Para a teóloga e filósofa Ivone Gebara, a tentativa  é de sensibilizar e  conscientizar a sociedade  não apenas para a causa da dignidade feminina, mas para as necessárias  mudanças estruturais que  possibilitem uma nova relação entre as pessoas.

Em 2014, a teóloga e filósofa Ivone Ge­bara completa 70 anos, boa parte deles dedicada às lutas sociais, ao trabalho pastoral com mulheres e ao debate teo­lógico feminista.

Durante o 2º Congresso Internacio­nal Religião, Mídia e Cultura, ocorrido entre 8 e 12 de setembro em São Leo­poldo (RS), seu trabalho de mais de três décadas foi reconhecido, com a conces­são do título de Doutora Honoris Causa da Escola Superior de Teologia de São Leopoldo (Faculdades EST).

Na entrevista a seguir, Ivone Gebara fala sobre Teologia da Libertação e Te­ologia Feminista, as lutas das mulheres no terceiro milênio e o debate eleitoral.

Brasil de Fato – Que avanços a Teologia da Libertação trouxe para a espiritualidade cristã?

Ivone Gebara – É muito importante ter claro que o que chamamos de espi­ritualidade cristã é uma motivação pa­ra viver e lutar baseada em valores pre­sentes na vida de Jesus segundo a tra­dição dos Evangelhos. A Teologia da Li­bertação dos anos de 1970 e 1980 en­fatizou a importância da realidade his­tórica e do contexto social num tempo e espaço determinados para conhecer­mos o que se chama tradicionalmen­te “vontade de Deus”. Não podemos es­quecer que os anos de 1970 e 1980 es­tavam marcados na América Latina pe­las ditaduras militares, por um cresci­mento gigantesco da pobreza e da inter­venção econômica do capitalismo inter­nacional. Nesse contexto, a espirituali­dade da libertação propunha direcionar nosso olhar, sobretudo para a vida dos pobres e marginalizados de nossas so­ciedades. Esta postura foi um enorme avanço em relação a uma espiritualida­de intimista em que o individuo se rela­cionava com Deus independente do so­frimento e das injustiças sociais de mi­lhares de pessoas.

Muitos apontavam contradições entre marxismo e cristianismo. Atualmente, ainda é possível falar nessas contradições?

Nos anos de 1970 e 1980 muitos foram os teóricos cristãos que escreveram so­bre as relações entre marxismo e cristia­nismo. De uma maneira geral, boa par­te afirmava que o marxismo fornecia um instrumental de análise da exploração do capitalismo e esse instrumento nos ajudava não só a entender, mas a criar condições para mudar os rumos da vida dos mais pobres. Muitos grupos se orga­nizaram em torno dessa ideia e não viam contradição entre o marxismo e o cris­tianismo, visto que se tratava de viver a justiça nas relações humanas. Creio que essa problemática já pode ser con­siderada como sendo do passado. Não é novidade constatar a diversidade atual do movimento social na América Lati­na e especialmente no Brasil. Há movi­mentos que prescindem do instrumen­tal marxista de análise. Quanto ao cris­tianismo, o uso do marxismo como me­diação analítica diminuiu muito e tem acontecido que muitas igrejas prescin­dem até de momentos de análise social mais aprofundada e continuam reprodu­zindo um cristianismo tradicional, acre­ditando que é disso que o povo precisa.

Hoje a Teologia da Libertação é também teologia feminista?

Muitas teólogas da libertação dos anos de 1980 e 1990 se tornaram femi­nistas, mas a maioria dos teólogos ho­mens continuou sendo apenas da li­bertação. Dizer isso significa que a teo­logia feminista não teve muito suces­so nos meios tradicionais de fazer teo­logia, meios que admitiam a presença das mulheres apenas se elas repetissem o que era dito pelos homens. A dificul­dade com a teologia feminista é que ela introduz uma concepção não hierárqui­ca da vida cristã, o que significa que ela também propõe uma visão mais iguali­tária e horizontal a partir das relações de gênero, que tocam sem dúvida as relações de classe e de raça. Descons­trói as imagens do sagrado centrado no masculino e o poder eclesiástico igual­mente centrado numa masculinização da imagem de Deus. Tomamos consci­ência do quanto uma religião simboli­camente colonizada pelo masculino tem a força de subjugar muitas pessoas e, sobretudo, as mulheres.

