Dênis Athanázio 15 de novembro de 2019

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Após o enterro de uma das suas melhores amigas, Anabela ficou um bom tempo sozinha olhando para aquela lápide. Ela era uma jovem promissora, mas infelizmente morreu em um acidente de carro voltando de uma festa.

Em meio aos seus devaneios, Anabela parou de pensar em sua amiga e começou a pensar sobre sua própria existência. Pois, afinal, só se consegue pensar sobre morte e vida tendo ainda o sangue correndo pelas veias. Ela refletiu se era uma boa companhia para os outros, se tinha uma vida relevante e interessante.

Anabela olhou para as árvores do cemitério, estas, mesmo com aparência e cores vivas, estavam quase sempre com um aspecto triste, pois moravam em um lugar de morte. Revivendo o passado, ela começou a se lembrar das brigas desnecessárias que entrou no decorrer de sua história, das pessoas que não pretendia magoar e das palavras ditas na hora errada. Lembrou também dos abraços recebidos que confortaram seus dias ruins.

Num instante, sentiu vontade de abraçar um bom número de pessoas para retribuir. Mas estava apenas com sua amiga que não podia mais falar ou ser abraçada. Só ficara a lembrança desenhada em seu rosto choroso de muitas histórias vividas ao lado da amiga.

Nasceu uma pergunta inquietante em sua mente: Por quê incansavelmente tentava agradar a todos renunciando o seu próprio desejo? O que a definia? Ela era tudo o que renunciara ou era tudo o que desejava?

Anabela pensou na complexidade da vida. Se Deus existe e se as pessoas mais próximas a amavam ou se só faziam parte da sua vida por pura conveniência.

A dor de Anabela a fez refletir que outras pessoas sofrem. Algumas vezes precisamos desse sinal para olhar o sofrimento do outro. Ela refletiu sobre seu próprio egoísmo. Pensou que muitas pessoas começavam a ser mais solidárias quando passavam por algum problema grave. Como se antes, nunca houvesse existido sofrimento na Terra. A realidade já estava ali, era ela que não conseguia ver.

O vento desarrumou seu cabelo cacheado. O sol estava se pondo e já era hora de ir embora. Olhando para o túmulo pela última vez, agradeceu a amiga pelo melhor diálogo (sem som) que ela havia proporcionado em todos esses anos de amizade. Anabela nunca havia pensado sobre tanta coisa importante como naquele dia. Ao ficar em pé, seu celular tocou. Sua mãe havia lhe enviado uma mensagem que foi escrita há muito tempo por um rei chamado Salomão:

“Mais vale ir a uma casa em luto do que ir a uma casa em festa, porquanto este é o fim de todo ser humano; e deste modo, os vivos terão uma grande oportunidade para refletir”. Ela guardou o celular no bolso e, estranhamente, foi embora em lágrimas, com uma leve esperança no peito.

Obs: O autor é Psicólogo, palestrante, terapeuta de família casal.
Imagem enviada pelo autor.

Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor e foi publicado da forma como foi recebido, sem alterações pela equipe do Entrelaços.


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