Creio que a dor mais profunda do ser humano é a de não sentir-se amado. A famosa ideia de progresso estabelece os padrões de felicidade que devemos alcançar para sermos reconhecidos. A sociedade moderna prega um progresso linear, mas não sabe onde quer chegar. Simplesmente avançamos, mas sem ter uma meta a alcançar. Vivemos nos projetando em situações que ainda não existem. Deixamos de habitar com intensidade o presente. A sabedoria que os mestres espirituais nos propõem consiste em não preencher a nossa vida com atividades, em não se preocupar com o que temos que fazer no dia seguinte, mas simplesmente em viver cada momento como se fosse o último.

Quero propor um estilo de vida alternativo. Inspiro-me na obra do espiritual Henri Nouwen intitulada Uma espiritualidade do viver. O texto segue a ordem: isolamento (solidão), comunidade (celebrar) e ministério (fazer).

Isolamento (solidão). Tudo deve começar por aqui. Na solidão descobrimos o amor próprio. Inicialmente, devemos entender que não necessitamos da aceitação da sociedade para sermos felizes. Devemos nos amar como somos, com nossos dons e limites. O problema moderno é forçar-nos a entrar em padrões estabelecidos, como a moda, a cultura do consumo, o sistema financeiro que nos dá uma falsa sensação de liberdade, etc. A solidão consiste num estilo revolucionário porque resgatamos o livre-arbítrio. As novas tecnologias, apesar das inúmeras vantagens, manipulam nossos dados e privacidade. As grandes empresas do vale do silício impõem sobre nós, cotidianamente, as suas propagandas que criam padrões de homogeneidade, fortalecendo assim a ditadura do igual. Neste sistema não há alternativas. A solidão é crítica porque me faz tomar distância para refletir sobre o que realmente vale a pena.

Comunidade (celebrar). Se é na solidão que descubro que sou amado independente dos padrões sociais de aceitação, então estar em comunidade se trata de viver a unidade na pluralidade, ou seja, celebrar juntos os dons de cada um, sem processos seletivos. A dimensão social do ser faz parte da alma política de cada indivíduo. A convivialidade é algo intrínseco a existência humana. Quando dizemos comunidade nos referimos a capacidade de respeito incondicional que se deve prestar a cada pessoa. O sistema atual é excludente porque seleciona os mais fortes. Trata-se de um neodarwinismo disfarçado. O desafio consiste em criar espaços comunitários mais celebrativos, nos quais se trabalhe a acolhida das diferenças, sem sufocar a identidade pessoal de cada um.

Ministério (fazer). Este é o último passo, mas não menos importante, do estilo alternativo de vida que estamos propondo. Alguém que se descobriu amado e que aceita celebrar esta dádiva com as diferenças, sem impor nada, torna-se realmente um ministro sensível aos apelos da vida. A dimensão do fazer não é um mero executar de atividades. Ministrar é o mesmo que servir. Como ministros deveríamos ser todos servos uns dos outros. A lógica que impera é aquela da gratuidade. Mais uma vez, tem-se aqui um contraste com a sociedade moderna, pois a mesma parte do pressuposto da eficiência e eficácia. No entanto, um modelo de vida alternativo baseia-se no dom de si, ou seja, cada um é convidado a entrar em cena e contribuir com algo de bom, independente de seus limites humanos. Para despertarmos a tal dimensão deveríamos aprender a ter mais contato com a realidade da dor alheia. É emocionante, por exemplo, vê em asilos os próprios idosos, a maioria esquecidos por seus familiares, servindo aqueles mais frágeis: uns ajudando a levar comida à boca, outros empurrando as cadeiras de rodas daqueles que não têm mais forças nos braços; e tantos outros exemplos que poderíamos citar. Isso se trata de um fazer que humaniza. Em outras palavras: o segredo está em experimentar aquilo que achamos desnecessário, pois não nos trará reconhecimento e produtividade. Mas é só nesta lógica que se encontra a felicidade.

Solidão que faz descobrir-me que sou amado, comunidade onde celebramos juntos esta dádiva e ministério que nos leva a servir na gratuidade, eis as três grandes colunas de sustentação de uma espiritualidade do viver. E você, não acha que chegou o momento de olhar a vida a partir desta ótica?(Camaragibe/PE, 29 de junho de 2020)

Obs: O autor é religioso da Congregação da Paixão de Jesus Cristo (Passionistas). Natural de Fagundes, Paraíba. É mestre em Teologia Fundamental pela Pontifícia Universidade Gregoriana (PUG) – Roma.

Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor e foi publicado da forma como foi recebido, sem alterações pela equipe do Entrelaços.


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