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(Considerações gerais e introdutórias para compreender a Reforma Protestante)

  1. Os processos históricos. Em 31 de Outubro, rememoramos o evento da Reforma Protestante que já vai passando de quinhentos anos. Papa Francisco fez questão de ir à Suécia participar das comemorações dos quinhentos anos. Quem sabe, por ironia do destino (que estranhas essas “brincadeiras” de Deus!) foi recebido pela Arcebispa luterana (fato inédito, um papa acolhido por uma mulher bispa!) e, em entrevista, reconheceu que, apesar de conflitos e incompreensões de parte a parte, o grito de Lutero foi, sem dúvida, um dom, pois significou um chamado para a Igreja redescobrir sua própria herança bíblica e tomar consciência de que está sempre chamada a reconhecer que necessita de reforma: “Igreja reformada, sempre a ser reformada”. Os antigos Pais da Igreja tinham chegado até a ser mais radicais em suas imagens: “Ecclesia, casta meretrix” (santa e prostituta, santa e pecadora): linguagem paradoxal e dialética, ainda mais forte que a frase de Lutero. Sim, para compreender o acontecimento da Reforma é preciso ter presente que os tempos e fenômenos históricos são longos e complexos, ou seja, dependem de muitos fatores e processos que se entrelaçam ao longo dos tempos, O processo da Reforma já corre há quinhentos anos e ainda não se completou, o que temos tido, na verdade, são ondas sucessivas que se pretendem inspiradas pela Reforma, algumas delas até bem distantes das intenções dos reformadores e de suas primeiras realizações, Algumas até bem distantes dos caminhos indicados pela Bíblia e, particularmente, pelo Evangelho, como se vê hoje em comunidades pós-pentecostais (prefiro usar esse termo a falar de “neo-pentecostais, pois “neo-pentecostais” indicaria continuidade, em vez o que temos é ruptura com a tradição da Reforma)..
    2.Raízes remotas na história: O profeta Jesus de Nazaré. A Reforma foi um processo que se foi gestando por longo tempo e finalmente eclodiu. Trata-se de um grande acontecimento que só se compreende tendo em conta a longa história que o antecedeu e o gerou. Por isso, é importante começar fazendo memória de Jesus e de Seu ministério. Sua figura histórica foi a de um profeta judeu, não criou nenhuma instituição própria apartada do Judaísmo. Era judeu, sentia-se membro do povo da aliança, e foi até o fim e morreu fiel à “qahal YHWH” ou “qahal Israel”, à “Assembleia de YHWH”. Do contrário, ter-se-ia sentido traidor de Seu povo, cismático ou herege, teria rompida com a sagrada tradição que se iniciara desde Moisés, a tradição de “povo eleito”. De fato, encaminhou Sua vida no rumo da grande tradição bíblica, referindo-se sempre ao libertador Moisés e à corrente profética (cf. Jo 1, 16-18. 45; 5, 45-46; 6, 32-33; 7, 19-24; 8, 31-45; 9, 24-34). No clima apocalíptico de Sua época, assumiu, Ele mesmo, a tarefa de profeta e anunciou a chegada iminente do Reinado de Deus (cf. Mc 1, 14-15; cap. 13): a partir de Israel, a aliança se estenderia a todos os povos da terra, conforme o sonho da profecia de Isaías (cf. Is 2, 1-5) e os sinais que Jesus mesmo dá entrando em regiões samaritanas e gentias (cf. Mc 7-8; Mt 8, 5-13; 15; Jo 4), sonho documentado em muitos dos textos proféticos e compreendido perfeitamente pelo apóstolo São Paulo e sua corrente (cf. Ef 2) – mediante uma “nova humanidade” (Rm 5-6.8; Gl 3-5). A aliança de Deus com Israel se alargaria, ou melhor, se revelaria como aliança com todos os povos da terra, pois o Deus de Israel é Criador e Pai universal (cf. Gn 1-12; Am 9, 7-10) e o cumprimento da aliança com Ele se concretiza em serviço mútuo, partilha de bens, perdão, confiança absoluta em Deus como Pai, liberdade. Transformação antropológica profunda da vida pessoal e coletiva, não simplesmente observâncias religiosas (cf. Is 1; Os 4, 1-3; Mc 7, 1- 8, 21; Mc 8, 22-10, 52;At 1-10; Rm 1-3).
    3. As comunidades cristãs. Da missão profética exercida por Jesus e do movimento que desencadeou surgiram as comunidades sob a liderança de discípulos e discípulas. Há muito tempo, um importante teólogo francês e padre, Loisy, o tinha percebido com clareza e ficou célebre por uma famosa frase: “Jesus anunciou o Reino e o que veio foi a Igreja”. Claro que foi condenado pelo Vaticano e suas obras proibidas à leitura do povo católico romano. Os estudos posteriores sobre o Novo Testamento e a história daqueles tempos, porém, só fizeram confirmar sua intuição. Jesus fora um profeta com nítidos traços apocalípticos e sua vida e pregação giravam em torno do anúncio da proximidade do Reino. As comunidades que surgiram inspiradas por Ele já estavam em novo momento, sentiam necessidade de se organizar para levar adiante a memória e herança do Mestre, mas não se pensava em ruptura com Israel, Na verdade, continuavam ligadas à gloriosa herança e aos ideais do povo de Deus. Não se tratava de nova instituição apartada, sentiam-se em plena continuidade com a tradição de Moisés e dos profetas (cf. At 1-10). Tendo como fundamento a liberdade que Jesus tinha exercido em meio a Seu povo, as comunidades logo cedo perceberam como natural que houvesse diversidade entre elas, mesmo que isso, às vezes, pudesse suscitar divergências e tensões, como vemos, por exemplo, em Atos 10-15. Pelos estudos sobre o Novo Testamento e a história da época, pode-se concluir com boa margem de segurança que as comunidades que se referiam a Tiago e a Pedro representavam um setor mais conservador, ainda muito ligado às instituições religiosas de Israel e a suas práticas (circuncisão, frequência ao templo e às sinagogas, importância suprema da Lei, relações sociais patriarcais – cf. 1Pd 2 e 3; 1Tm 5, 1-6, 2; 1 Cor 14, 33-38 – texto provavelmente acrescentado, pois contradiz o pensamento do Apóstolo (cf. Gl 3, 23-29; 1Cor 11, 5) e parece literariamente