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Texto-base da conferência pronunciada na Faculdade Católica de Mossoró na comemoração dos quarenta anos de fundação do CEBI (Centro de Estudos Bíblicos) em 09 de Agosto do corrente ano

Introdução

É inegável que a Igreja Cristã tem assumido na sociedade o papel de religião. É vista como religião, a “religião cristã” ou o “Cristianismo”, e ela mesma tem essa autoconsciência e se comporta como tal.

Ora, não parece correto tratar da questão como se se tratasse de “religião” e “sociedade”. Na verdade, não se acha uma ao lado da outra, pois a religião está na sociedade, faz parte dela, é dela que brota, e é instância suprema de legitimação do sistema ecológico-econômico-sócio-político-cultural. Em qualquer sociedade, é a instância suprema de aprovação e de desaprovação: Deus ou os deuses “aprovam ou desaprovam”, aí está o veredicto final, a instância suprema de legitimação do sistema de vida de um povo. Digamos que a religião é justamente o topo do sistema cultural ou, para dizer de outro modo, do sistema de valores que orientam a vida dos povos. A experiência imediata que temos em nossa pátria é sobretudo a do Cristianismo, cujo epicentro é a Igreja Cristã. É claro que caberiam aqui algumas perguntas: É o Cristianismo uma religião? Ou, pelo menos, é a religião a dimensão mais fundamental do Cristianismo? Qual o lugar da religião no que diz respeito à fé cristã? Qual a função do Cristianismo quando se comporta principalmente como “religião da sociedade” ou como ”religião na sociedade”, onde se praticam outras religiões?

 O ponto de partida de nossa reflexão: um novo horizonte de ser e de agir

Gostaria de partir do novo horizonte que nos foi projetado pelo grande acontecimento do Concílio Vaticano II nos anos 60. Muitos são os documentos conclusivos pelos quais o Concílio se manifesta. Limito-me a lembrar as quatro “Constituições” que são os documentos que carregam as afirmações de maior peso doutrinal: constituições chamadas de “dogmáticas” nas quais está em jogo justamente a consciência da Igreja e mais uma, a “Gaudium et Spes”, sobre a Igreja no mundo de hoje, chamada de “Constituição Pastoral”, ou seja, tem todo o peso que se dá a uma “constituição conciliar”, para orientar os rumos da Igreja, mas, ao mesmo tempo, não se quer ousar impor-lhe caráter “dogmático”, embora, de qualquer forma tenha peso doutrinal.

O primeiro tema enfrentado pelo Concílio foi o da Liturgia, com a Constituição “Sacrossanctum Concilium”. Tema particularmente “religioso” e que poderia ser entendido como simples “assunto interno”. No entanto aí já se jogava o destino do Concílio. A “Liturgia” volta a ser compreendida como “obra do povo e em favor do povo”; como ação radicalmente comunitária “celebrada” pela comunidade inteira e não apenas pelo clero com a “assistência” dos fiéis, como já era costume dizer-se; antes, a comunidade, toda ela, se reconhece como “sacramento”, “sinal e instrumento da união com Deus e da unidade humana”, como ia dizer em seguida a Constituição sobre a Igreja. Ou seja, a Igreja aparece como “sinal e instrumento” da grande utopia internacional, “a revolução mundial”, que é a unidade de todos os povos, o estabelecimento do “Xalôm”, ou seja, do “bem-viver”, da felicidade e da paz (cf. Ef 2). Dessa forma, voltamos à imagem da Liturgia como o Apóstolo São Paulo o expressa em Rm 12, 1-2: “(…) ofereçais vossos corpos como sacrifício vivo, santo e agradável a Deus: este é o vosso culto como deve ser. E não vos amoldeis (conformeis) às estruturas do sistema deste mundo, mas transformai-vos radicalmente pela renovação profunda de vossos sentimentos e pensamentos, a fim de poderdes discernir qual é a vontade de Deus, o que é bom, agradável e perfeito”. Percebemos claramente uma concepção de liturgia que vai muito além do religioso e da “objetivação” ou exteriorização do sagrado fora de nós. Nosso corpo, isto é, nós mesmos(as), nossas relações quotidianas, é o sacrifício; a comunidade da fé é o “sacramento” vivo; a Igreja surge daí como essencialmente comunitária e não como sistema de poder hierárquico legitimado por um sistema religioso. É estranho, por exemplo, que ainda hoje nas igrejas se avise do início da celebração dizendo: “Agora vamos ficar de pé para acolher nosso celebrante”. Ora, após o Vaticano II, a nomenclatura correta seria “presidente da celebração”, pois toda a assembleia é “celebrante” e não nos pomos de pé para homenagear o clero ou os ministros, mas como gesto de integrar-nos à procissão de entrada, a qual conviria acontecer “de mesmo” em datas e ocasiões mais festivas.

