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ENTREVISTA*

Na universidade que mais sofreu cortes, professor Dirceu Benincá defende o diálogo e a democratização dos saberes”

“Mais do que simplesmente transmitir informações ou conhecimentos, a universidade tem o compromisso de contribuir com o desenvolvimento regional sustentável, integral e integrado”. Essa é a visão do sociólogo Dirceu Benincá, professor da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB) e coordenador da Feira da Agricultura Familiar, que ocorre quinzenalmente no campus Paulo Freire, em Teixeira de Freitas (BA). Ele conta à Radis que a feira é uma oportunidade de encontro e diálogo entre a comunidade acadêmica, escolas da cidade, movimentos sociais e agricultores que produzem com base na agroecologia.

Contudo, os cortes anunciados pelo governo federal no orçamento das universidades — que impactou em 53,96% nas verbas discricionárias repassadas à UFSB, segundo dados da Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes) — prejudicam a continuidade de iniciativas como essa, de acordo com o professor. A feira é fruto do projeto intitulado “Universidade e extensão popular: diálogos de saberes e práticas agroecológicas”, coordenado por Dirceu e Frederico Monteiro Neves. “A universidade só será realmente democrática, plural, inovadora, fomentadora do desenvolvimento humano e social se ela própria, enquanto instituição milenar, e a sociedade ou, ao menos, boa parte dela, tiverem consciência do papel fundamental da educação e se mobilizarem destemidamente para defender esse direito para todos”, afirma.

Qual é a proposta da Feira da Agricultura Familiar na universidade?

A Feira se realiza, quinzenalmente, desde abril de 2018, em uma área do campus Paulo Freire da UFSB, em Teixeira de Freitas (BA). A Feira reúne um conjunto de princípios que justificam a sua existência e orientam a sua prática. São eles: a produção agroecológica, o respeito à biodiversidade e aos processos naturais que sustentam a vida; a economia popular solidária, que tem na comercialização direta uma das principais ações; a integração social; a ecologia de saberes, que configura a chamada universidade extensa, com a troca de saberes e experiências; a soberania e a segurança alimentar, baseada na alimentação saudável; a educação popular, abrangendo a formação humana e cidadã; a autonomia e a emancipação da agricultura familiar; o consumo consciente e a responsabilidade com as práticas sustentáveis no pós-consumo.

Qual é o público beneficiado?

Este projeto de extensão visa promover a participação e integração de agricultores e agricultoras familiares que produzem com base ou em transição para a agroecologia, comunidades tradicionais, movimentos sociais populares do campo (principalmente o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra — MST), a comunidade acadêmica da UFSB, escolas da cidade, catadores de materiais recicláveis e a sociedade em geral. Portanto, esse é o público beneficiado, que não só se beneficia vendendo e comprando alimentos saudáveis, mas que também realiza e participa de diversas outras atividades que ocorrem no espaço da Feira.

Como a dinâmica da Feira afeta positivamente a universidade?

Em média, a cada edição, a Feira mobiliza cerca de 100 pessoas da comunidade local e regional. Além da comercialização direta dos produtos pelos produtores aos consumidores, as oficinas, debates, palestras, rodas de conversa, exibição de filmes e documentários, aulas abertas e atividades artísticas, culturais e culinárias se constituem em momentos privilegiados de formação. Na maioria das vezes, são as vozes de fora da universidade que mais se expressam, contribuindo com o processo formativo da comunidade universitária, de estudantes e professores de escolas públicas e privadas da região, dos próprios feirantes e demais sujeitos que frequentam a feira.

Por que é importante trazer a discussão da agroecologia para dentro da universidade?

Ela se constitui em uma importante experiência de extensão universitária popular e de integração social, bem como um espaço de resistência diante da vasta monocultura do eucalipto e das pastagens para criação de gado. A produção e o consumo de produtos agroecológicos representam uma mudança significativa capaz de contribuir para a sustentabilidade ambiental e a saúde integral das pessoas. Um dos grandes desafios nos processos que buscam fortalecer a agroecologia é sua dupla função: por um lado devem convencer a sociedade da importância do consumo de alimentos saudáveis, que respeitem a diversidade biológica e a cultura, e, por outro, fortalecer a geração de renda das comunidades do campo que vivem o paradigma agroecológico.

Como a Feira contribui para ampliar o diálogo da universidade com a sociedade?

A Feira pode ampliar seu campo de integração entre a universidade e a sociedade, bem como dentro da própria universidade, promovendo a interdisciplinaridade, a articulação necessária entre a teoria e a prática, e as devidas conexões entre ensino, pesquisa e extensão. Vale ressaltar que esse exercício de integração social resultou também na elaboração colaborativa de um curso de pós-graduação Lato Sensu em “Agroecologia e Educação do Campo”. Esse curso nasceu a partir do diálogo com os movimentos sociais, a Escola de Agroecologia e Agrofloresta Egídio Brunetto, a Universidade do Estado da Bahia (Uneb — Campus X) e o IFBaiano (Campus Teixeira de Freitas). Contando com esses parceiros, o curso foi criado com sede na UFSB e está em funcionamento desde março deste ano com sua primeira turma de 30 estudantes. Ele se propõe a contribuir com a formação crítica e socialmente situada dentro de duas áreas importantes do conhecimento — a Agroecologia e a Educação do Campo — capazes de fortalecer a agricultura familiar e a própria feira.

