Djanira Silva 1 de dezembro de 2019

djaniras@globo.com
www.djaniragamboa.blogspot.com.br

Além de mim, a sombra. Nasce, vive, desaparece comigo. Sabe para onde vou.
O vulto, sobre a parede, assusta-me. Mulher? Anjo? Demônio? Por que não posso definir as sombras que não são minhas?
A coisa revelada – a dor encoberta pelo subterrâneo das penumbras. Nas veias, o medo, a dor na hora de sonhar.
Sofro por não poder fugir da vida. Ninguém me diz para onde ir.
Um silêncio selvagem me espera por aí. Sua grandeza esmaga-me a alma, alma que não aceita suas dissonâncias, que enlouquece nos sonhos, nos pensamentos, na música, nos espaços, no tempo, na certeza nas incertezas do ser ou não ser.
De quantos instrumentos, de quantas notas e acordes preciso para compor o meu tumulto? Caminho sobre notas esmagadas nos sons. Não escolhi os caminhos.
Tento resgatar as imagens de um mundo em decadência. Quem me segura aqui? Quem ameaça minha tristeza?
Preciso escrever para negar meu compromisso com a realidade. Há coisas estranhas dentro das palavras, nos sons, nas idéias nos movimentos.
Se tento voltar perco-me por aí, sem idéias. O vento brada, as flores calam. É preciso recolher as cores que perdi nas estradas. Já não há silêncio, nem barreiras que detenham minha queda. Não sei nem saberei quando o quê e o porquê.
O pêndulo acorrenta e escraviza as horas. O tempo, pendurado no relógio me espia da janela com um olho de girassol. Parece me dizer que um dia serei saudade.
Quando estacionar no meio, tudo há de parar. Será o tempo das flores, das cores. Será?
Amanhã estarei de volta para resgatar o que de mim ficou em cada dia. Escuto o mundo que não cala e transforma em ruídos o que desejo ouvir. Então, escuto e ouço, olho e vejo e, do louco que gira em círculos sem fim me chega a voz do pássaro a dor que geme, o sorriso solto a saudade insólita.

Obs: A autora é poetisa, escritora contista, cronista, ensaísta brasileira.

Faz parte da Academia de Artes e Letras de Pernambuco, Academia de Letras e Artes do Nordeste, Academia Recifense de Letras, Academia de Artes, Letras e Ciências de Olinda, Academia Pesqueirense de Letras e Artes , União Brasileira de Escritores – UBE – Seção Pernambuco
Autora dos livros: Em ponto morto (1980); A magia da serra (1996); Maldição do serviço doméstico e outras maldições (1998); A grande saga audaliana (1998); Olho do girassol (1999); Reescrevendo contos de fadas (2001); Memórias do vento (2003); Pecados de areia (2005); Deixe de ser besta (2006); A morte cega (2009). Saudade presa (2014)
Recebeu vários prêmios, entre os quais:

Prêmio Gervasio Fioravanti, da Academia Pernambucana de Letras, 1979
Prêmio Leda Carvalho, da Academia Pernambucana de Letras, 1981
Menção honrosa da Fundação de Cultura Cidade do Recife, 1990
Prêmio Antônio de Brito Alves da Academia Pernambucana de Letras, 1998 e 1999
Prêmio Vânia Souto de Carvalho da Academia Pernambucana de Letras, 2000
Prêmio Vânia Souto de Carvalho da Academia Pernambucana de Letras, 2010
Prêmio Edmir Domingues da Academia Pernambucana de Letras, 2014

Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor e foi publicado da forma como foi recebido, sem alterações pela equipe do Entrelaços.


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