Djanira Silva 1 de junho de 2020

djaniras@globo.com
www.djaniragamboa.blogspot.com.br

O dia amanhece. A claridade do sol varre para longe a escuridão presa nos olhos sonolentos. Abro a janela. O mundo dá sinais de vida.

O canto dos pássaros avisa-me de que posso ouvir. O pé de jasmim embaixo da janela diz-me que posso sentir os cheiros do mundo. As borboletas esvoaçando por sobre as flores avisam-me de que “há muita vida lá fora”. As pernas dizem-me que posso andar, os braços, que posso abraçar. Do fundo do quintal, chega-me o perfume do bogari e do jasmim laranja. Há, sempre, nas manhãs de sol, uma mensagem qualquer escondia nas pequenas coisas que às vezes olhamos sem ver. Olhamos, sim, para trás e nos questionamos de tudo quanto gostaríamos de ter feito e o quanto ainda existe por fazer. Lamentar não reconstrói nem devolve os erros transformados em acertos.

Esta manhã dourada, plena de amor e de energia entrega-me um certificado de vida.

O pássaro canta, veio para cantar. Ninguém manda nem ensina. Preso na gaiola se faz de mudo. Desaprende. Entristece.

O homem escreve, compõe e, na verdade, não cria nada. Nem canta como o pássaro, nem exala perfume como as flores, nem voa como as borboletas. Acredita que é soberano enquanto copia a natureza para poder escrever, pintar, compor.

O artista, seja lá de qual for a arte, começa uma obra. Logo percebe um passarinho que canta, mesmo que não seja o sabiá que cantava nas palmeiras das terras de Cassimiro. O vento, parceiro indispensável chega para ajudar a maldita da inspiração, mesmo que não seja o vento que “balança as palhas do coqueiro”. O mar não tem descanso nas idas e vindas, entra nas criações e não importa se é ou não “doce morrer no mar nas ondas verdes do mar”.

Ninguém paga pelos serviço desess  coadjuvantes sem os quais as histórias não passariam de meras ideias.

A arte é apenas a natureza aprisionada.

Por que me calo e deixo de celebrar, todos os dias, a vida que corre nas artérias das manhãs?

Obs: A autora é poetisa, escritora contista, cronista, ensaísta brasileira.

Faz parte da Academia de Artes e Letras de Pernambuco, Academia de Letras e Artes do Nordeste, Academia Recifense de Letras, Academia de Artes, Letras e Ciências de Olinda, Academia Pesqueirense de Letras e Artes , União Brasileira de Escritores – UBE – Seção Pernambuco
Autora dos livros: Em ponto morto (1980); A magia da serra (1996); Maldição do serviço doméstico e outras maldições (1998); A grande saga audaliana (1998); Olho do girassol (1999); Reescrevendo contos de fadas (2001); Memórias do vento (2003); Pecados de areia (2005); Deixe de ser besta (2006); A morte cega (2009). Saudade presa (2014)
Recebeu vários prêmios, entre os quais:

Prêmio Gervasio Fioravanti, da Academia Pernambucana de Letras, 1979
Prêmio Leda Carvalho, da Academia Pernambucana de Letras, 1981
Menção honrosa da Fundação de Cultura Cidade do Recife, 1990
Prêmio Antônio de Brito Alves da Academia Pernambucana de Letras, 1998 e 1999 
Prêmio Vânia Souto de Carvalho da Academia Pernambucana de Letras, 2000
Prêmio Vânia Souto de Carvalho da Academia Pernambucana de Letras, 2010
Prêmio Edmir Domingues da Academia Pernambucana de Letras, 2014

Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor e foi publicado da forma como foi recebido, sem alterações pela equipe do Entrelaços.


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