Djanira Silva 1 de julho de 2020

djaniras@globo.com
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Temo o desconhecido nas armadilhas das curvas e das retas silenciosas. As paralelas me atraem. Entre elas se escondem as sugestões. Tenho medo. Sim tenho, da realidade, da indiferença, da verdade, da mentira. Medo que alimentou o meu primeiro choro.

Adormeço, acordo, adormeço. Confundem-me os dias que nunca sei como gastar. As estradas me esperam. As distâncias são abismos profundos sem começo, sem fim. Dormindo ou acordada os sonhos chegam. Dormindo, não há coerência nem lógica nas tramas tecidas pelo inconsciente. Acordamos da tirania imposta pelos sonhos, damos graças a Deus pela realidade dos enganos presentes. Mesmo às vezes nos perturbando, melhores, inofensivos, não somos responsáveis por eles, não os escolhemos. No entanto, sabem de tudo e se escrevem em linhas tortas tão tortas que nem o consciente consegue consertar. Apagam-se rapidamente sem deixar rastros. São os verdadeiros sem máscaras, sem planejamentos, sem expectativas.

Os que nos atacam durante a vigília, são os temíveis, os perigosos. Deles, acordar é pesadelo. Chegam no meio da noite afugentam o sono. Possuem duas caras – uma a que inventamos, a outra real. Comandam o imaginário e nos fazem caminhar por estradas cheias de promessas, idas sem retorno. Vestem-se de plumas e paetês, falsos reflexos que confundem a vontade e anulam o direito de escolha. Acenam com promessas mirabolantes e, para sermos felizes, fazemos questão de acreditar. Deles não acordamos, precisamos adormecer para esquecê-los.

Sonhar de olhos fechados é mergulhar em abismos dos quais não sabemos voltar. Sonhar de olhos abertos tem na realidade a certeza da volta.
Sempre queremos o melhor, o mais belo, o perfeito. Carecemos de ilusões para viver. Caímos nas malhas das promessas que nos fazemos. Com a decepção dos desencontros nos consolamos, apelamos para que tenha sido um sonho. Tantas vezes ficamos abstraídos do real, na esperança de que se torne verdade tudo quanto desejamos sem saber como alcançar o que tentamos fazer existir. Desencantados ainda repetimos – foi sonho.

Esta energia que flutua na superfície do corpo e percorre a pele levando a um despertar de desejos nunca sabemos onde começa, onde termina. Mergulhamos nas ondas sonoras de um sino que corta os sibilos do vento numa caminhada para trás. Ondas de um êxtase que se misturam à confusão do que é e do que poderá ser. Será que nos servem sonhos de consolação?

“Morrer, dormir, não mais termina a vida”. Expressões de um poeta que sabia exatamente de onde vêem e para onde vão os fantasmas dos nossos desejos.

O homem é o único animal que luta para ser feli, eternamente enganado pela própria imaginação.

Os sonhos da noite, involuntários e afoitos. Os do dia, necessários para alimentar a vida.

Em certa parte da Odisséia encontramos uma afirmação de que os sonhos nos chegam por duas portas divinas: a de marfim que é a dos sonhos enganadores e a de chifre que é a dos sonhos proféticos. Será que os sonhos que se antecipam são apenas ilusões, momentos enganadores?

Muitas vezes as enganações da noite se mesclam, com as do dia, deixando, por muitas horas ainda, uma agradável sensação de realidade.

Obs: A autora é poetisa, escritora contista, cronista, ensaísta brasileira.

Faz parte da Academia de Artes e Letras de Pernambuco, Academia de Letras e Artes do Nordeste, Academia Recifense de Letras, Academia de Artes, Letras e Ciências de Olinda, Academia Pesqueirense de Letras e Artes , União Brasileira de Escritores – UBE – Seção Pernambuco
Autora dos livros: Em ponto morto (1980); A magia da serra (1996); Maldição do serviço doméstico e outras maldições (1998); A grande saga audaliana (1998); Olho do girassol (1999); Reescrevendo contos de fadas (2001); Memórias do vento (2003); Pecados de areia (2005); Deixe de ser besta (2006); A morte cega (2009). Saudade presa (2014)
Recebeu vários prêmios, entre os quais:

Prêmio Gervasio Fioravanti, da Academia Pernambucana de Letras, 1979
Prêmio Leda Carvalho, da Academia Pernambucana de Letras, 1981
Menção honrosa da Fundação de Cultura Cidade do Recife, 1990
Prêmio Antônio de Brito Alves da Academia Pernambucana de Letras, 1998 e 1999 
Prêmio Vânia Souto de Carvalho da Academia Pernambucana de Letras, 2000
Prêmio Vânia Souto de Carvalho da Academia Pernambucana de Letras, 2010
Prêmio Edmir Domingues da Academia Pernambucana de Letras, 2014

Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor e foi publicado da forma como foi recebido, sem alterações pela equipe do Entrelaços.


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