Qual o espaço das mulheres no debate teológico atual e qual o papel das mulheres na Igreja?

Perguntar pelo papel das mulheres na Igreja esconde certamente uma grande dúvida. Isto porque raramente se per­gunta sobre o papel ou o lugar dos ho­mens na Igreja, visto que a pergunta é desnecessária. Basta constatar que são homens que dirigem, pensam e repre­sentam o sagrado nas igrejas. Por is­so se pode dizer que a visão sobre o lu­gar das mulheres nas igrejas e nas teo­logias depende da interpretação que se faz do ser humano. As pessoas que não querem mais manter as hierarquias de gênero como sendo um destino huma­no buscarão outras formas de viver o cristianismo em que acreditam, talvez um cristianismo sem submissão insti­tucional e mais aberto a criar laços com grupos e pessoas em busca do bem co­mum. Os esforços atuais, sobretudo do papa Francisco, não lograram a de fa­to abordar a problemática antropológi­ca, social, política e religiosa atualmen­te vivida pelas mulheres. Querem abrir espaços na mesma compreensão da vi­da cristã sem suspeitar que é justamen­te essa compreensão hierárquica e mi­sógena que nos faz problema e justifi­ca aberrações não apenas nas institui­ções religiosas, mas nas instituições so­ciais e políticas.

Constata-se hoje o enfraquecimento dos movimentos sociais gestados nas décadas de 1960 e 1970. A Teologia da Libertação tem ainda um papel para alimentar esses movimentos?

Quando se fala do papel da Teologia da Libertação em alimentar movimen­tos sociais se está imaginando que a Te­ologia da Libertação é algo mais ou me­nos pronto aplicável a diferentes situ­ações. Em outros termos, se tem uma visão mais ou menos estática da teolo­gia ou do pensamento religioso e de sua ação em nossa realidade. A ideia de que as teorias se aplicam às práticas preci­sa ser modificada. Penso que o discur­so religioso libertário dos anos de 1970 e 1980 se afirmava a partir de um con­texto histórico nacional e internacio­nal que alimentava certas práticas so­ciais e políticas. Hoje estamos em outro contexto muito mais plural e no qual as Igrejas já não têm o mesmo papel so­cial, salvo algumas poucas exceções.

Nota-se hoje uma fragmentação e compartimentação das lutas sociais, muitas vezes sem articulação mais ampla. Como analisar a luta feminista neste contexto?

A luta feminista está presente em di­ferentes âmbitos sociais. Existem várias instâncias de organização, como a Asso­ciação das Mulheres Brasileiras (AMB), a Marcha Mundial das Mulheres, o Mo­vimento Nacional de Mulheres Agricul­toras, o MST das Mulheres etc. Cada ar­ticulação dessas engloba vários grupos de mulheres, mas nenhum tem a pre­tensão de dizer a última palavra de co­mo deve ser a vida das mulheres. Há autonomia e interrelação. A tentativa é de sensibilizar e conscientizar a socie­dade não apenas para a causa da digni­dade feminina, mas para as necessárias mudanças estruturais que possibilitem uma nova relação entre as pessoas. E is­to nós mulheres temos conseguido gra­dativamente, com todas as contradições inerentes aos processos sociais. Creio que já não temos a ingenuidade de acre­ditar que se todo o mundo for feminista segundo tal ou tal modelo os problemas do mundo ou do país estarão resolvi­dos. Cada pessoa e cada grupo tem uma compreensão da vida e da história e te­mos que aprender a lidar com esse plu­ralismo e essa complexidade, pois esta­mos seguras que já não é uma única vi­são do mundo que vai prevalecer.

Como reconstruir uma aliança entre as lutas sociais e a produção intelectual?