interpolado, podendo-se saltar diretamente do versículo 33 ao 36 sem perder nada do que vem sendo dito a respeito de profecia; a forte liderança pessoal do Apóstolo Paulo e seu horizonte cosmopolita abriram nova perspectiva, pois era homem de cidade marcada pelo helenismo e relações com o Império (Tarso), o que o ajudou a perceber com mais profundidade e amplidão o projeto internacional, universal de Jesus: a herança de Israel devia ser aberta aos povos gentios e a sua cultura própria, sem precisar passar pelas observâncias legais típicas da cultura do povo de Israel, como vemos nas cartas aos Gálatas, aos Romanos e aos Coríntios; as comunidades que se referem ao “Discípulo Amado (João?), possivelmente na região de Éfeso, parecem ter adotado um modelo mais “congregacional”, confiando intensamente na iluminação do Espírito Santo e com ênfase na vivência de comunidade, também nas decisões, e forte liderança feminina (cf. Jo e as três Cartas).
    4. A Igreja assume a forma de religião. A partir do conflito com o Judaísmo oficial (cf. Jo 9) e a chegada de gentios às comunidades, tornou-se necessário assumir cada vez mais formas e costumes de “religião”, pois era preciso criar alternativas às “devoções” e aos rituais, tanto do Judaísmo, quanto do paganismo, ambos marcados por intensa observância de práticas religiosas (cf. At 17, 22). Ora, a religião está necessaria e profundamente vinculada aos valores culturais de cada povo, é o topo da legitimação da cultura. As comunidades, desse modo, vão assumindo forma de uma nova religião para responder a anseios de setores da sociedade que já não se sentiam mais em condições de assumir a religião judaica ou a religião idolátrica gentia com suas instituições, rituais, observâncias. É evidente que a origem dos ritos e das instituições aceitas nas comunidades eram o Judaísmo e o paganismo dos quais os membros das comunidades provinham. Jesus mesmo só havia deixado a Ceia comunitária como gesto central que a todos(as) reunia, e talvez falou a respeito ou até praticou o Batismo (cf. Jo 1, 31-34; 3, 3-8. 22-26). Nas comunidades, vai-se formando um “clero” como corpo distinto do “povo leigo”. “Clero”, na origem, significava “consagrado(a)” para designar pessoa batizada. “Leigo(a)” vem de “laikós”, em grego, que queria dizer membro do povo, membro do “laós”. Aos poucos clero passa a designar o grupo dirigente da Igreja e leigo(a) passa à significação negativa de quem não faz parte do clero. Surgem os “bispos” (“epískopoi”, supervisores, cf, Fl 1, 1-2) que assumem a direção na comunidade e vão adquirindo a figura de dirigente, num primeiro momento como presidente de um conselho e em seguida com liderança “monárquica”. Vão aparecendo os sinais de organização hierárquica, Para confirmar essas mudanças e incuti-las nas mentes das pessoas, vai-se difundindo justificação teológica: o bispo, imagem de Deus Pai, os presbíteros comparados ao conselho ou senado dos Apóstolos, os diáconos como representação de Jesus-servo, Essa mudança vai-se dando já entre o século 1º e o século 2º d,C.
    (cf. as Cartas de Inácio de Antioquia).
    5. A Igreja assimila a cultura greco-romana. No processo de inserção na sociedade, as comunidades cristãs espalhadas pelo Império Romano, herdeiro da cultura grega, foram cada vez mais assimilando, além da religião, o pensamento e valores da cultura helenista: o Neoplatonismo para compreender a constituição da realidade (Santo Agostinho, por exemplo, foi filosoficamente neoplatônico) e o Estoicismo para formular os princípios da prática moral e os caminhos de uma vida virtuosa. Ora, esses sistemas de pensamento levavam a compreender a realidade sob a perspectiva do dualismo antropológico, privilegiando o “espírito” ou “alma” em detrimento da dimensão material da vida, considerada o cárcere da alma ou sombra da verdadeira realidade, prisão que nos aparta da luz, semelhante a caverna escura e sombria, conforme as imagens propostas por Platão e seus discípulos. Tudo isso levava naturalmente ao “espiritualismo”, distanciando-se assim da visão bíblica que considerava o ser humano em sua relação íntima com o universo material, como se vê no relato da criação do mundo (cf. Gn 1 e 2; Ct e vários salmos; Rm 8). Segundo os profetas, uma vida humana virtuosa se exerce mediante relações que têm a ver profundamente com a materialidade do mundo, basta ler Isaías capítulos 1º (culto e oração) e 58 (sobre o verdadeiro jejum), assim como os demais profetas e as conversas de Jesus com Seu grupo de discipulado na caminhada para Jerusalém, quando se trata de serviço recíproco, de partilha de bens materiais e de redirecionamento das relações humanas de poder (cf. Mc 8, 31 a 10, 52).
    6. A Igreja se torna religião de Estado. Ttendo-se tornado religião da sociedade e assimilado a cultura greco-romana, o passo seguinte foi tornar-se religião do Estado romano, o que se deu já no século 4º. Não tardou que trocasse o lugar de perseguida pelo de perseguidora de seus próprios membros quando considerados hereges ou cismáticos, ou seja, quando discordavam do estabelecido, quando podiam ser apenas formulações ou ênfases diferentes. Meu professor de Cristologia, na Universidade Gregoriana, em Roma, nos dizia que até hoje se discute se Nestório foi realmente “nestoriano”, mas o fato é que foi condenado e deposto do ministério porque tinha outra linguagem para falar da encarnação de Jesus, com a valorização de sua plena humanidade. A Igreja assume o papel de instância “cultural” da ordem do Império, rebaixa-se a exercer a função de “ideologia legitimadora” dos valores daquela sociedade. Os bispos, por exemplo, vão se tornando príncipes, com status de funcionários imperiais, o próprio imperador convoca e preside concílios para discutir assuntos doutrinais que passam a ser negócio de Estado, eixo de unidade político-ideológica.

