(professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio,
decana do Centro de Teologia e Ciências Humanas da PUC-Rio *)
agape.usuarios.rdc.puc-rio.br

A palavra “heteros” vem do grego e quer dizer “outro”. A partir daí “heterólogo” é definido pelo dicionário como antônimo de “homólogo”.  Trata-se de algo que carrega em si uma estrutura diferente daquela que está inserida nas partes do contexto ou do meio ambiente.  Um elemento heterólogo é um elemento estranho, um corpo estranho, portanto, diferente e alheio àquilo que é normal, comum, afeito ao ambiente e ao entorno.

Nas Ciências Humanas e segundo a definição do grande pensador francês  Michel de Certeau, a heterologia é discurso do outro, que é ao mesmo tempo discurso sobre o outro e discurso no qual o outro fala. A heterologia assume assim o risco de uma palavra em liberdade, com todas as suas consequências.  E talvez a principal dessas consequências seja o fato de que o sujeito receptor ou o sujeito que é o objeto do pensar e do discurso seja o que toma a palavra e se torna emissor.

Michel de Certeau com o conceito de heterologia qualifica primeiramente a história, disciplina onde um narrador relata fatos e testemunhos sobre o outro que permanece mudo e sem capacidade de intervenção.  Trata-se de um outro sempre ausente e no entanto, sempre pressuposto. A teologia também pode ser considerada como um discurso heterólogo.

Trata-se de um discurso construído a partir de uma linguagem revelada, que vem de Outro – Deus –  o qual em Sua Palavra se dirige ao ser humano.  Mas também se trata de um discurso que relata o que é vivido pelos outros, pelas outras pessoas, onde se crê que habita o Espirito Santo de Deus.  Essas pessoas “ outras” podem ser a comunidade de fé ou podem também ser outros que vivem em espaços “heterólogos” ao espaço eclesial.  Ou ainda outros e outras que estejam fora do espaço seja eclesial como social mais restritivamente entendido por haverem sido marginalizados ou excluídos deste.

A Teologia da Libertação, na América Latina, identificou nos pobres esses “outros” que vivem excluídos das benesses do progresso e constituem a grande maioria do povo latino-americano. O teólogo peruano Gustavo Gutierrez, fundador da Teologia da Libertação, afirma que “os pobres são não pessoas”.

Jon Sobrino cunhou a categoria “vítimas” para significar aqueles que tinham a vida constantemente ameaçada e sofriam as consequências de um sistema injusto que os marginalizava e excluía das possibilidades de viver digna e plenamente. Refletiu o teólogo basco-salvadorenho que estas “vítimas” seriam na história o rosto de Jesus Cristo, que com eles e elas se identificaria.  E a atitude do cristão diante desses e dessas deveria ser tirá-los da cruz onde os pregou a injustiça e a opressão. Acrescentaríamos aqui: devolver-lhes a palavra.

O episódio do assassinato de George Floyd em Minneapolis, no último dia 25 de maio, trouxe para a frente de todos os debates a questão dos negros e do racismo. Visto como “outro” e diferente pela sociedade ocidental, que se acredita branca e prototípica do que seja a humanidade, a história dos negros trazidos da África e escravizados deste lado de cá do mundo foi sempre narrada por outros. Falava-se sobre os negros, a respeito deles.  Mas não se ouvia a voz dos próprios, a não ser em alguns nichos que os mesmos negros ocuparam com tal genialidade e competência que era impossível invisibilizá-los. Refiro-me aqui à música, à dança e outras formas da arte. Porém, mesmo nestas áreas, o discurso que se fazia ouvir era de lamento, dor, gemido sob a opressão de um discurso que seria apropriado pelos que ocasionavam aquela dor.

No caso de George Floyd, seu gemido agonizante também falava de uma dor.  O joelho branco que há séculos esmagava a dignidade de seu povo agora estava sobre seu pescoço e o asfixiava. Tudo que tinha era seu gemido.  E surpreendentemente este gemido se tornou discurso.  A heterologia se desvelou e tomou os rostos e bocas do mundo inteiro, falando de uma opressão que clamava por um fim pois atingia não apenas os negros mas toda a humanidade. E a voz inocente de Gianna, sua filha de seis anos,  nomeou a heterologia redimida: “Meu pai mudou o mundo”.

A alteridade negra encontra seu lugar de fala, de cidadania, não se contentando em ser apenas uma heterologia marginal e estrangeira.  A morte de Floyd resgata toda a saga dolorosa, toda a via crucis dos escravizados, da África natal aos navios negreiros, aos porões da injustiça, a todas as violências emudecedoras. O rosto negro levantou-se e se fez epifânico.  Cabe aos construtores da civilização ocidental ouvir, receber essa outra palavra e tratar de entendê-la e assimilá-la.

Obs: Maria Clara Bingemer é  autora de “Mística e Testemunho em Koinonia” (Editora Paulus), entre outros livros.

Copyright 2020 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato: [email protected]>

Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor e foi publicado da forma como foi recebido, sem alterações pela equipe do Entrelaços.


busca
autores

Autores

biblioteca

Biblioteca

Entrelaços do Coração é uma revista online e sem fins lucrativos compartilhada por diversos autores. Neste espaço, você encontra várias vertentes da literatura: atualidades, crônicas, reportagens, contos, poesias, fotografias, entre outros. Não há linha específica a ser seguida, pois acreditamos que a unidade do SER é buscada na multiplicidade de ideias, sonhos, projetos. Cada autor assume inteira responsabilidade sobre o conteúdo, não representando necessariamente a linha editorial dos demais.
Poemas Silenciosos

Flickr do (Entre)laços

ExposiçãoDesenhos

Série "Natureza"

Série Natureza

DeJanelaEmJanela

DeCostas

Série "Detalhes"

Série "MoradaImprovisada"

Série Morada Improvisada

Finados

Tratando de peixe

Série Flores

Série Flores

Esporte na Colônia

Série Natureza 01

Série Natureza 05

Caxambu

Caxambu

Caxambu - 02

Caxambu - 01

Penumbra...

Aglomeração...

Portão florido...

Barra Palace

Conjunto Harmonioso...

Reunião privada...

Espaços ocupados...

Arquitetura Perfeita...

Convergência II

Convergência I