E aconteceu! A Argentina, uma das favoritas ao título de Campeã do Mundo foi desclassificada. Choraram os jogadores e o povo platino. Rejubilou a maioria dos meus patrícios, mas nem todos. Apesar do alívio de não ter que enfrentá-los nas quartas de final da Copa do Mundo, estou com uma minoria de brasileiros que choram por ti e contigo. Choro pela “latinamericanidade”, que vocês sempre encarnaram e defenderam. Choro pela luta pelas Malvinas, que “son Arrentinas” e pelos quase mil heróis que se foram naquela triste empreitada, de David contra dois Golias, pois ali os EUA se juntaram com a Inglaterra para te humilhar. Choro pelo teu passado, exemplo, para todos nós, de como os latinos podem dar certo, mesmo estando na América do Sul. Choro por tuas “chicas ricas e salerosas” que não tinham o “discreto charme” daquelas cantadas por Caetano em Sampa, mas sim um arrebatador charme e beleza. Não me esqueço da primeira vez que visitei Buenos Aires, no início da década de 70, ainda morando no Rio de Janeiro (que vivia o fim dos seus “anos dourados”), com ares de Capital injustiçada, que não aceitava a perda do status e da qualidade de vida, que se seguiria vertiginoso na década seguinte, para não mais parar. Jovem universitário da UFRJ, travestido de rebelde, em verdade, fiquei impressionado com a elegância dos portenhos, com a beleza de sua cidade, com sua civilidade, sua noite, seus bares e restaurantes, seus parques, sua gente alegre e bonita e com seus jovens e velhos, lendo por toda parte. Conversando com essas “figuras estranhas” comecei a compreender nossas diferenças culturais, históricas, políticas, futebolísticas (naquela época ainda éramos “fregueses de caderninho”) e “las carreras de coche” (Fangio e Carlos Reutman, o adorado “Lole”, versus Fittipaldi, Carlos Pace e o F1 Copersucar). As conversas foram pouco a pouco clareando minha mente e desconstruindo meus preconceitos, e fazendo com que, quando de lá voltando, passasse a respeitar e entender como aqueles argentinos, que mais pareciam italianos, falando castelhano, vestidos de franceses, e pensando serem ingleses (apesar de serem também uma mistura de árabes, alemães e nativos) tivessem produzido prêmios Nobéis, fossem tão orgulhosos, tão nacionalistas e tão sonhadores com uma América Latina diferente. Em verdade, eles podiam e tinham o direito. Eles tinham dado certo como nação, com índices sociais que, se aqui recordados, nos fariam aumentar nosso complexo tupiniquim (como dói na alma e insulta nossa consciência saber que, ainda hoje, cerca de 30% dos brasileiros, 40% dos pernambucanos e 50% dos nordestinos são analfabetos funcionais), apesar de todas as explicações que poderíamos utilizar para nos defender de tal vexatória situação. Mas isso não faz parte do objetivo deste texto. O único propósito dessas letras é o de chorar por ti e contigo. Pela perversidade do sistema financeiro internacional, do consenso de Washington, e da geopolítica internacional, e de um grupo de limitados (para não usar outros adjetivos mais fortes) homens públicos, que dentre muitos outros fatores, te levaram a trágica situação atual. Choro por um país e um povo que nos deu o Tango, que não é mais tão dançado hoje em dia, e um Astor Piazolla. Que também nos deu Jorge Luís Borges, Gardel e Mercedes Sosa, com suas interpretações de músicas libertárias inigualáveis, e com as quais melhorei meu portunhol, ninei meus filhos e forjei meu espírito. E um dos maiores mitos do século passado, Che Guevara, e o Maradona, apesar dos gols contra o Brasil e de não ser melhor do que o Pelé. Mas tenho certeza que, dialeticamente, esses períodos tão difíceis para nossos povos, irão nos fazer ficar mais tolerantes com nossas diferenças, mais unidos em nossos sonhos, e principalmente mais fortes para construir um continente, começando pelo Cone Sul, mais justo, livre, fraterno e feliz, pois esse é o nosso destino.

Publicado em 20 de junho de 2002, Jornal do Commercio, pag 11, seção Opinião

Obs: O autor, Prof. Dr. Aurélio Molina, Ph.D pela University of Leeds (Inglaterra) é membro das Academias Pernambucanas de Ciências e de Medicina, professor da UPE, Coordenador do Programa Ganhe o Mundo.

Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor e foi publicado da forma como foi recebido, sem alterações pela equipe do Entrelaços.


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