Qual é o papel da extensão na formação de um aluno universitário?

A extensão tem um papel fundamental no processo educativo e formativo, pois promove a inserção do estudante e da própria universidade na sociedade. Contudo, é determinante a visão que se adota para a extensão. Se ela for compreendida como mero ato de levar um conhecimento pronto desde o “depósito do saber” até quem é visto como despossuído de conhecimento, a extensão pode se constituir em uma ação agressiva, impositiva e colonialista. Porém, se ela for entendida e praticada como uma comunicação dialógica (Paulo Freire) ou como uma troca de saberes, como “extensão ao contrário” (Boaventura de Sousa Santos) ou como uma “via de mão dupla”, onde se respeita os valores e a cultura do outro, ela adquire uma perspectiva construtiva, democrática, libertadora e emancipatória.

Sob esse ponto de vista da extensão como “comunicação dialógica”, o que a universidade tem a aprender ao dialogar com a sociedade?

Ao desenvolver a prática de uma extensão como “via de mão dupla”, onde há relação entre pessoas que têm conhecimentos e saberes distintos e que, juntas, podem aprender umas com as outras, se fortalece o modo de ser de uma Universidade Popular. Neste ambiente e com esse olhar, o estudante pode adquirir várias habilidades, entre as quais destaco como mais importante a sensibilidade e a predisposição para aprender a partir da e com a realidade. Esse é o pressuposto que considero básico para qualquer projeto ou programa de extensão, a partir do que é possível desenvolver os processos de interação dialógica, integração social ou relação construtiva. A comunidade universitária pode aprender com os saberes e as práticas populares não só fazendo pesquisa, mas também e, especialmente, por meio da extensão. Entretanto, a possibilidade de aprendizagem é definida pela compreensão que se tem e pelo método que se adota na extensão. Ela não pode ser um ato qualquer de “ensinagem”, uma invasão cultural que manipula, submete e domestica. Precisa ser concebida como uma grande oportunidade de aprendizagem mútua. Desse modo, a extensão torna-se uma ação altamente enriquecedora para o ensino e para a vida universitária como um todo.

No contexto atual, de cortes no orçamento das universidades e de ascensão de ideias conservadoras que incitam a perseguição político-ideológica a atividades educacionais, como iniciativas desse tipo estão ameaçadas?

As universidades estão sendo ameaçadas ou prejudicadas seriamente em sua tríplice função: ensino, pesquisa e extensão. Particularmente, projetos como o “Universidade e extensão popular” ficam prejudicados pela diminuição ou ausência de bolsas para estudantes se engajarem com mais tempo e dedicação na extensão. Também pela diminuição ou total ausência de recursos para equipamentos e infraestrutura necessários no desenvolvimento dos projetos e programas de extensão. Ao invés de incentivar práticas de promoção da integração social da universidade, várias políticas atuais se orientam no sentido de fomentar a cisão das relações de intercâmbio, a reprovação do senso crítico e a censura a determinados temas em nome de certo moralismo científico, ideológico e cultural.  Invés de estimular a produção e o consumo de produtos agroecológicos como expressão concreta da promoção da saúde das pessoas e do meio ambiente, verifica-se uma enveredada no sentido oposto, liberando a utilização de muitos tipos de agrotóxicos altamente prejudiciais. Afora isso, a agroecologia no atual governo passa a ser ameaçada como se fora uma prática nociva à sociedade.

Qual é o papel da universidade no cenário contemporâneo?

É nesse contexto que a agroecologia precisa ser fortalecida como um instrumento de resistência contra todas as ameaças e projetos que ferem a democracia, a segurança alimentar e a justiça social. Ela, a agroecologia, se constitui em um novo e salutar modo de conceber a relação do ser humano com a natureza e das pessoas entre si no âmbito da sociedade. A universidade, por sua vez, mais do que simplesmente transmitir informações ou conhecimentos, tem o compromisso de contribuir com o desenvolvimento regional sustentável, integral e integrado. Por isso, tanto a universidade quanto a agroecologia necessitam ser fortalecidas em si e entre si, o que é possível com a consciência, a organização e a luta de todos os que acreditam em uma sociedade democrática, justa, cidadã e sustentável.

A universidade só será realmente democrática, plural, inovadora, fomentadora do desenvolvimento humano e social se ela própria, enquanto instituição milenar, e a sociedade ou, ao menos, boa parte dela, tiverem consciência do papel fundamental da educação e se mobilizarem destemidamente para defender esse direito para todos. Não acredito que a educação avance nesse país por obra de misericórdia ou por consciência política dos governantes. Ela é um permanente processo de construção coletiva e que necessita sempre, e talvez mais do que nunca, se imbuir de uma perspectiva humanizadora, socialmente justa e ecologicamente responsável.  07 AGOSTO 2019

por LUIZ FELIPE STEVANIM

Obs: O autor é Doutor em Sociologia, pós-doutor em Educação e professor da Universidade Federal do Sul da Bahia

Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor e foi publicado da forma como foi recebido, sem alterações pela equipe do Entrelaços.


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