Com a queda do Império Romano, a Igreja, já tornada uma grande e sólida “instituição religiosa”, acolhe em seu seio os povos germânicos, invasores da Europa, e dá-se então a terceira grande síntese cultural. A primeira tinha sido a tentativa de encarnar-se no Judaísmo aberto aos gentios; a segunda, a relação ainda mais profunda com o sistema greco-romano; a terceira, a encarnação no mundo dos “bárbaros”. Essa terceira síntese se manifestou no império de Carlos Magno e na chamada Cristandade medieval, quando a Igreja chegou a ser o poder mais alto, religioso, político e militar, além de econômico, e passou a ser o equivalente à Europa: Europa era o mesmo que “Ecclesia”. O papado se tornara poder temporal, a rivalizar com nobres, príncipes e imperadores, os bispos eram príncipes e senhores feudais. O auge desse processo se deu entre os séculos XI a XIII. Promoveram-se Cruzadas contra os muçulmanos e em seguida contra quem julgavam hereges ou cismáticos, e se estabeleceram os tribunais da Inquisição. Muita gente era perseguida, torturada e até queimada viva em abomináveis fogueiras, particularmente mulheres acusadas de bruxaria, elas que, na verdade, faziam o papel de curandeiras mediante tratamento com ervas medicinais, com danças e com convivência alternativa fora do controle masculino. Ora, quando todo o mundo é cristão, já quase “ninguém” o é, baixa ao mínimo o nível de exigência de conversão e o seguimento de Jesus. Daí a importância que adquiriu a vida monástica e conventual, como lugar de vivência cristã mais exigente e fiel… mesmo assim não deixando de ser contaminada pelo clima geral. Os mosteiros beneditinos, por exemplo, eram uma maneira de criar alternativa ao sistema de poder feudal, formando cooperativas de camponeses que se irmanavam em “sociedade igualitária”, à imagem da comunidade primitiva, embora fossem inevitáveis certos traços assimilados do sistema dominante, como no caso da figura do abade que tinha todo o poder sobre a comunidade, é claro que com a recomendação de que sua “paternidade” imitasse a paternidade de Deus (sic!).

