Continuamos buscando sentido para nossas vidas nestes tempos difíceis e confusos. Um vírus difunde terror e pânico em toda a humanidade. Afloram comportamentos de todos os tipos: de um lado, brilha a solidariedade por meio das ações de bons samaritanos; por outro lado, somos obrigados a conviver com atos irresponsáveis de governantes e figuras que se deixam inebriar pelo poder econômico que arrisca a vida de inocentes. A tentação decorrente pode ser aquela de fuga e de indiferença, sobretudo para quem pode desfrutar das condições dignas que garantem o bem-estar neste tempo de isolamento. O mundo inteiro recomenda a quarentena, mas qual o sentido profundo que estamos dando as nossas vidas confinadas?

Pode ser útil a metáfora do cálice, tão bem desenvolvida pelo espiritual Henri J. M. Nouwmen em seu livrinho: Podeis beber o cálice? Para mergulharmos neste tipo de sabedoria é necessário interpretarmos três verbos que dão o significado da metáfora: segurar, erguer e beber.

Segurar o cálice: o cálice é a vida. Quando se diz segurar o cálice entende-se assumir a nossa existência. Mas isso não é algo simples. Muitas vezes fazemos questão de evidenciar só o lado positivo, geralmente marcado por momentos de aparências. Tem algo na vida que não podemos fugir nunca, pois cedo ou tarde teremos que fazer as contas com nós mesmos. Fugir de si mesmo significa negar segurar o cálice. O mundo antes da pandemia vivia assim: entre fugas e desencontros; entre pequenas pausas de descanso, mas sem reflexão acerca de nossas vidas. A tecnologia, na maioria das vezes, foi grande aliada das nossas fugas, a moda, o dinheiro, a luta pelas conquistas dos melhores lugares atormentavam a mente humana cotidianamente. Mas de repente somos surpreendidos e forçados a viver diferente. Segurar o cálice da vida neste tempo de pandemia é não esconder-se da própria vida e não ter medo de conviver com os nossos dramas e limites. É render graças por estarmos aqui em meio a esta confusão mundial e acreditar que ainda há tempo para nos refazermos. O cálice da vida nos põe dentro do útero da existência e nos prepara para sermos nós mesmos, apesar de qualquer limitação que carregamos na nossa história. Segure seu cálice e não tenha medo de aceitar a vida, sobretudo em seu aspecto nu e cru.

Erguer o cálice: não basta apenas segurar o cálice, é necessário erguê-lo com coragem. Se a vida temos que assumi-la nua e crua, ou seja, em sua profundidade, então isso significa que o cálice da vida é preenchido por alegrias e tristezas. Nas nossas fugas e desencontros com o nosso próprio ser, escondemos para os outros nossos problemas e negamos nossas limitações. Já sabemos como o mercado capitalista selecionava as pessoas mais “perfeitas”, escolhendo aquelas de boa aparência. Contudo, nos damos conta que cedo ou tarde este estilo de vida fabricou pessoas deprimidas e com as mais diversas síndromes da mente. Quando erguemos o nosso cálice, estamos tornando-o visível a todos, pedimos que inclusive nossas tristezas e o lado escuro de nossa vida seja aceito, sem preconceitos. Nesta quarentena, foram noticiados muitos casos de mortes entre casais que não se suportavam mais. Por outro lado, estamos ouvindo testemunhos edificantes de pessoas que aceitaram conhecer mais a história daqueles com quem condividem o mesmo teto. O nosso cálice para ser erguido com dignidade tem que ser preenchido com todas as situações da vida, não apenas com aquelas boas, mas também com nossas sombras e limites. Só assim se pode celebrar a vida em sua totalidade.

 Beber o cálice: segurar e erguer são acompanhados com a ação do beber. Muitas pessoas sofrem pelo fato de terem nascido em famílias difíceis e em países desvalorizados. Trazem a chaga da discriminação social, racial e tantas outras formas de desumanidade. No entanto, é importante a autoaceitação daquilo que somos, independente dos rótulos que os sistemas criam. É neste sentido que temos que beber até a última gota do cálice da nossa vida. Quando criamos a maturidade de enfrentar os obstáculos com cabeça erguida transformamos o nosso cálice de tristeza em cálice de benção. O próprio Jesus passou por esta experiência: “Pai, faça-se a tua vontade e não a minha”. Infelizmente, em nosso continente uma multidão é obrigada a beber o cálice da amargura, pois não conseguem nem mesmo sobreviver. Quando o cálice da vida não é celebrado em fraternidade a existência torna-se um peso. Para que o cálice seja bebido até a última gota e para que se transforme em cálice de libertação requer o amor e o respeito a vida do outro.

Convido a você a segurar, a erguer e a beber até a última gota o cálice de sua vida neste tempo de pandemia. Este exercício é necessário, pois nos encoraja a continuar a luta e a dar um sentido a existência. A vida ainda espera muito de cada um de nós, mesmo que a realidade nos seja pesada. Coragem, bebamos o nosso cálice!

(Camaragibe – PE, 02 de maio de 2020)

Obs: O autor é religioso da Congregação da Paixão de Jesus Cristo (Passionistas). Natural de Fagundes, Paraíba. É mestre em Teologia Fundamental pela Pontifícia Universidade Gregoriana (PUG) – Roma.

Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor e foi publicado da forma como foi recebido, sem alterações pela equipe do Entrelaços.


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