Estejamos todos tranquilos. O Inferno não existe mais. Por qualquer motivo, fechou suas portas. Quiçá tenha sido por falta de madeira para manter a fogueira permanentemente acesa. Ou, os pesados encargos sociais não tenham permitido mais a sua manutenção, da forma como foi idealizado. Talvez tenha sido a falta de recursos para custear as novas despesas, como, por exemplo, a aquisição de um gigantesco forno elétrico.

Podem achar sem base alguma a verdade que ora se expõe. Reconheço que não há provas materiais. Não consultei o setor jurídico do município para saber se o imposto predial está sendo pago regularmente. Contudo, há vários e fortes indícios de que o Inferno é pucumã do passado e o Diabo perdeu seu emprego, ou reinado. Um deles, bem escancarado, na assertiva de que quem conhece tudo, sabe até onde o Diabo mora. Se sabe, é porque ele tem morada por  perto, e, mais do que isso, em endereço desconhecido da grande maioria. Atesta, também, a presença do Diabo entre nós em outra assertiva de ser uma pessoa tão feia que até parece o Cão chupando manga. Evidente que não há mangueira no Inferno, até pela alta temperatura do fogo constante. Mangueira há é entre nós, e o Diabo gosta de manga, tanto que já foi visto a chupar uma, se lambuzando todo, a ponto de se tornar mais horroroso do que já é.

Também se diz que uma pessoa ágil parece com o Cão feito gente. Para sobreviver entre nós o faz sob a roupagem de um ser humano, se comportando como se gente fosse. Acrescento um fato outro: o Diabo não é tão feio como se pinta, segundo Machado de Assis, ainda no final do século XIX. Propaganda enganosa, quem duvida, do Cão passando por bonzinho. Não esquecer que é capaz de tudo, sobretudo quando o Inferno se tornou  inviável, depois de tantos séculos e séculos, fechando as portas porque os tempos de hoje, principalmente com a crise econômica, mostraram a sua total inviabilidade. De resto, o Inferno não figura na lista dos feitos de falência, nem de liquidação extrajudicial. Não se descarta que tenha sido vítima do seu próprio fogo. E o Diabo, que não é burro, deu o fora, a fim de não morrer queimado, ou o destruiu para apagar as provas. Essa história de crime contra a humanidade pode ter lhe atazanado. Bem feito. (9 de outubro de 2019.)

Obs: Publicado no Diario de Pernambuco
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Membro das Academias Sergipana e Itabaianense de Letras

Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor e foi publicado da forma como foi recebido, sem alterações pela equipe do Entrelaços.


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