Elizabete Godinho 1 de julho de 2020

Havia uns meses que aquela leve dor no peito alertava para um novo sintoma. Não que fosse uma doença coronária. Era uma tristeza. Nem mesmo o choro liberado nas manhãs alcançava ou esgotava a angústia acumulada no passar das horas, Quem sabe, dos anos…Em seus pensamentos havia um considerável espaço dominado pelas suas tristezas e eram essas que a faziam admitir o quão era sozinha e, portanto, necessitava exercer plenamente a sua autonomia para libertar-se. Esquecer. Sabia que, se planejasse suas alegrias, poderia diminuir em muito a tristeza. Por isso encheu-se de coragem e diante das suas próprias amarras falou pausadamente:

-Agora eu vou viver a minha vida, livre! Cansei dessa prisão!

Intimamente esperou algo que soasse como se fosse retrucar para si mesma. Medo. O pensamento havia permitido um hiato abrindo-se em gavetas limpas prontas a receberem as novas informações do sentido de liberdade. Já havia tentado outras vezes, mas logo barreiras quase intransponíveis eram levantadas pela sua condição tão presa às convenções, às aparências e aos receios em não fazer ninguém sofrer por nada, não deixar ninguém triste. Sim, porque ela sabia que a dor da tristeza chegava fininha e sorrateira, alojava-se cuidadosamente no peito e num impulso e em poucos segundos, tornava-se lancinante em picos alternados que fazia secar a boca.

Finalmente, assumiu os riscos. Vasculhou sua memória e como se estivesse frente a um cofre procurou, recuperou e selecionou todas as relevantes (memórias) que a fizessem relocalizar no tempo as coisas simples e prazeirosas que fazia antes, tipo ouvir seus discos na velha vitrola ou simplesmente sentir a carícia do vento no rosto. Não iria se importar no momento com o que era velho ou atual. Iria somente reconectar-se com a sua mais profunda essência, na busca da leveza da vida, num download de reconhecimento.

Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor e foi publicado da forma como foi recebido, sem alterações pela equipe do Entrelaços.


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