7. O protesto do movimento popularJustamente nesse período, entre os séculos XI a XIII, foi-se fortalecendo o movimento popular, de protesto contra a mundanização da Igreja e a exploração dos pobres, com a consequente afirmação do povo leigo e das populações exploradas, particularmente os camponeses no sistema feudal. É período de grandes peregrinações, gente que sai e busca as montanhas atraída pela fama de eremitas, de leigos missionários, de profetas, são camponeses, comerciantes, mendigos, mulheres… surgem ordens mendicantes (carmelitas, franciscanos, dominicanos) movidas pelos ideais de pobreza evangélica no seguimento de Jesus e seus apóstolos. É nesse fluxo que vamos encontrar Francisco de Assis, os Valdenses, Joaquim di Fiore e muitas outras lideranças que ansiavam pelo derramamento do Espírito Santo e por revelações que reencaminhassem a Igreja nas veredas do Evangelho, com a volta à simplicidade fraterna da comunidade primitiva. Foi desse movimento que surgiu o papa Celestino V, um ancião eremita das montanhas italianas Pietro da Morrone, aclamado pelo povo como enviado do Espírito Santo, mas que não suportou o mundanismo do papado na época e com menos de um ano renunciou, foi preso por seu antigo secretário que tinha sido eleito sucessor, Bonifácio VIII, e foi assassinado misteriosamente na prisão com um cravo na cabeça, motivo de desolação do movimento dos pobres, particularmente dos chamados “irmãozinhos” (“fraticelli” e espirituais). Muitas mulheres abraçavam a vida conventual por recusa a casamentos impostos pelas injunções dos acordos interfamiliares no sistema feudal: místicas, escritoras, abadessas com autoridade até sobre mosteiros masculinos, foi famosa a abadessa Hilda. É bom lembrar que a reforma promovida pelo poderoso papa Gregório VII, no século XI, na esteira do mosteiro de Cluny, e com forte conflito com os príncipes quanto às investiduras (os príncipes impunham quem deveria receber cargos eclesiásticos, “investiam” a pessoa no poder sagrado), à simonia (“compravam-se” a dinheiro dignidades eclesiásticas). Com as reformas, de Gregório VII, por exemplo, a Igreja praticamente se identificou com seu corpo clerical, sobretudo o alto clero, pois com a quebra da influência dos príncipes cristãos sobre os negócios eclesiásticos, na verdade, o laicato representativo (príncipes e senhores feudais) sentiu-se diminuído na capacidade de influir nas instâncias de decisão na “Ecclesia”. “Igreja” vai passando até hoje como sinônimo do “corpo clerical”: quando se diz “a palavra da Igreja”, ou a “posição da Igreja”, entende-se que se trata do clero, do estamento de pastores, particularmente do papa, do episcopado ou da direção da Igreja… as comunidades, o laicato, foram rebaixadas a massa passiva. Como dizia Pio X, “na Igreja o direito do povo é obedecer”, para se “salvar” naturalmente como mansos cordeirinhos…

8. O ressurgimento das cidades e a consciência de “indivíduo”. Por volta do século XII, via-se o ressurgimento das cidades. No passado, o mundo helenista e o Império Romano, apesar de se sustentarem da agricultura, da escravidão e das conquistas militares, tinham sua base nas cidades e no intercâmbio comercial. O Feudalismo, no entanto, era uma civilização rural, baseada nos feudos, grandes latifúndios firmados no corporativismo de famílias que se vangloriavam de seus títulos de nobreza. Um novo panorama começava a desenhar-se. As feiras, a economia comercial, as viagens, o intercâmbio de moedas, os empréstimos a juros formalmente proibidos pela moral eclesiástica… Tudo isso era sinal de novo cenário econômico e social, o “burgo” se levantava como alternativa ao “castelo”. Tudo isso se relacionava intimamente com o novo fenômeno que era o da “mobilidade social”, ou seja, a subida de posição na sociedade, aliado com a nova consciência de “indivíduo”, o que era fundamental para o Liberalismo. Ainda não se pode esquecer a importância que tiveram as universidades, não foi por acaso que os grandes reformadores surgiram desse ambiente.

