Djanira Silva 15 de julho de 2020

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Todas as tardes, sentada na rede, esperava por ele na enganação dos sonhos. Vestido engomado, cheirava a alfazema. No coração a esperança de vê-lo chegar, abraçá-la, sentar-se ao seu lado. Na ansiedade da espera, sonhava, enquanto o sol se mudava devagar e frio para detrás da serra. Os passarinhos, nos galhos das goiabeiras, afinavam os trinados para a manhã seguinte.
Há muito, entendera que o engano amortalhava-lhe sonhos e desejos, na indiferença que chegava a passos largos sem ao menos olhar a mulher viva, sentada na rede à sua espera.
Aos poucos, deu-se contas da inutilidade de ser a esposa, a mulher de casa a que não sabia de nada, a que não podia rir ou sair sozinha ou mesmo, falar e ser ouvida. A mulher parideira que servia ao marido.
Queria ser diferente da mãe e da avó, prisioneiras de preconceitos e tabus, presas de sonhos que só levavam à tristeza. As coisas que aprendera não lhe serviam de nada. Vivia das experiências de mulheres anuladas, sem vontade e sem desejos. Não era assim que queria ser. Ao casar pensara em mudanças. Foi seu primeiro engano, cadeias erguiam-se, dia-a-dia, ao seu redor.
Enquanto esperava, via passar no outro lado da rua as outras mulheres, as de vida fácil, de vida alegre, as sem donos e sem mandamentos. Sempre rindo. Flores nos cabelos, roupas coloridas. Falavam alto para despertar a atenção dos homens e a inveja das surdas, das mudas das sem voz e sem vez, das que choravam e esperavam nos finais de tarde, uma palavra, um sorriso, um sinal de vida. Seria ela mulher da morte e da tristeza?
Tomou uma decisão. Mudaria o ritual da espera. Vestiu-se de festa, cabelos soltos, neles prendeu uma rosa. Um alvoroço, um calor, percorreu-lhe o corpo misturado aos últimos raios de sol que entravam pela janela. O cheiro do entardecer invadia a casa, misturando-se ao da flor que lhe enfeitava os cabelos.
Trêmula de espera sentou-se na rede.
O portão, de dobradiças enferrujadas, riu um riso espremido quando ele chegou.
Diante da rede, fitou-a com um olhar enfurecido e trovejou, mulher que se presa não bota flor nos cabelos. Quer ser igual às raparigas da rua? Quer? Arrebatou o bogari esmagou-o sob os pés. Dentro dela a revolta explodiu:
Quem disse que eu quero ser mulher que se presa? Quero é ser alegre, uma mulher feliz, desejada e amada. Acabar com os fingimentos do meu próprio corpo. Cansei de ser de casa, mulher do dia, rainha do lar, rainha sem trono, submissa insatisfeita, mal vestida, mal amada, cheia de angústias e desejos reprimidos. Vou encher de flores os cabelos abrir a porta e juntar-me a elas.

Sentada na rede, chorou pelos sonhos esmagados. Chorou pela covardia que a impedira de falar.

Obs: A autora é poetisa, escritora contista, cronista, ensaísta brasileira.

Faz parte da Academia de Artes e Letras de Pernambuco, Academia de Letras e Artes do Nordeste, Academia Recifense de Letras, Academia de Artes, Letras e Ciências de Olinda, Academia Pesqueirense de Letras e Artes , União Brasileira de Escritores – UBE – Seção Pernambuco
Autora dos livros: Em ponto morto (1980); A magia da serra (1996); Maldição do serviço doméstico e outras maldições (1998); A grande saga audaliana (1998); Olho do girassol (1999); Reescrevendo contos de fadas (2001); Memórias do vento (2003); Pecados de areia (2005); Deixe de ser besta (2006); A morte cega (2009). Saudade presa (2014)
Recebeu vários prêmios, entre os quais:

Prêmio Gervasio Fioravanti, da Academia Pernambucana de Letras, 1979
Prêmio Leda Carvalho, da Academia Pernambucana de Letras, 1981
Menção honrosa da Fundação de Cultura Cidade do Recife, 1990
Prêmio Antônio de Brito Alves da Academia Pernambucana de Letras, 1998 e 1999 
Prêmio Vânia Souto de Carvalho da Academia Pernambucana de Letras, 2000
Prêmio Vânia Souto de Carvalho da Academia Pernambucana de Letras, 2010
Prêmio Edmir Domingues da Academia Pernambucana de Letras, 2014

Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor e foi publicado da forma como foi recebido, sem alterações pela equipe do Entrelaços.


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