Dasilva 15 de julho de 2020

“Dia após dia, a sirene da fábrica lançava seu rugido por entre o ar pesado da fumaça e os vapores de óleo do bairro operário…. De pequenos barracos cinzentos, respondendo ao chamado da fábrica, homens de ar aborrecido e músculos ainda cansados, saíam apressados, como baratas assustadas …. Ao ar frio da madrugada, caminhavam para as gaiolas de pedra da fábrica que, serena e indiferente, os esperava com seus numerosos olhos quadrados… Exclamações roucas de vozes sonolentas e injúrias dilaceravam o ar…. eles iam ao encontro de outros sons – o barulho surdo das máquinas, o roncar do vapor…

Quando o sol se punha e os raio vermelhos brilhavam nas janelas das casas, a fábrica vomitava de suas entranhas de pedra, aquelas escórias humanas… e esses operários, cara negra de fumaça, dentes brilhantes de fome, espalhavam-se, de novo pela rua, deixando no ar exalações viscosas do óleo das máquinas…. Agora, as vozes eram animadas e até alegres. O trabalho terminara por aquele dia. O jantar e o repouso os esperava em casa.

A fábrica tinha devorado sua jornada, as máquinas tinham sugado de seus músculos todas as forças que necessitavam…. Um dia mais tinha sido riscado de suas vidas; tinham dado mais um passo para o túmulo. Mas a doçura do repouso estava próxima e o prazer da taberna esfumaçada… e ficavam contentes. A fadiga, acumulada durante anos lhes tirava o apetite e muitos para comer, bebiam, excitando o estômago com queimadoras agudas do álcool. Ao chegar em casa, os homens zangavam-se com as mulheres e, muitas vezes, batiam nelas sem poupar seus punhos. Os homens jovens ficavam na taberna ou faziam festinhas na casa de um deles, tocavam sanfona, cantavam canções indecentes, dançavam e contavam piadas obscenas e bebiam.

Extenuados pelo trabalho, os operários enervavam-se com facilidade. A bebida provocava uma irritação incompreensível e mórbida que exigia saída. Então, para libertar sua cólera, a qualquer pretexto fútil atiravam-se uns contra os outros numa fúria bestial… uns saíam estropiados e, às vezes, havia mortes. Em suas relações dominava uma animosidade escondida, incurável como a fadiga de seus músculos. Nasciam com essa doença da alma que herdavam dos pais e que os acompanhava como uma sombra, até o túmulo e os fazia cometer atos odiosos de inútil crueldade.

Nos dias e festa, dormia-se até às dez horas. Depois, as pessoas respeitáveis e casadas vestiam o que tinham de melhor e iam à missa, censurando no caminho, a indiferença dos jovens pelas coisas religiosas. Retornando, deitavam-se até à noite quando iam passear preguiçosamente pelas ruas.  

Quando os operários se encontravam fora da fábrica, conversavam sobre ela, sobre as máquinas e falavam mal dos chefes…. Toda palavra e todo pensamento era a respeito de trabalho…. Não havia sequer uma ideia, pobre e mal exprimida que fosse, para lançar uma solitária centelha, na monotonia cinzenta dos dias…. Como água turva escoava-se igual e lenta, ano após ano. Cada dia era feito dos mesmos hábitos antigos e tenazes, de pensar e agir.

O melhor serralheiro da fábrica… ganhava pouco porque era grosseiro com os chefes. Depois do jantar se a mulher não tirava a mesa a tempo, atirava a louça ao chão, punha uma garrafa de vodca, berrava uma canção melancólica… e deitava-se no banco até o chamado da sirene. Vingava nas costas da mulher o desgosto que o sufocou toda a vida, sem saber a razão. Trabalhou 30 anos; a fábrica, no começo, tinha dois edifícios, agora tinha sete.  

Ninguém experimentava o desejo de modificar alguma coisa. Se notavam num estranho um traço extraordinário tratavam com dureza e repulsa instintiva, como se isso trouxesse às suas existências algo que perturbasse a regularidade morna, penosa, mas tranquila. Acostumados a ser esmagados pela vida com força constante, não esperavam qualquer melhoria. Consideravam que toda alteração só tornaria seu jugo ainda mais pesado.

Havia alguns que diziam coisas novas no bairro. Não se discutia com eles, mas escutavam, sem acreditar, as histórias bizarras que provocavam surda irritação e inquietude. Outros até eram perturbados por uma vaga esperança e punham-se a beber ainda mais para espantar esse sentimento inútil e incômodo. Assim, os operários viviam uns cinquenta anos, depois morriam…

*Extrato do romance “A mãe”, de Máximo Gorki

Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor e foi publicado da forma como foi recebido, sem alterações pela equipe do Entrelaços.


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