7 – Agradecimento Pela Experiência Transformadora

          “Vede que grande presente de amor o Pai nos deu, de sermos chamados filhos de Deus! E nós o somos! Caríssimos, desde já somos filhos de Deus, mas nem sequer se manifestou o que seremos! Sabemos que, quando Jesus se manifestar, seremos semelhantes a ele, porque o seremos tal como ele é”.  (1 Jn 3, 1-2)

Um dia chegou uma carta na nossa caixa de correspondência fixada no muro da PAMEN. O envelope era uma folha de papel grampeada em todos os lados e, dentro, uma carta e R$ 500.00.  A carta dizia o seguinte:

 “Sei que isso não paga todo o trabalho, educação e paciência de lidar com nós que fomos alunos da Pastoral, mas envio essa quantia em consideração ao que fazem com nós a perspectiva de um futuro. Hoje não estou exatamente onde quero chegar, mas tenho certeza de um dia chegar onde quero, grande parte dessa minha caminhada foi graças a vocês, instrutores, secretária, irmão, não paga nem 10% do que aprendi com vocês, mas não considerem isso como pagamento por favor, mas como uma retribuição e  consideração desses anos de Pastoral. Mas espero que com isso possa ajudar mais crianças e adolescentes de Santarém. Espero que continuem com esse trabalho sempre. Em nome de outros jovens que passaram por aí muito obrigado, que Deus ilumine a todos e continuem a dar a essas crianças e adolescentes da cidade que andam tão vulneráveis ao mundo, um rumo a elas em suas vidas. Obrigado, e mais uma vez agradecendo a todos”. Ex-aluno da Pastoral do Menor

O autor não assinou a carta. Mas o agradecimento evidencia a formação que recebeu quando esteve conosco.

Muitos que participavam na PAMEN usam uma linguagem semelhante a do autor da carta, quando dizem que: “Sou o que sou hoje por causa da experiência que tive com vocês”. Muitas mães e responsáveis dizem a mesma coisa sobre a transfiguração dos (das) filhos (as) sobrinhos (as) e netos (as) que passaram pela experiência da PAMEN.  Além de dar o peixe, é uma experiência que ensina a pescar, viver a sua vida com um jeito de SER mais positivo. Os participantes que passaram pela experiência conosco tem mais condições de conduzir as suas vidas, de não ter receio de procurar orientação de alguém ou buscar a Deus na oração, quando precisar, ou correr o risco de buscar um trabalho.

Houve casos, também, de meninos que não aceitaram a proposta de assumirem uma nova caminhada para mudar as suas vidas. Um caso foi o do Jacundá, apelido de um jovem que, desde a infância, nunca teve moradia certa, passando de mão em mão durante a sua vida e sem a certeza de ser amado por alguém.

 Jacundá era do primeiro grupo da PAMEN e vivia em constante conflito com os comerciantes e a polícia. Foi detido várias vezes e solto logo depois. Naquela época não tinha um lugar adequado para manter preso menores em conflito com a Lei. Não achavam os responsáveis para assumirem o acompanhamento dele. Nesse caso a polícia, ou a Juíza, frequentemente pediram à PAMEN para acompanhar o Jacundá.

Já na época do ECA ele foi acusado, sem provas, de ter abusado e matado uma menina de 12 anos que vendia verduras pelas ruas da cidade. Sob pressão da acusação contra ele, fugiu e ficou fora da cidade por um bom tempo. Quando retornou para Santarém foi imediatamente preso. Por ter sido acusado de cometer um crime de violência sexual contra uma criança, e a matada, ficou marcado pelos outros jovens presos no mesmo local.

 Numa das visitas que eu fiz para ele na prisão, ele pediu um cadeado para poder se trancar numa das células quando fosse dormir a noite, com medo de ser morto pelos outros presos. Fiz contato com os seus parentes e ninguém quis assumir seu caso. Comprei o cadeado com a intenção de entregá-lo no dia seguinte, dia de Natal. Na véspera ele foi assassinado pelos outros presos com dezessete facadas.

Seu corpo ficou no necrotério por alguns dias, sem que alguém aparecesse para providenciar o enterro. A PAMEN assumiu o sepultamento contando com a colaboração de alguns membros da equipe, e alguns  amigos do Jacundá. Foi enterrado em cima de uma outra cova.  Mantivemos o local limpo e decorada de flores por alguns anos, até desaparecer a cruz que indicava o local. Esperamos encontrar o Jacundá no céu junto ao Pai de todos nós; ele, que nunca teve um lar certo, morto por ser suspeito de ter cometido um crime bárbaro. Nunca foi identificado o assassino verdadeiro da pequena Antônia.