É importante ter presente que tudo isso suscitava novo clima cultural/religioso em contraste com o difuso sentimento coletivo de angústia existencial e sofrimento que se difundira no século XIV, como se o fim do mundo já fosse iminente, com condenações da Inquisição, fogueiras que cruelmente matavam hereges e mulheres acusadas de “bruxas”, além de guerras e do flagelo da peste. Respirava-se um clima cinzento de angústia e medo do Julgamento Final. Isto facilmente pode ajudar a entender a sofreguidão de ter os pecados apagados pelas indulgências concedidas pelo papa e seus representantes, O “cofre” de benefícios espirituais a alimentar o cofre real do tesouro eclesiástico, inclusive para a construção da basílica de São Pedro, expressão emblemática do esplendor do papado.  Os séculos XV e XVI apontavam para outra direção, foram o período do chamado “Humanismo” e da “Renascença”, com a volta às fontes antigas, gregas e romanas, pré-cristãs, portanto, da cultura ocidental. Ainda se deve lembrar a invenção da imprensa. Sem dúvida, estavam à vista sinais de profunda ruptura com o mundo sacral e cinzento da Cristandade medieval.

Desse ambiente é que vão surgir as grandes viagens intercontinentais, no afã de conquistar terras, gentes e produtos, inaugurando a fase mercantil do Capitalismo. A Igreja cristã, infelizmente, impunha seu modelo colonial, sem operar nova síntese cultural com os povos “descobertos”, dominados, não realizando o que tentara ou conseguira  antes, como tinha acontecido no encontro com o Judaísmo, o mundo greco-romano e os povos germânicos. Na verdade, depois de dez séculos de Idade Média, a Igreja se tinha identificado profundamente com o modelo feudal. É fácil compreender essa profunda identificação com o sistema feudal, rural e profundamente hierárquico-autoritário, quando se percebe ainda hoje a dificuldade de renovação do sistema católico-romano. Imaginemos nos séculos XV e XVI!

9. Martinho Lutero, um homem livre. Para simbolizar a nova condição de sua vida, inspirou-se no termo grego “eléutheros” que quer dizer “livre”, acrescentando-o a seu nome próprio. É daí que deriva o nome “Luther”. Foi personalidade genial. Profundamente religioso, atormentado na busca da certeza da salvação, místico, monge agostiniano, exegeta, teólogo, linguista com antenas sensíveis à encruzilhada dos tempos, de profunda fé vivida sob risco de vida. Ao mesmo tempo, de temperamento forte e até agressivo, veemente contra os judeus e capaz de chegar a aconselhar os príncipes alemães a massacrar os camponeses rebelados, por ironia, animados por seus próprios apelos de liberdade e reforma.

Diferentemente dos mestres medievais, formados no raciocínio do método escolástico, e ligados profundamente ao “status quo”, Lutero já falava a nova linguagem dialética e existencial que confrontava o “princípio de identidade”. Espantava que pudesse falar de “simultaneamente justo e pecador” quando o raciocínio dominante afirmava que ou se é justo ou se  se é pecador… fé e obras, Escritura e Tradição, graça e liberdade. Estava para além das categorias essencialistas, estáticas (fixistas) e autoritárias. Não houve diálogo possível. Certa vez, na universidade, aquele que eu considerava meu melhor professor de Teologia, Zoltan Alzeghy, , austríaco, na aula de Antropologia Teológica deixou escapar o seguinte comentário a meia voz: “Lutero foi um caso da Mística e não houve interlocutores para dialogar com ele; já era um teólogo moderno em confronto com teólogos “medievais”.

Seu grande sonho era aproximar-se do povo e enfrentar as questões que estavam a mover a nova sociedade. Nessa mesma direção, preconizava a volta à simplicidade da Igreja primitiva e às fontes bíblicas, assim relativizava os modelos de organização e as instituições eclesiásticas. Como monge agostiniano, sabia muito bem que os antigos Pais da Igreja ainda se tinham nutrido intensamente das Escrituras, enquanto a teologia medieval girava em torno de seus próprios jogos mentais e de categorias filosóficas, primeiro de Platão e em seguida de Aristóteles, e legitimava ideologicamente o sistema estabelecido na Cristandade. Uma de suas maiores empresas foi a tradução da Bíblia, feita a partir da escuta da linguagem falada pelo povo. Diz-se que mandava seus alunos às feiras para escutar como o povo falava em seus dialetos e assim operava escolhas para a tradução que julgava apropriada. Assim, da escuta do povo e da tradução escrita da Bíblia, obra sua, nasceu a língua alemã, língua comum, para além dos dialetos falados até hoje nas diversas regiões do país. Com risco de vida, proclamou o novo horizonte da Liberdade evangélica, pondo-se à escuta do grande profeta do Novo Testamento, o Apóstolo Paulo, o homem da Epístola aos Romanos e da Epístola aos Gálatas. Paradoxalmente, porém, teve de apoiar-se no poder dos príncipes alemães que o seguiam no “protesto”, até para salvar a própria vida e seus projetos de reforma.