Este é o velho problema da relação en­tre teoria e prática presente desde a An­tiguidade, passando por Marx, Grams­ci e outros tantos. Não há solução defi­nitiva para ele. Para mim, existe a neces­sidade das/dos intelectuais fazerem al­gumas escolhas, ou seja, para onde e pa­ra quem direcionar sua pesquisa e refle­xão. Entretanto, estou consciente de que não se pode mais estabelecer um mode­lo de intelectual único, sobretudo porque muitas vezes os intelectuais mais atuan­tes não são os que escrevem livros ou têm um blog, mas aqueles e aquelas que estão dentro da problemática que fere suas vi­das. São as empregadas domésticas que conhecem sua situação por dentro, são as mulheres vítimas de violência domés­tica, são os indígenas cujas terras foram tomadas que percebem por onde passam os veios da violência e das possíveis sa­ídas. O papel das/dos intelectuais mui­tas vezes é o de fazer as boas perguntas para acordar a consciência adormecida, perguntas que levam a encontrar cami­nhos de breve restauração da vida. A par­tir dessas perguntas, recuperar exemplos do passado para ajudar a ver na história a complexa trama dos acontecimentos e as contradições da vontade humana. É tam­bém papel dos intelectuais conviver para além das análises políticas e econômicas nos momentos de gratuidade, nas fes­tas e celebrações que marcam instantes importantes da vida e revelam algo para além das teorias estabelecidas.

No atual debate eleitoral os candidatos são convidados a se posicionar em relação ao aborto e ao casamento homoafetivo. Essas questões são políticas?

Durante muito tempo essas questões não apareciam explicitamente no cená­rio político cotidiano nem nos períodos de eleições. Hoje, o movimento social abriu-se para outros problemas sociais que revelam a complexidade das ques­tões políticas. Muitas pessoas acredi­tam que essas questões são menores e não deveriam entrar no debate político visto que polarizam posições e confun­dem a opinião pública. Distinguem en­tre as grandes questões políticas e as pe­quenas questões que não merecem ser chamadas de políticas. Mas, a meu ver, justamente essas questões aparente­mente sem importância revelam as pos­turas íntimas dos candidatos e os mos­tram para o grande público, para além dos chavões habituais das promessas de campanha. Nessas questões eles não podem se esconder, mesmo que muitas vezes tentem fazê-lo. Sem dúvida são questões constrangedoras para muitos, mas são elas que abrem as portas, por exemplo, para a reflexão sobre a educa­ção dos filhos de casais homossexuais, sobre os conteúdos educacionais apre­sentados nas escolas, sobre uma econo­mia que deve prever situações plurais, sobre políticas públicas para os que não se enquadram nos conceitos de “norma­lidade”. Da mesma forma, questões so­bre a legalização e descriminalização do aborto abrem a reflexão para a proble­mas de saúde pública e da responsabi­lidade humana (masculino e feminina) em relação à sua prole e à vida em co­mum. Essas aparentes pequenas ques­tões são a novidade das novas políticas atuais porque tocam a ecologia humana na sua complexidade real. A questão da economia mundial, por exemplo, se tra­duz também em tráfico de mulheres, de meninas, de menores, em pornografia, em pedofilia, em drogas, aborto, doen­ças sexualmente transmissíveis. Este é o concreto cotidiano da vida das popula­ções do mundo.

Entrevista 27 de Setembro de 2014
Luis Ferraris/La Pulseada
Eduardo Campos Lima,
De São Paulo (SP)

Obs: Ivone Gebara é filosofa e teóloga feminista. Foi professora do Instituto de Teologia do Recife e trabalhou na formação de agentes de pastoral para o meio popular sobretudo do nordeste do Brasil. Doutora em Filosofia e Doutora em Ciências religiosas é autora de muitos livros e artigos. Vive atualmente em São Paulo e pertence à Congregação das Irmãs de Nossa Senhora.

É autora de mais de 30 livros publicados e dezenas de artigos sobre a temática.

Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor e foi publicado da forma como foi recebido, sem alterações pela equipe do Entrelaços.


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