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Nasci envolta numa atmosfera religiosa. A escolha de meu nome veio do desespero de minha mãe, ao me ver quase natimorta. Clamando imediatamente por Nossa Senhora, prometeu chamar-me Maria, em homenagem à Grande Mãe, se eu sobrevivesse. Horas depois, já superada a tensão, uma freira – amiga da família – sugeriu que eu fosse Inez, em louvor (e compromisso!) à santa-mártir que morreu assassinada, para resguardar a própria virgindade. Sou do Espírito Santo por herança paterna, certamente longinquamente ligada aos mesmos princípios.

Não, não renego meu nome. Longe disso, gosto muito dessa combinação, que me tornou inegavelmente portuguesa, desde o princípio, e agraciada por tantos desejos amorosos e bem intencionados, que, uma vez compreendidos e elaborados, a nada me submeteram.

Na infância, estudei em escolas católicas. Se as experiências vividas ali me fortaleceram a sede pela justiça, porque estranhava a hipocrisia e a competição estimuladas em cada detalhe (mesmo quando me favoreciam), foi por isso, também, que me tornei essencialmente uma educadora e uma psicanalista.

No Colégio Notre Dame de Sion, além de aprender a valorizar a cultura francesa, encontrei a Soeur Cecília. Eu tinha 8 anos quando recebi, pelas suas mãos, os valores cristãos presentes nos Evangelhos. Em suas aulas de Religião, ela nos convidava a encenar e, mais que isso, a interpretar detalhadamente os textos do Novo Testamento. Éramos orientadas a buscar, nas entrelinhas deles, as lições de humanidade, transmitidas por Jesus aos apóstolos, que mais tarde as transcreveram, permitindo que se espalhassem pelo mundo, através dos tempos.

Sem plateia e sem censura, Soeur Cecília fazia um lindíssimo trabalho nada pretensioso, dentro de sala de aula. A consciência que tenho hoje da importância que aquelas vivências tiveram para mim faz meu coração vibrar, em gratidão àquela educadora inigualável!

Mas, na adolescência, a vida me envolveu em duas situações críticas, que me levaram ao total desencanto com a Igreja. A primeira diz respeito à Confissão. Um monsenhor, sem nenhuma sensibilidade e respeito, entediado com a repetição de meus pequenos e insossos “pecados”, sussurrados mais por imposição do ritual, que por necessidade interna, censurou-me por estar sempre a cometer as mesmas falhas e ameaçou não me dar mais a absolvição. Demorei um tanto a perceber que ele queria, de fato, era ouvir um repertório mais estimulante e variado.

Naquele dia, deixei o confessionário me sentindo rejeitada e até mesmo insultada. Não mais me confessei. Ainda bem. Corria o risco de me tornar uma grande “pecadora”, se quisesse corresponder a suas expectativas…

Pouco tempo depois, numa situação em que desconfiei que a Igreja Católica se prestava a uma atuação política não explicitada, sentindo-me confusa, procurei o Bispo Diocesano, a quem julgava conhecer suficientemente, com a expectativa de que pudesse ser um bom orientador naquela questão. Desejava que clarificasse, para mim, os acontecimentos que eu vinha presenciando e que não estava conseguindo compreender.

Para meu terror, depois de me ouvir, ele me encaminhou ao Serviço Secreto de Informação do Exército. Pretendia, simplesmente, que eu me tornasse uma espiã, a favor da Ditadura Militar. Pasmem, se quiserem! Um dia ainda hei de contar, com detalhes, essa história. Mas, trago-a, aqui, por me fazer lembrar o motivo pelo qual me afastei deliberadamente da instituição Igreja Católica.

Para reforçar meu desencanto, ao me aproximar, muito tempo depois, de outras religiões, senti repetir-se a valorização de atitudes de interesses materiais, de controle, de poder sobre o outro. Apenas confirmei o que eu já sabia, portanto.

Mas nem tudo foi perdido. Pouco a pouco, venho encontrando na Natureza (interior e exterior) o espaço sagrado onde me recolher. E o faço, regularmente, sentindo o mesmo êxtase que me provocava o incenso das cerimônias que, com tanto fervor, frequentei no passado.

Aonde quero chegar com essas recordações, e o que me levou a evocá-las? Talvez vocês estejam aguardando que eu faça uma ancoragem no presente. Saio de minhas divagações individuais e aporto, na esperança de que nos possamos encontrar, em nossas reflexões mútuas:

Recebi há pouco, uma postagem sobre o Sínodo da Amazônia e, lendo as palavras do Papa Francisco, confirmo que o mais importante do que foi vivido na minha trajetória, ficou mesmo dentro de mim. Referindo-se aos críticos que atacam suas propostas quase revolucionárias, o Papa diz:

“Porque lhes falta a coragem de assumir assuntos terrenos, eles acreditam que estão assumindo os de Deus. Porque têm medo de fazer parte da humanidade, pensam que são parte de Deus. Porque não amam ninguém, iludem-se, pensando que amam Deus.”

Isto me fez pensar, com tristeza profunda, na quantidade de pessoas queridas, em que constato uma postura de negociação com o Divino. Semelhante ao que Paulo Freire denuncia que se faz com a Educação – ao construí-la num princípio bancário – sinto que a maioria das pessoas concebe a religião como um espaço de barganha. Elas como que depositam sua fé (?) – expressa em sacrifícios, em trabalhos servis à instituição, em tentativas de conversão de outras pessoas, em trocas de benesses – em busca de uma ampla proteção superior, que lhes garanta viver o lugar de filhos prediletos, isentos de sofrimentos e reconhecidos irrestritamente. Em palavras mais diretas: que lhes traga dividendos!

Em nome de uma doutrina que repetem sem compreensão, julgam e condenam – sem direito a apelação – seus semelhantes, chegando mesmo a maltratá-los e, mesmo assim, sentindo-se superiores a eles, em merecimento. Creem que esse investimento contínuo e cego lhes trará segurança e lucros. Em resumo, querem alcançar um idealizado paraíso, no delírio de se tornarem divinos, isolando-se no aprisionamento do egoísmo e da arrogância estéreis.

De Roma, as notícias, que nos chegam, mostram que o Papa Francisco está sofrendo uma enorme pressão de opositores aos princípios que defende. Nem poderia ser diferente. Ele ensina, sem pudor, que a tradição tem que estar voltada para a preservação do futuro, irrigando e alimentando –  como seiva –  o corpo maior que é a Vida, para que ela se renove e continue a frutificar.  Desse modo, descendo do púlpito a que foi alçado, aproxima-se cada vez mais do  Jesus crucificado, um ser humano feito Deus através da simplicidade, da humildade, do despojamento e da bondade e da profunda capacidade de compaixão, com que passou pela Terra.

Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor e foi publicado da forma como foi recebido, sem alterações pela equipe do Entrelaços.


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