Na Constituição “Lumen Gentium”, sobre a Igreja, além de várias outras declarações importantes, como a acima referida  acerca da “sacramentalidade”, o que chama particularmente a atenção é a afirmação da Igreja como Povo de Deus, que constitui todo um capítulo, antes que se fale de “instituição”. É claro que há outros momentos em que se retorna ao tradicional modelo hierárquico, mas a grande novidade é compreender-se como POVO. Afinal um texto conciliar é sempre de algum modo um “acordo ou amplo compromisso” entre diversas correntes na Igreja… mas resta o fato de que uma nova consciência desabrocha e se reencontra com as memórias bíblicas do povo de Deus na história. Muito mais que instituição religiosa ou organização hierárquica, sente-se povo de Deus entre os povos e formada por eles para erguer o estandarte da presença de Deus em meio às vicissitudes da história humana (cf. Rm 1-4; 1Cor 1-4; Ef 2).

Na Constituição sobre a Igreja no Mundo de Hoje, “Gaudium et Spes”, o próprio título já indicava a ruptura com a atitude que prevalecera desde o começo da Era Moderna, de desconfiança, suspeita e mesmo hostilidade. Agora se preferia falar de “alegria e esperança”. A Igreja buscava se reconciliar com o Mundo e assumia um olhar de fé em relação à Criação e à História, sem perder de vista, porém, a trágica e contraditória realidade do pecado humano e da ambiguidade que marcam nossa condição histórica.

Finalmente, na Constituição “Dei Verbum”, sobre a Palavra de Deus ou a divina Revelação, volta-se à Bíblia para reconhecer que é na História de vida dos povos, dos grupos humanos e das pessoas, e através delas, que Deus se aproxima de nós e nos manifesta Seus caminhos de salvação. Nas entrelinhas se revela o grande esforço de dialogar com a Reforma protestante e de dizer as verdades da fé católica com a consciência de que há outras formas de formulá-las que, inclusive, nos podem levar a novos horizontes comuns. Ultrapassa-se, em boa medida, uma mentalidade doutrinarista e se alcança formular a revelação divina como surgindo da história vivida, das experiências humanas e do testemunho de quem tem caminhado com Deus, tendo como foco a experiência de Jesus de Nazaré. Enquanto isso, a Igreja Romana, em outros documentos conciliares e gestos recíprocos, explicitava sua atitude dialogal com o Cristianismo do Oriente depois de mil anos do grande cisma.

Em seguida, na esteira do Concílio, sopraram os novos ventos das Conferências de Medellín e de Puebla. Era o Vaticano II repensado em função de nosso contexto de vida, a Afroameríndia, continente por séculos alienado de si mesmo, para ser em função do que naquele tempo se chamava de Primeiro Mundo, nós éramos o Terceiro Mundo, o das “colônias”, nós, África e grande parte da Ásia e da Oceania. Os anos 70 foram de grande entusiasmo na direção do futuro: países africanos pelejavam para reorganizar sua vida depois da vitória de independência política. Entusiasmo apaixonado, mesmo que em vários países tivéssemos ditaduras e apesar da consciência de que gigantesco era o desafio de nos reconstruir como povos e como Igrejas. Tomava-se consciência da realidade da Igreja como rede mundial de Igrejas locais, porque o Concílio nos despertara para a realidade comunitária (sacramental) e popular (“Povo de Deus”) da Igreja, desenhando-se a nossos olhos nova imagem: a Igreja não mais simplesmente como organização religiosa mundial e centralizada em modelo de monarquia imperial, mas sendo uma rede de comunidades, cada qual delas, por pequena que fosse, cônscia de que é a comunidade que vivencia, anuncia e celebra aquele mistério de salvação em Cristo que Deus está a realizar no mundo inteiro mediante a misteriosa ação de Seu Espírito Santo. É nesse sentido que cada comunidade é “católica”, universal. Por isso, as cartas apostólicas sempre saúdam as comunidades como “Igrejas” de Deus estabelecidas em lugares diversos.

 Novas perspectivas entre nós: retomada da preciosa herança da Ação Católica

Essas novas perspectivas pareciam apontar no sentido de recuperar uma herança recente que já se julgava perdida: a Igreja, no Brasil, ao se renovar (recordemos os Planos de Pastoral de Conjunto elaborados imediatamente após o Concílio) dava sinais de acolher em seu seio e em seus objetivos missionários e pastorais aquelas sementes que tinham brotado nos anos 50 e 60. É preciso destacar o excelente trabalho da Ação Católica Especializada, soprada pelo Espírito de Deus ao padre belga Cardijn: pessoas e grupos leigos assumindo em primeira pessoa a responsabilidade de levar o Evangelho a seus próprios meios sociais. A Ação Católica era, sem dúvida. o braço avançado da Igreja no mundo. No meio camponês, JAC e ACR; no operariado, JOC e ACO; no meio estudantil, JEC e JUC. No meio chamado de “independente”, JIC e ACI. Foi entusiasmante o Movimento de Educação de Base (MEB). Tivemos o despertar do povo camponês, sinalizado pelo surgimento das Ligas Camponesas, lideradas por Francisco Julião e tendo entre seus militantes diversos membros da Assembleia de Deus, e pelo sindicalismo rural até então inexistente, e ainda pela luta em prol das chamadas  Reformas de Base, estas ainda hoje à espera de tornar-se realidade, só para acenar ao peso das estruturas econômicas, sociais e culturais de nosso país. Não se pode deixar de mencionar o famoso Movimento de Natal, do qual surgiu o SAR, pioneiro de grandes iniciativas que transbordaram para outras plagas, iniciativas tanto na área social (importância da alfabetização, da educação de base pelo rádio, e da sindicalização rural) quanto na área eclesial, como, por exemplo, a atuação das freiras, mulheres, portanto, na direção de comunidades eclesiais, em pé de igualdade com os padres para decidir os rumos da ação pastoral diocesana, uma vez que tinham voz e voto nas assembleias do clero. Pelo significado e influência do Movimento de Natal, cai para segundo plano o que parece ter sido a atitude não revelada de ocupar espaços que supostamente estavam sendo tomados pelos “comunistas” e uma eclesiologia fundada sobre o poder hierárquico, característica do Arcebispo da época. Em meio a tudo isso, estava ainda o trabalho do Prof. Paulo Freire, de “conscientização” (termo, aliás, criado por Dom Helder Camara, segundo confissão do próprio Freire) e alfabetização em seus “círculos de cultura”. É bom que se diga que Paulo Freire foi uma daquelas pessoas que melhor compreendem o eixo central do Evangelho: “conscientizar-se” é, na verdadeevangelizar-se, conforme percebemos claramente em 1Cor 1-4.

