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Meus queridos amigos

Como nos parecemos, abelha! Percebes a injustiça dos que roubam teu mel, sem notar sequer que fizeste o mesmo roubando o néctar das flores… Que ninguém nos pise! Que ninguém cometa injustiças contra nós. Abrimos o eco…

Difícil para nós é ter olhos para as injustiças que nós cometemos.

E, sobretudo, é assunto novo para nós, é tema ao qual não nos acostumamos ainda, pensar em pecados sociais. Tomemos um exemplo concreto: somaram-se, há algumas semanas, uma tromba d’água e uma cheia do Beberibe. A chuva fez várias casas de Casa Amarela, plantadas nos morros, deslizarem de morro abaixo: os moradores perderam totalmente a casa e vários perderam a vida.

Seguramente, houve mais de 60 mortos.

Várias outras casas estão gravemente ameaçadas de rolarem, também, de ribanceira abaixo. Mocambos numerosos, construídos nos alagados — mocambos de taipa — ficaram só na madeira, quando não foi derrubada toda a casa. O pouco, o quase nada que havia dentro do mocambo — sobretudo o colchão de palha, alguma panelinha de barro, alguma mesa, alguma cadeira — foi tudo carregado pelas águas.

Se houver um apelo pedindo ajuda, a generosidade funciona, de verdade. Mas que ninguém venha dizer que nós todos temos culpa (pecado social) pela migração de famílias, que chegam numerosas do interior — ou porque os donos das terras em que moravam as botaram pra fora, pra vender a terra ou pra criar boi, ou pra modernizar a plantação, ou porque o Governo fez obras — sobretudo grandes barragens — e moradores das terras invadidas pelas águas tiveram que sair.

Que culpa temos nós nestas expulsões de gente do interior? E quando as famílias chegam a cidade, que culpa temos nós desta gente cometer a loucura de construir casa já dentro d’água ou nas encostas de morros que a gente sabe que são terras movediças, que a água arrasta?

Chamem-me do que quiserem e como quiserem. Ensino a doutrina da Igreja dizendo: nós todos temos a obrigação de conhecer melhor o que está acontecendo com as famílias que chegam as cidades expulsas do interior. Nós todos temos a obrigação de saber por que as famílias que chegam expulsas do interior só podem mesmo é construir seus mocambos em alagados ou nas encostas escorregadias de morros. Nós todos temos a obrigação de saber que estamos, no Grande Recife, com várias áreas sub-humanas e 63 comunidades estão ameaçadas de despejo.

Nós todos temos a obrigação de examinar se daria ou não resultado, nos unirmos, sem ódio, sem violência, sem sombra de loucura de empregar armas, para exigir condições humanas para filhos de Deus e nossos irmãos no Cristo. Nós todos temos obrigação de perguntar se é ou não grave pecado social de omissão, ceder ao comodismo de não querer complicação e de não tentar uma ida as causas da situação sub-humana de mais de 1 milhão de filhos de Deus, no Grande Recife. Quarta-feira, 16.7.1980

Obs: *Mais uma das crônicas escritas por Dom Helder Camara para o seu programa de rádio UM OLHAR SOBRE A CIDADE, exibido na rádio Olinda às 06h55 de 01 de abril de 1974 a 22 de abril e 1983. Está crônica está publicada no livro “Meus Queridos Amigos”, que reúne 200, das centenas de crônicas lidas por Dom Helder ao longo dos nove anos de duração do programa. 

 Imagem e texto enviados pelo IDHEC – Instituto Dom Helder Camara
. Ver AUTORIZAÇÃO do IDHEC no item OBRAS LITERÁRIAS.

Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor e foi publicado da forma como foi recebido, sem alterações pela equipe do Entrelaços.


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