Tínhamos três regras para que os menores mantivessem contato com as suas famílias, “dormir em casa” era uma delas.  Mas, por causa da pobreza da família, ou a tendência já criada por hábito de ficar muito tempo na rua sem voltar para casa ou frequentar a escola, alguns menores ficavam quase o tempo todo na rua perturbando o movimento no comércio.

Por causa destes problemas no ambiente do comercio, alguns comerciantes formaram um grupo para pegar estes menores.  Em vez de entregar para a polícia, aplicava sua própria punição. Em alguns casos os menores foram trancados no banheiro duma loja por algum tempo, às vezes pela noite inteira.

 Um menino da PAMEN, de 12 anos, que vendia picolé e não dava problema para ninguém, foi vítima de uma dessas “caçadas”. Foi acusado de ter feito algo de errado no comércio. Depois foi pego e desapareceu. Passado alguns dias, seu corpo foi encontrado enforcado com a alça da caixa de isopor em que guardava os picolés. Nunca foi descoberto os responsáveis deste crime.

Um outro menino que tinha roubado o colar de ouro de uma moça, foi procurado pelos parentes dela até que descobriram o seu esconderijo. Foi levado para algum lugar desconhecido e nunca mais foi encontrado.

 Sabemos que usando a violência para combater a violência não se resolve nada. A violência nunca vai trazer a solução para um problema. Somente uma Cultura de Paz vai trazer uma paz duradora para a humanidade. A PAMEN trabalha para que esta Cultura de Paz aconteça no ambiente da PAMEN Centro e Núcleos, nas famílias dos meninos e meninas, e, na escola onde eles e elas participam.

Crimes na sociedade surgem principalmente por que as pessoas não tem condições para uma vida digna e perdem o sentido para viver. Todos os meninos e as meninas que recebemos na PAMEN estão em busca de uma vida onde possam ter uma convivência familiar tranquila, com alimentação adequada, vestuário decente, moradia digna, condições para estudar numa escola de boa qualidade e de ambiente fraterno, emprego com carteira assinada e salário condigno, condições para planejar fazer uma possível faculdade, bairro bem cuidado com ruas asfaltadas e infraestrutura de água e esgoto bem instaladas.

Já foi comprovado que seria mais econômico para o governo favorecer estas boas condições de vida para as famílias carentes, do que gastar no combate ao crime que é, muitas vezes, resultado de uma condição de pobreza sem saída.

 O ser humano sempre vai buscar uma maneira de viver dignamente com a sua família.  Qual é o pai, ou mãe, que não fica angustiado quando não tem comida e água limpa para os seus filhos? Às vezes vão em busca dessas necessidades a qualquer custo. Nós orientamos aos pais para virem até a PAMEN se não tiverem o necessário para dar aos seus filhos. Não é uma solução ideal, mas, no momento da crise, evita que os pais ou filhos optam para tentar resolver a falta de condições de vida de maneiras ilícitas, como venda de drogas, roubo, etc.

 Às vezes há mães que não têm o dinheiro da passagem de ônibus para chegarem a PAMEN e voltar para casa. Algumas vem andando e retornam com o dinheiro da passagem dado na PAMEN. Moram muito longe e chegam cansadas. Do bairro da Conquista, por exemplo, para a PAMEN tem que caminhar uma distância de mais de oito quilômetros, levando mais ou menos duas horas de caminhada beirando a estrada, enfrentando o perigo do tráfego.

É tão fácil para nós, que estamos bem cuidados e vivendo uma vida tranquila, dizer para uma mãe cansada: “Volte amanhã, ou num outro dia para receber alguma ajuda”. Não devemos esquecer da parábola do Bom Samaritano, narrada por Lucas, onde Jesus Cristo nos lembra que devemos ter compaixão e ajudar todas as pessoas necessitadas. Foi o Samaritano,  um “pagão” que teve compaixão do homem caído.

O Papa Francisco nos chama a atenção das palavras de Jesus Cristo que fala de “misericórdia”: “Bem aventurados os misericordiosos porque alcançarão a misericórdia”. (Mt 5,7).  O Papa diz: “Devemos praticar a misericórdia noite e dia. Não digas: ‘Vai, depois volta amanhã que te darei o que pedes’!  Nada deves antepor à tua resolução de fazer o bem, praticar misericórdia. A prática do bem não admite adiamento”.  O profeta Isaias nos lembra: “A tua recompensa será grande e admirável! Então brilhará tua luz como a aurora e tua saúde há de recuperar-se mais depressa”.  (Is, 58,8)

    Obs: Texto retirado do Livro do autor Pastoral do Menor, com a sua autorização.

Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor e foi publicado da forma como foi recebido, sem alterações pela equipe do Entrelaços.


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