10. A Igreja se divide. O grito por reforma, além de suscitar a revolta dos camponeses, provocou divisão e conflito: príncipes de um lado e de outro, correntes denominacionais seguidoras de teólogos (não nos esqueçamos de que os reformadores eram em boa parte professores universitários, gente habituada a discordar e discutir ideias). Além disso, porém, estava o fato de que a Reforma era também expressão de um outro processo político-social, o fenômeno de formação das nações europeias. Estava em crise a unidade do Sacro Império Romano-Germânico, depois de uma sequência de conflitos internos e de disputas pela hegemonia. O papado era o ápice de legitimação do poder imperial unificador, o que já vinha em crise desde o século XI com o papa Gregório VII. O império feudal se quebrava e despontavam nações distintas nas quais diferentes povos buscavam suas afinidades e unidade, por aí também vai passar o conflito denominacional: a Alemanha e a Holanda se unificam em torno dos dois polos, católico e protestante (calvinista); Genebra, na Suiça irradiará o Calvinismo; a Escandinávia se reúne em torno do luteranismo; a Inglaterra se unifica em torno do rei que se torna a autoridade central da “Ecclesia Anglicana” (de “Anglia”, nome latino de Inglaterra), em ruptura com Roma e aberta à influência protestante, particularmente calvinista; Portugal, Espanha, França e Itália permanecem na órbita do Catolicismo Romano. Em seguida, a América do Norte herdará essa mesma divisão entre Catolicismo e Protestantismo.

11. Catolicismo e Protestantismo: perspectivas. Finalmente, para compreender a realidade do Cristianismo após o evento, ou melhor, o processo da Reforma, é importante ter em conta o seguinte: o Catolicismo ainda carrega até hoje a marca de religião fortemente estruturada em torno de um centro, enquanto por séculos foi treinado a cumprir o papel de religião do Império e do regime do Feudalismo, corporativista e fixista. Esse modelo achou justificativa, indevida, quem sabe, na ideia teológica e dogmática de “sacramentalidade”: a comunidade estruturada e institucional, criada por Jesus (tem-se como óbvio que Jesus pessoalmente fundou a Igreja durante Seu ministério terrestre), essa comunidade é mediação essencial para a conversão das pessoas e santificação de cada um de seus membros. No Protestantismo, é a relação imediata com Deus através do Espírito Santo que move à conversão e ilumina diretamente o crente na leitura das Escrituras, sendo a comunidade o ambiente para testemunhar a fé e as obras do Senhor na vida do “indivíduo”. Na perspectiva católica, a comunidade (a Igreja) não é só o ambiente ou “cenário” para o testemunho, mas é a mediação sacramental para que a pessoa se achegue à fé e, assim, se incorpore a um povo cuja missão é anunciar e vivenciar a salvação. Isso se expressa simbolicamente nos “sacramentos” que são elencados como sendo sete.

12. As “Marcas da Missão” da Igreja cristã para a transformação do mundo. A Comunhão Anglicana, por exemplo, costuma definir-se como “via media” entre Catolicismo e Protestantismo. De um lado, se sente em parte herdeira da Reforma e chega a falar de “Catolicismo reformado”, o que se percebe quando se leem os famosos “Artigos de Religião; ao mesmo tempo, porém, continua a considerar-se um ramo do Catolicismo em continuidade com a Igreja que se estabeleceu nas Ilhas Britânicas desde pelo menos o século II dC. Há vários anos atrás, chegou a formular uma síntese do que é a Igreja cristã, nas chamadas “Marcas da Missão”. Tudo começa pelo anúncio das Boas Novas (Evangelho) em vista da conversão das pessoas. A partir daí, a pessoa entra na comunidade cristã pelo Batismo e começa a vivenciar a “diakonía” ou serviço do amor fraterno, mediante a “koinonía” (comunhão) ou partilha de afetos e de bens; mediante a “didaskalía” (ensino) para assimilação da Palavra de Deus através das Santas Escrituras; mediante a “mystagogía” ou iniciação ao mistério de Cristo, que acha na “leytourgía” um espaço privilegiado de expressão e um meio de experimentar a presença viva de Cristo na comunidade. Essa experiência no interior da comunidade deve transbordar para fora e. assim, levar a assumir a “diakonía do testemunho” para fora, em meio à sociedade: mediante a prática da SOLIDARIEDADE expressa em serviços de amor a quem necessita; mediante a luta pela transformação das estruturas injustas da sociedade (prática da JUSTIÇA); mediante a prática do CUIDADO em vista de preservar, restaurar e renovar os recursos da Criação e a vida na terra. Tudo isso para que se estabeleça na terra o Bem-Viver, a felicidade ou XALÔM que na Bíblia é o equivalente ao Reinado de Deus (cf. Ef 2).

