(professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio,
decana do Centro de Teologia e Ciências Humanas da PUC-Rio *)
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“Sínodo” é uma palavra antiga muito reverenciada pela Tradição da Igreja, cujo significado está associado ao conteúdo mais profundo da Revelação. Palavra grega, é composta pela preposição (syn – com, em conjunto) e pelo substantivo (odos – caminho).  Indica, pois, o caminho tomado pelos membros do Povo de Deus no seguimento de Jesus. Refere-se diretamente ao Senhor Jesus, que se apresenta como “o caminho, a verdade e a vida”, e o fato de que os cristãos, seus seguidores, eram originalmente chamados “os discípulos” do Caminho ”.

Aplica-se, portanto, aos cristãos, discípulos de Jesus convocados em assembleia e, às vezes, aparece nos textos como sinônimo da própria comunidade eclesial. Como esta é concebida como Povo de Deus a caminho, a sinodalidade não é algo pontual e acessório na Igreja, mas sim seu estado permanente. A Igreja quer ser sinodal, estar sempre em caminho unida no seguimento de Jesus Cristo.  O papa Francisco tem valorizado muito esta nota e este modo de a Igreja ser.  E nesse espírito convocou o Sínodo da Amazônia, acontecido há pouco em Roma.

O documento final dá conta da motivação que levou a convocar o Sínodo e o fruto daqueles dias de caminho.  Na origem está a situação de destruição que afeta a Amazônia e com ela toda a terra e a humanidade.  Se continuar o processo agora vigente, o resultado pode ser a destruição do território amazônico e de seus habitantes, sendo os mais afetados os povos indígenas. E isso impactará em todo o planeta, já que a desaparição do bioma amazônico será catastrófica.

A nota característica do Sínodo foi o desejo e a demanda de integração da voz da Amazônia com a voz e o sentir dos bispos participantes, pastores da Igreja.  Foi, no dizer da assembleia reunida sinodalmente, uma nova experiência de escuta para discernir os novos caminhos pelos quais o Espírito deseja conduzir a Igreja.  Assim, o Sínodo, mais que um evento eclesial, foi um compromisso de abraçar, assumir e praticar o novo paradigma da ecologia integral, o cuidado da “casa comum” e a defesa da Amazônia.

Vimos todos nas mídias mais variadas a presença dos povos originários dentro do Vaticano.  Seus símbolos povoaram nosso raio visual com cocares, que inclusive foram usados pelo próprio Papa e por bispos presentes. Tudo isso é a valorização das culturas autóctones indígenas, algo sem precedentes.   O documento final declara ser indispensável uma conversão ecológica para uma vida sóbria.  Isso implicará mudanças de mentalidade, estilo de vida, modos de produção e práticas relativas ao uso e distribuição dos bens.

O documento diz ainda que a Igreja é chamada a assumir seu papel profético de denunciar a violação dos direitos humanos das comunidades indígenas e a destruição do território amazônico. Para isso, deve ser uma igreja pobre, inculturada e samaritana. Pronta para a solidariedade e a partilha com os povos que habitam a Amazônia e dela vivem, e pedem ao mundo atenção e participação ativa na luta por sua sobrevivência.

Durante a celebração do Sínodo um grupo de bispos renovou o Pacto das Catacumbas. Mais de 40 participantes, sob a liderança do cardeal Cláudio Hummes, relator do Sínodo, assumiu o compromisso de defesa dos pobres, dos territórios e da conservação socioambiental da Amazônia. O texto do pacto – que recebeu o nome de Pacto das Catacumbas pela Casa Comum – se apoia na Encíclica Laudato Si do Papa Francisco.

Algumas questões importantes quanto à organização da Igreja também foram debatidas, tais como a ordenação de homens casados e a criação de um diaconato feminino para atender a região amazônica, onde o clero é muito escasso e  demanda ministros afinados com a cultura local. Estes pontos, assim como todos os outros, devem ser cuidadosamente examinados pelo papa, que então entregará um documento oficial e definitivo em alguns meses.

Em todo caso, segundo o próprio papa, em vídeo amplamente difundido, no momento o principal é assimilar bem o diagnóstico que o Sínodo faz da situação da Amazônia e as urgências que dele decorrem.  Este é o encargo mais importante a ser completado neste momento não apenas à Igreja, mas a toda a sociedade.

Obs: Maria Clara Bingemer é  autora de “Mística e Testemunho em Koinonia” (Editora Paulus), entre outros livros.

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