Quando os fotógrafos do filme ‘Dois Papas’ finalmente são conduzidos por atenciosíssimos Monsenhores à Capela Sixtina, no Vaticano, eles não se contêm. Começam a fotografar freneticamente, à torta e à direita. Não sabem por onde se virar: se para o imenso afresco central, atrás do altar, onde Cristo, com poderoso braço musculoso, joga uma multidão de pecadores no inferno, ou, acima da cabeça, para as nove cenas que mostram a origem do mundo e da humanidade, assim como a expulsão de Adão e Eva do paraíso. Alguns se deixam fascinar pelos afrescos de ambos os lados, onde figuram pinturas maravilhosas de Botticelli, Ghirlandaio e Perugino, outros admiram a imitação de tapeçaria, da autoria de Rafael, que orna as paredes da Capela.

O cineasta Meireles também acha que a Capela Sixtina forma um excelente cenário para as altas conversas entre Hopkins e Pryce. Já fotogênicos por natureza, esses atores impactam ainda mais nesse ambiente. O filme não acena ao fato que a memória de dois papas paira sobre o lugar. A do Papa Sixto IV, que manda construir num tempo recorde, entre os anos 1477 e 1480, a Capela que leva seu nome, e a do Papa Júlio II, que, entre 1508 e 1512, reserva polpudas somas de moedas do Vaticano, cambiadas pela Casa Fugger na Alemanha, a pagar os melhores artistas da época. São exatamente essas generosas moedas do Papa Júlio II que tanto escandalizam o jovem frade agostiniano Martinho Lutero em sua visita ao Vaticano, poucos anos depois.

Será que Meireles se deixou seduzir pela pompa do lugar, como tantos e tantos turistas que se extasiam na Capela Sixtina, como se deixam fascinar ao atravessar as inumeráveis salas fotogênicas do Palácio do Inverno em São Petersburgo? A pobre ‘Casa Branca’ de Washington não tem como rivalizar. Versailles faz figura melhor, assim como o Palácio Windsor nos arredores de Londres.

Sim, penso que o esplendor do Vaticano tem de entrar numa avaliação criteriosa do filme ‘Dois Papas’, assim como a arte triunfal renascentista ostentada na Capela Sixtina. É um detalhe, sim, mas um detalhe importante.

Onde fica Andrei Rublev (1360-1427), o famoso monge artista do Mosteiro Andronikov em Moscou, que não consegue pintar o quadro do ‘Último Juízo’ encomendado pelo Patriarca Ortodoxo para a Catedral da Anunciação no Kremlin em Moscou, pois, em contraste com Michelangelo, não se imagina um Cristo que jogue pecadores no inferno (veja o filme ‘Andrei Rublev’, de Tarkovski 1966)?

E onde fica Helder Câmara, que por duas vezes cita, em suas Cartas Circulares, seu poema louco do ‘papa que enlouquece’?

Sonhei que o Papa enlouquecia
Ele mesmo ateava fogo
Ao Vaticano
e à Basílica de São Pedro.
Loucura sagrada,
porque Deus atiçava o fogo
que os bombeiros, em vão,
tentavam extinguir.
O Papa, louco,
saía pelas ruas de Roma,
dizendo adeus aos Embaixadores
credenciados junto a Ele,
jogando a tiara no Tibre,
espalhando pelos pobres
o dinheiro todo
do Banco do Vaticano.
Que vergonha para os cristãos!
Para que um Papa
viva o Evangelho,
temos de imaginá-lo
em plena loucura!

(Carta Circular 18-19/02/1965, II, II, p. 192, repetido em 4-5/5/1974, VII, I, pp.128-129. Cito pela edição Cepe, de Recife, em fase de elaboração. Assim o texto de 1974 só existe, até hoje, ‘on line’).

Obs: O autor : “Nasci em Bruges, na Bélgica, no ano de 1930. Estudei línguas clássicas na universidade de Lovaina e teologia em preparação ao sacerdócio católico, entre 1951 e 1955. Em 1958 viajei ao Brasil (João Pessoa). Fui professor catedrático em história da igreja, sucessivamente nos institutos de teologia de João Pessoa (1958-1964), Recife (1964-1982), e Fortaleza (1982- 1991). Sou membro fundador da Comissão de Estudos da História da Igreja na América Latina (CEHILA), fui coordenador para o Brasil entre 1973 e 1978, responsável pelo projeto de edições populares entre 1978 e 1992, e entre 1993 e 2002 responsável pelo projeto “História do Cristianismo”. Entre 1994 e 1997 fui pesquisador visitante no mestrado de história da universidade federal da Bahia. Durante esses anos todos administrei cursos e proferi conferências em torno de temas como: história do cristianismo; história da igreja na América Latina e no Brasil; religião do povo. Atualmente estou estudando a formação do cristianismo nas suas origens, especificamente os dois primeiros séculos.”

Explicação do painel(foto)

O autor é o primeiro à direita.

“O painel do fundo, é um quadro desenhado pela Irmã Adélia Carvalho, salesiana (Filha de Maria Auxiliadora) de Recife e ‘artista da caminhada’, que tem muitos trabalhos na linha de uma Igreja libertadora e colabora em diversos programas de conscientização pela arte.
O tema do quadro pode ser descrito assim: ‘a proposta cristã na confusão do mundo em que vivemos’.

Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor e foi publicado da forma como foi recebido, sem alterações pela equipe do Entrelaços.


busca
autores

Autores

biblioteca

Biblioteca

Entrelaços do Coração é uma revista online e sem fins lucrativos compartilhada por diversos autores. Neste espaço, você encontra várias vertentes da literatura: atualidades, crônicas, reportagens, contos, poesias, fotografias, entre outros. Não há linha específica a ser seguida, pois acreditamos que a unidade do SER é buscada na multiplicidade de ideias, sonhos, projetos. Cada autor assume inteira responsabilidade sobre o conteúdo, não representando necessariamente a linha editorial dos demais.
Poemas Silenciosos

Flickr do (Entre)laços

ExposiçãoDesenhos

Série "Natureza"

Série Natureza

DeJanelaEmJanela

DeCostas

Série "Detalhes"

Série "MoradaImprovisada"

Série Morada Improvisada

Finados

Tratando de peixe

Série Flores

Série Flores

Esporte na Colônia

Série Natureza 01

Série Natureza 05

Caxambu

Caxambu

Caxambu - 02

Caxambu - 01

Penumbra...

Aglomeração...

Portão florido...

Barra Palace

Conjunto Harmonioso...

Reunião privada...

Espaços ocupados...

Arquitetura Perfeita...

Convergência II

Convergência I