É por aí que se deve compreender a famosa frase do grande teólogo luterano Paul Tillich: A Igreja para ser completa precisa de ter “substância católica e princípio protestante”. São as duas dimensões constitutivas. O princípio teológico da sacramentalidade, é verdade, derivou em ideologia religiosa para legitimar o poder do clero (monopólio dos sacramentos) e até mesmo o poder econômico, social, político e cultural. Mas, enquanto princípio antropológico e bíblico, vai muito além desse condicionamento, é a própria “substância” da Igreja. Na verdade, o fundamento do princípio sacramental é o seguinte: Deus Se nos revela mediante as realidades da vida e do mundo por Ele criado, sobretudo através do testemunho histórico de Jesus e de seus discípulos e discípulas, para quem a maneira de viver segundo Deus é o AMOR, ou seja, a Comunhão de relações ou a COMUNIDADE (cf. 1Jo), exercida/exercitada no serviço recíproco, na partilha de bens, no perdão mútuo e na missão para fazer novos seguidores e seguidoras de Jesus, pessoas transformadas em todas as nações. Não devemos esquecer que esse processo se dá em três dimensões: a pessoa amadurece mediante o exercício da Liberdade; as relações entre as pessoas amadurecem na Comunhão (cf. Gl e 1Jo); finalmente a relação de amor fraterno transborda em vista da transformação da Sociedade, mediante a solidariedade (compaixão), a justiça (luta) e o cuidado (Economia -“lei da casa” – submissa à Ecologia (“lógica da casa). As pessoas se manifestam nessas atitudes e comportamentos que, por sua vez, são também constitutivos das mesmas pessoas. Na verdade, a liberdade, a comunitariedade e a societariedade são dimensões que constroem as pessoas nelas mesmas e entre elas. De fato, as relações comunitárias, imediatas, primárias não nos são externas, passam por dentro de nós e nos constroem, assim como as relações  sociais, secundárias, estruturais, da mesma forma nos constroem ou nos destroem. Por isso, a vida de fé é experiência profunda da pessoa e ao mesmo tempo experiência comunitária e social, econômica, política, cultural, ecológica e também religiosa. É isto o que a Igreja Católica Romana  quis expressar ao dizer que a Igreja – nós enquanto comunidade cristã no mundo – é como sacramento, “sinal e instrumento da união com Deus e da unidade humana” (cf. Preâmbulo do documento “Lumen Gentium” sobre a Igreja). Ao praticar os “sacramentos”, na verdade, estamos a manifestar o que profundamente somos, “sacramento”, ou seja, sinal e instrumento da presença viva de Cristo. É em nossas relações entre nós,  com a sociedade, com o mundo material (criação de Deus), com o futuro, que testemunhamos nossa sublime identidade e tarefa de sermos sacramento vivo de Cristo na história. Nos sacramentos e pelos sacramentos o que se revela simbolicamente é que nós é que somos o Sacramento de Cristo na vida de cada dia. E Jesus nos deixou muito claro que um lugar particular na sacramentalidade da Igreja está reservado às pessoas e categorias pobres: “Era Eu” (cf; Mt 25, 31-46). Como costumava dizer Dom Helder Camara, nos pobres está a presença do Cristo vivo que nos julga em meio à história de nossas relações e de nossas estruturas de convivência.

13. A Unidade do povo cristão será a consumação da Reforma. Se a Reforma naquele contexto de disputas e incompreensões, quando se dizia que “a obediência é a raiz de todas as virtudes” (o Papa Leão X, em sua bula de condenação de Lutero, se esquecia de que a raiz de todas as virtudes é o amor, a caridade, não a obediência equivalente a submissão…), resultou na divisão da Cristandade, hoje, no entanto, consumar a Reforma é relacionar-nos fraternalmente e trabalhar pela unidade da Igreja para que seja instrumento mais apto, “reformata semper reformanda”, nas mãos de Deus em vista da transformação da sociedade humana. O Conselho Mundial de Igrejas tem-nos estimulado nessa direção desde muitíssimos anos. O Concílio Vaticano II foi outro processo significativo na mesma direção. Em nosso Continente, as Conferências Episcopais de Medellín e de Puebla apontaram de maneira ainda mais clara para o caminho a seguir. Não acharemos o caminho se privilegiamos discussões doutrinais ou questões rituais e de organização. No rumo de nossa peregrinação no sentido da unidade temos de ter como guia o serviço à causa da redenção do mundo, tarefa comum de todos e todas que seguimos a Jesus. Temos de começar por relações interpessoais que nos aproximam pelo que efetivamente somos, não por nossos cargos e funções. Daí, podemos passar a colaborar em ações ou causas comuns. Vamo-nos descobrindo como gente que em nome de Cristo assume em comum Sua missão. A amizade e as relações mais próximas nos despertam o interesse de saber o que são, onde vivem e o que fazem nossos companheiros e companheiras de luta. Interessamo-nos por notícias e realizações de outrem, diferentes de nós e nos metemos a orar umas pessoas pelas outras, é que vamos crescendo como uma família só em Cristo. Mais adiante, já contando com boa caminhada, quem sabe, tendo de nos contentar em alguns momentos só com pão e água comidos e bebidos em comum, descobrimos que somos apenas “amigos e amigas de Deus”, como dizia o evangelista Lucas em seu `Prólogo do Evangelho. Finalmente, um belo dia achamos que já temos amor suficiente, entre nós e ao povo, para poder discutir nossas doutrinas e teologias. E com surpresa descobrimos que já o fazemos sem animosidade, ao contrário, com muito humor. É que já não são o que mais importa…

