Frei Adolfo Temme 15 de novembro de 2019

Esta história é o resumo de um famoso teatro da Idade Média,
Acostume-se com isto: Para a Morte, você é QUALQUER UM.

Havia um Senhor que gostava de sombra e água fresca.
Pensava que a vida era farra sem fim.
Um dia estava indo para uma festa
e nisto foi abordado por um estranho personagem:
Era magro e pálido, e um lençol cobria os ossos secos.
Era a Morte em pessoa, barrando o seu caminho,
e ela o perguntava: Para onde vais tão depressa?
O Senhor QUALQUER UM respondeu:
Vou para uma festa, e ninguém me empata!
A festa não vai acontecer, disse a Morte,
pois eu te convido para outra viagem!
O homem sentiu que não podia resistir e perguntou:
Quando estaremos de volta?
Esta viagem não tem volta, disse a Morte.
O Senhor QUALQUER UM apavorou-se e perguntou:
Sozinho não vou contigo. Posso chamar alguém para ir comigo?
Você pode tentar, respondeu a Morte.
O Homem chamou sua esposa, dizendo:
Vem comigo nesta travessia, pois Tu me juraste fidelidade.
Mas ela respondeu: Jurei, mas somente até a morte!
O Senhor QUALQUER UM se valeu dos amigos fieis de festa e farra,
mas eles se aborreceram, dizendo:
Não estrague nossa bebida com gosto de morte.
O homem chamou então a RIQUEZA, pois ele possuía muitos bens.
A Morte, porém, respondeu: Não chames a Riqueza,
pois ela não tem crédito na terra onde vamos.
O homem aflito chamou em seguida a Sabedoria, mas a Morte disse que não:
A Sabedoria deste mundo não sabe de nada na terra de nosso destino.
Finalmente, o Senhor QUALQUER UM chamou o Poder,
pois tinha títulos de autoridade.
Porém, a Morte preveniu: Todo poder deste mundo acaba na terra aonde vamos.
Vendo-se tão desamparado, o homem perguntou aflito:
Então não tem ninguém que possa ir comigo?
Disse a Morte: Somente as Virtudes podem te acompanhar!

Reanimado, o Senhor QUALQUER UM chamou pela FÉ,
para que viesse em seu auxílio.
mas esta se apresentou bem fraca, dizendo:
Eu não resisto a viagem, pois tu nunca me nutriste!
Chamou em seguida pela Esperança,
e esta chegou cambaleando: Não posso ir contigo,
pois tu puseste a esperança sempre em outras coisas.
Por último chamou pela Caridade, e esta veio, dizendo:
Como podes me ocupar agora, se nunca fizeste caridade?
Não tendo mais nenhum apelo, o homem começou a chorar
e pelo véu do pranto enxergou um personagem que lhe falou:
Eu sou o Arrependimento!
Vou te lavar no banho da contrição.
O Senhor QUALQUER UM chorou amargamente,
vendo-se tão desprevenido.

Nesta hora a Morte avisou: Já esperei muito. Vamos embora!
O Arrependimento ajudou o homem a ficar de pé.
Levanta-te. Eu vou contigo!
Assim começaram a viagem até chegar a um portão pequeno.
O portão se abriu e se fechou de novo.
E o que aconteceu do outro lado do portão, ninguém pode contar.

Obs: Teatro medieval
que existe em muitas as linguas,
ainda hoje é apresentado em Salzburg, Austria

Tudo é vaidade, dizem os Provérbios.
Vaidade é aquilo que se vai,
em contraste com o que não se vai.
A prova de fogo é a morte.
Poder, posse e prestígio: tudo se vai.
Tudo é bastão enfeitado que quebra.
A vida se divide
no trecho antes do portão que conhecemos
e no trajeto depois do portão que ignoramos.
Na divisória nos é mostrado
o que vale e o que não vale.
Depois que as aparências se desfazem
aparece no choro o vazio total.
Esta indigência é a criança
que sobreviveu a todas as ilusões.
O choro é o banho carinhoso
com que se lava o recém-nascido.

Obs: Traduzido e comentado por frei Adolfo Temme
A sugestão é transformar a narrativa em teatro.
Teresina, dia de Finados

O autor é Frade Franciscano, nasceu na Alemanha em 1940.
Chegou ao Brasil como missionário em 1964. Depois de completar os estudos em Petrópolis atuou no Piaui e no Maranhão. Exerceu trabalhos pastorais nos anos 80 em meio a conflitos de terra. Desde 1995 vive em Teresina no RETIRO SÃO FRANCISCO onde orienta pessoas na busca da vida espiritual.    

Imagens enviadas pelo autor.

Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor e foi publicado da forma como foi recebido, sem alterações pela equipe do Entrelaços.


busca
autores

Autores

biblioteca

Biblioteca

Entrelaços do Coração é uma revista online e sem fins lucrativos compartilhada por diversos autores. Neste espaço, você encontra várias vertentes da literatura: atualidades, crônicas, reportagens, contos, poesias, fotografias, entre outros. Não há linha específica a ser seguida, pois acreditamos que a unidade do SER é buscada na multiplicidade de ideias, sonhos, projetos. Cada autor assume inteira responsabilidade sobre o conteúdo, não representando necessariamente a linha editorial dos demais.
Poemas Silenciosos

Flickr do (Entre)laços

ExposiçãoDesenhos

Série "Natureza"

Série Natureza

DeJanelaEmJanela

DeCostas

Série "Detalhes"

Série "MoradaImprovisada"

Série Morada Improvisada

Finados

Tratando de peixe

Série Flores

Série Flores

Esporte na Colônia

Série Natureza 01

Série Natureza 05

Caxambu

Caxambu

Caxambu - 02

Caxambu - 01

Penumbra...

Aglomeração...

Portão florido...

Barra Palace

Conjunto Harmonioso...

Reunião privada...

Espaços ocupados...

Arquitetura Perfeita...

Convergência II

Convergência I