Ina Melo 1 de julho de 2020

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Há mais de cinco décadas do nosso conhecimento, acordei recordando um passado perdido nas lembranças do tempo. No mundo mágico e encantado no qual deves hoje habitar, não sei se guardaste a imagem da jovem branca e magra, entre menina e mulher, que por ti apaixonou-se perdidamente. Amor puro e inocente que talvez, nem tu mesmo, soubesses.
Eras para mim naquela época, o sonho materializado do Príncipe Encantado: alto, louro, olhos azuis, inteligente e bonito. Ah! Como sonhamos quando somos jovens e puros! Bem mais velho que eu, tu abusavas de charme para me encantar. Quis tanto te namorar que o sonho materializou-se.
Não sei como aconteceu, pois não conversávamos. Apenas te via da janela, quando passavas. Finalmente, éramos vizinhos. Ouvia o teu vozeirão. Gostavas de cantar e recitar versos e poemas de amor (Shaespeare, Verlaine, Fernando Pessoa). Achava que escrevias para mim. Como somos tolos! E assim enveredei pelos caminhos românticos da poesia.
Sempre gostei de ler e através da tua irmã, permitias que teus livros me fossem emprestados. Eu os lia e os acariciava, pois sabia que tuas mãos os tocavam. Um dia, nunca esqueci, estava a caminho do colégio, quando vi que me esperavas ao pé da ladeira que levava ao Farol. Ao passar, seguraste meu braço com firmeza e te apresentaste. Sabias meu nome, o que estudava e muitas outras coisas, hoje perdidas no esquecimento.
Eu era para ti um livro aberto. Amava-te com o ardor e a pureza da inocência. Para completar, esse amor era proibido, pois minha irmã com quem eu morava, era rígida e te considerava um doidivanas. Na irreverência da juventude, não me importavam dogmas e conceitos. Eras o meu Príncipe Encantado e pronto. Não pensava no futuro. O que é futuro para quem está no início da vida?
Desde então, aprendi a só valorizar o momento, isto permanecerá comigo até o final dos tempos. Passei, não sei se posso dizer passar (tinhas namorada, amigas, uma vida paralela à minha) quase três anos nesse embevecimento amoroso. Eras simbolicamente o meu namorado e não me interessava por nenhum dos jovens que me cercavam.
Pura na minha ingenuidade, a mim bastava só o instante, àquele que oferecias para me acompanhar até a porta do colégio. Por uma única vez, nunca esquecerei, foste me esperar à tardinha, quando o sol mergulhava seus raios dourados na Lagoa. Lembro que mudamos o caminho e ao voltarmos, paramos na avenida, sentamos num banco da praia. Tremia de medo e emoção quando de leve, tocaste o meu rosto com a boca morna e roubaste um beijo, cheio de medos e pecados (o único que trocamos). Naquele tempo era assim. Voltamos para casa e não lavei o rosto.
No fim do ano, quando íamos às festas da praça, sempre que anunciavam a canção de sucesso, Índia, eu sabia que dedicavas a mim (eras louro misterioso Soube através de um amigo comum, encarregado de dar as notas ao locutor). Assim, vivi feliz o meu primeiro amor.
Quando parti para minha cidade de origem, muitas coisas impediram o nosso último encontro. As nossas famílias amigas se despediram na estação, mas tu não estavas lá, que pena! Seria a ultima vez. Mas até hoje guardo na lembrança, quando o trem partiu e vi o teu vulto longe de todos, com um belo sorriso acenando para mim. Que imagem linda para o fim de um sonho!
Por armadilhas do destino, nos anos seguintes, quando eu voltava nas férias, sempre estavas viajando para outras cidades e países. Passei anos me recusando a namorar, pois esperava que o sonho se materializasse.
Um dia, através de uma colega do colégio, recebi a trágica notícia do teu encantamento. Que choque! Quantas lágrimas de desespero. Era o fim da esperança. Um recorte de jornal relatava que: “um jovem e promissor estudante, num passeio pela cachoeira de Paulo Afonso, ao fotografar o véu da noiva, resvalou e caiu desaparecendo no turbilhão de águas límpidas e translúcidas.” Ah! Meu querido e impossível amor, que modo lindo de mergulhar num outro mundo.
A partir de então, num departamento do meu coração, fechado á chaves permaneces até hoje quando sigo os caminhos do inverno da vida. Aconteceram paixões e amores, casei, constitui uma bela família, tornei à solidão na qual me encontro, mas as belas lembranças da juventude, todas são tributadas a ti, amor irreal e não concretizado. Praia de Boa Viagem, julho/2006.

Obs: Imagem enviada pela autora.

Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor e foi publicado da forma como foi recebido, sem alterações pela equipe do Entrelaços.


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