé: Para onde vai, meu velho? – Quem falava era um valentão que o povo apelidava de Chapéu de Couro. O ferreiro falou: Eu vou celebrar o culto na capela de São Constâncio. – Mentira: Nós sabemos que você quer agitar o povo e promete dar terra para eles! – Se eu pudesse dar terra, já teria dado o Brasil inteiro. Eu não sou dono de terra, mas sou dono da minha missão. Vou celebrar o culto e vocês podem ir também. – Com isto pediu passagem e não quis mais conversa.

Quando ele chegou no São Constâncio com os seus acompanhantes, a coragem do povo já tinha aberto a capela que estava repleta de gente. A Palavra de Deus tirou o atraso e caiu em terreno fértil. A leitura falava da Sunamita que hospedou  o Profeta perseguido. Pedro interpretou: Esta mulher acolheu Eliseu. E hoje em dia, o que estão fazendo com Jesus que peregrina no mundo? Estão fechando a porta para Ele e não querem ouvir sua Palavra!

Depois disto a capela nunca mais  ficou fechada. São Pedro no céu contou as chaves do Reino e não faltava mais nenhuma.

Obs: Esta é uma história verdadeira  na linha da TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO.
Com ela quero homenagear Dom Pedro Casaldáliga que morreu ontem,
Seguidor de Jesus Libertador.

Teresina, dia 10 de agosto de 2020

 O autor é Frade Franciscano, nasceu na Alemanha em 1940.
Chegou ao Brasil como missionário em 1964. Depois de completar os estudos em Petrópolis atuou no Piaui e no Maranhão. Exerceu trabalhos pastorais nos anos 80 em meio a conflitos de terra. Desde 1995 vive em Teresina no RETIRO SÃO FRANCISCO onde orienta pessoas na busca da vida espiritual.   

Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor e foi publicado da forma como foi recebido, sem alterações pela equipe do Entrelaços.


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