14. As chamadas virtudes teologais são nossa transformação antropológica profunda. Deve ser claro para nós que é preciso distinguir com clareza fé e religião. RELIGIÃO, cada povo ou grupo humano tem a sua, nós a inventamos para manifestar que “gostamos de Deus”, são mais manifestação de nós do que de Deus, por isso tem sempre algo de idolatria, imagem divinizada de nós. É certo que dela recebemos a linguagem poética, de gestos e palavras, para poder falar da experiência da fé, já que esta não se mostra por descrição, mas só por alusão. Mas a religião corre o permanente risco de ser a instância de legitimação de nossos valores culturais sacralizados. FÉ é outra coisa, é o compromisso de nos tornarmos “semelhantes a Deus”. Vem sempre junto com o Amor e a Esperança. São três dimensões ou aspectos de única atitude global e radical que nos assimila a Deus. Por isso são chamadas de “teologais”, nos situam em Deus (“Theós”, em grego). São atitudes divinas que transformam nossa humanidade. Não são outra coisa senão a maneira de dizer “Deus em nós”, por isso são dom de Deus mesmo, que nos “diviniza”. Além disso, é preciso ajudar as pessoas a perceberem as três dimensões constitutivas da pessoalidade, tão frequentemente mal compreendidas, quando as relações de comunhão e de justiça são vistas como exteriores e acrescentadas. Não, Liberdade, Comunhão e Justiça são dimensões constitutivas da pessoa: nossa liberdade amadurece mediante relações interpessoais de comunhão e relações de justiça que tocam o que chamamos de relações e estruturas econômicas, sociais, políticas e culturais. Esta é verdade antiga, quando dizemos que o ser humano modifica o meio, ao mesmo tempo em que o meio modifica o ser humano. Como dizia o filósofo espanhol Ortega y Gasset: “Eu sou eu e minha circunstância”. O que parece que simplesmente nos cerca – as relações e as estruturas — na verdade, opera dentro de nós e nos constrói como seres humanos, constrói a nossa liberdade de pessoa..

Aí, sim, a Reforma se consumará como obediência à Palavra de Deus e nos sentiremos um único povo de Deus, para além de nossas diferenças secundárias. Desse modo, cada comunidade se reconhecerá como “católica”, enquanto por pequena que seja se sentirá parte da Igreja universal de Cristo. Cada comunidade se sentirá “totalmente Igreja”, embora cada uma não se possa dizer “toda a Igreja”. Sem dúvida, o Ecumenismo é condição para que cada Igreja seja plenamente Igreja de Cristo, o que teólogos e teólogas indicam como o “plene esse” da Igreja, o que equivale à Igreja em comunhão. O “esse” (o ser) da Igreja se realiza mediante a missão e o ministério. Há outros elementos que propiciam o “bene esse” (o ser bem) da Igreja, como, por exemplo, a correta ministração dos sacramentos e as ordens sagradas e diversas instâncias de organização.  Na verdade, cada Igreja é “católica” na medida em que vivenciacelebra e anuncia o mistério universal da Salvação que Deus, mediante Seu Espírito Santo, vai misteriosamente realizando no mundo inteiro de variadas formas, mediante o amor, sobretudo fora e para além das Igrejas. Assim, se combinariam finalmente “substância católica” (universalidade sacramental) e “princípio protestante” (liberdade particular de cada Igreja local ou de cada tradição) em vista de testemunhar algum aspecto do mistério de Cristo.

Obs: O Autor é Bispo Emérito da Diocese Anglicana do Recife
Igreja Episcopal Anglicana do Brasil – IEAB….

É Teólogo e Biblista
Assessor do CEBI, de lideranças de Comunidades Eclesiais de Base e de Escolas de Fé e Política

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Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor e foi publicado da forma como foi recebido, sem alterações pela equipe do Entrelaços.


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