Djanira Silva 15 de novembro de 2019

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Estamos sempre procurando um motivo para fugir de trabalhos e obrigações. Daí a invenção de datas para homenagear feitos e pessoas numa verdadeira farra de feriados e dias santos.

Além do Carnaval, do São João e do Natal, criaram-se algumas datas que, na verdade são a alegria dos comerciantes – dia das mães, dos namorados, dos pais, dos avós.

O dos namorados, no meu entender, começou no paraíso e pode ser festejado todos os dias. O das mães é quase tão movimentado quanto o Natal. O comércio entra em ebulição. Quem tem mãe, comemora emocionado, quem não a tem presenteia a dos outros. Os lojistas fazem qualquer negócio para esvaziar as prateleiras. As mulheres que tanto lutaram por uma igualdade que nunca chegou, recebem como se fosse uma grande coisa – batedeira que vai bater bolo para todos da casa, ferro elétrico para passar a roupa da família inteira, fogão que não pode ser pendurado no pescoço, liquidificador, panela, talheres, etc. etc. Estes eteceteras são adquiridos por pessoas de baixa renda que compram pingüins para o refrigerador, imãs para colar nas portas, flores de plástico e outros itens mais baratos. Quem presenteia estes estrupícios sugere o que? Que a mulher entre na geladeira e tente dirigir como se fosse um carro? Ou saia puxando o ferro elétrico pelo fio como se fosse cachorro de raça? Ou que ligue o liquidificar e espere que ele voe feito um avião? Gente, esta intimidade da mulher com o serviço doméstico não há liberação que dê jeito.

O negócio para o vendedor, é vender, para o comprador é comprar e para quem recebe é trocar a mercadoria no primeiro dia útil.

Já no dia dos pais, a coisa muda. O entusiasmo é menor. Muitos filhos sequer sabem por onde eles andam. As propagandas são bem diferentes. Os encartes dos jornais enchem-se de relógios das melhores marcas, carteiras de couro legítimo, gravatas importadas e de grifes famosas, e, para os mais afortunados, ternos da melhor qualidade, sapatos de cromo alemão. Para alguns filhos não adiantam estas apelações, existe por aí muito pai desaparecido ou de endereço incerto e ignorado.

Qual a leitura que podemos fazer dos presentes oferecidos às mães? Tá na cara –  o machismo deixa bem claro – teu lugar é na cozinha, mulher.

 Bom mesmo é o dia das avós. Muita gente nem sabe que tem uma. Certamente, algumas avós, que também não estão informadas da homenagem, já devem estar no estaleiro à espera de serem despachados para outros mares. Aí, caberá muito bem, uma homenagem póstuma.

Aqui pra nós acho que deveríamos economizar um dia e juntar o dia das avós com o primeiro de abril.

Obs: A autora é poetisa, escritora contista, cronista, ensaísta brasileira.

Faz parte da Academia de Artes e Letras de Pernambuco, Academia de Letras e Artes do Nordeste, Academia Recifense de Letras, Academia de Artes, Letras e Ciências de Olinda, Academia Pesqueirense de Letras e Artes , União Brasileira de Escritores – UBE – Seção Pernambuco
Autora dos livros: Em ponto morto (1980); A magia da serra (1996); Maldição do serviço doméstico e outras maldições (1998); A grande saga audaliana (1998); Olho do girassol (1999); Reescrevendo contos de fadas (2001); Memórias do vento (2003); Pecados de areia (2005); Deixe de ser besta (2006); A morte cega (2009). Saudade presa (2014)
Recebeu vários prêmios, entre os quais:

Prêmio Gervasio Fioravanti, da Academia Pernambucana de Letras, 1979
Prêmio Leda Carvalho, da Academia Pernambucana de Letras, 1981
Menção honrosa da Fundação de Cultura Cidade do Recife, 1990
Prêmio Antônio de Brito Alves da Academia Pernambucana de Letras, 1998 e 1999
Prêmio Vânia Souto de Carvalho da Academia Pernambucana de Letras, 2000
Prêmio Vânia Souto de Carvalho da Academia Pernambucana de Letras, 2010
Prêmio Edmir Domingues da Academia Pernambucana de Letras, 2014

Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor e foi publicado da forma como foi recebido, sem alterações pela equipe do Entrelaços.


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