Não se pode deixar de destacar a figura ímpar de Dom Helder Camara, assistente nacional da Ação Católica, que teve a intuição preciosa, divina, de promover a criação da CNBB – a Conferência dos Bispos, pioneira e inspiração para o Concílio estabelecê-la como instituição para os episcopados no mundo inteiro. A CNBB foi gerada na Ação Católica e estava na esteira dos novos rumos da Igreja, pois punha o episcopado em contato direto  com um laicato qualificado e que reivindicava há tempo sua autonomia enquanto agente missionário em seus meios sociais. Quantos desses leigos e leigas não passaram a assessorar bispos e organismos da CNBB! A Ação Católica era a ponta avançada  da Igreja Católica Romana na sociedade, era o competente braço da Igreja na sociedade de um mundo de novo em vias de paganização. Aliás, a repaganização se operava até no seio mesmo da Igreja cristã, Igreja rebaixada a sistema social, político e cultural (religioso), processo que, infelizmente, se mantém até hoje. É preciso que se diga que a Ação Católica foi um método pedagógico e de formação espiritual de enorme solidez, das maiores experiências da Igreja até hoje: conjunto orgânico de pequenos grupos, verdadeira rede (local, regional, nacional, continental, mundial),   grupos fiéis na tarefa de confrontar a vida com o Evangelho e partir para a ação em vista de despertar o seu meio social diante das grandes questões que a pessoa e a mensagem de Jesus levantam como interpelação à sociedade: Ver, Julgar e Agir; Ação, ReflexãoEstudoRevisão de Vida, pequeno grupo (comunidade) para atuação no meio social Igreja-povo de Deus); fundamentação, planejamento e avaliação da ação… Aí tivemos a nata da Igreja do Brasil,  do laicato masculino e feminino, e do clero como “assistentes” e ajudantes (não “dirigentes”, pois dirigentes eram os próprios leigos e leigas, mesmo que fossem estudantes secundaristas) na formação teológica e em outros campos, e do episcopado, muitos deles nomes de liderança nacional (leigos e leigas como Betinho, Luiz Alberto Gomes de Souza, Marina Bandeira, Frei Betto, Leda Alves, Patrus Ananias; Padres como Luis Sena e Almery Bezerra, Zildo e Zeferino Rocha, Henrique de Lima Vaz; bispos como Helder Camara, Antônio Fragoso, Vicente Távora, Cândido Padim, Marcelo Carvalheira, tantos e tantas outras que foram líderes na sociedade e na Igreja e de comprovada virtude. Betinho foi caso exemplar: no fim da vida, dizem que já não se confessava como cristão ou crente em Deus, no entanto, tinha evidentemente cabeça de profundo teólogo e sobretudo coração de autêntico santo; seu canto de cisne foi a Campanha da Cidadania contra a Fome e pela Vida.

Esses diversos movimentos, iniciativas e processos desaguaram no Movimento da Libertação, o qual deu origem às Comunidades Eclesiais de Base. Analistas autorizados(as) as consideram em grande parte popularização e alargamento das intuições e dos métodos da Ação Católica. Também estaria na Ação Católica a semente do que se tornou a Pastoral e a Teologia da Libertação, enquanto ato segundo de formulação e reflexão sobre as novas práticas eclesiais. A Igreja passava a exercer  uma nova “práxis” da fé, transformadora da pessoa, da comunidade e da sociedade. Sem dúvida estão aí também as sementes de iniciativas tais como o CIMI e a CPT, sem esquecer do MST e do mais recente Movimento de Fé e Política.

A surpresa de inesperado retrocesso: o “retorno à grande disciplina”

Acontece que mudanças históricas não são necessariamente lineares. Com a morte dos papas ligados ao Concílio Vaticano II: João XXIII, Paulo VI, João Paulo I, houve a eleição de João Paulo II. Este último era um eclesiástico formado pelo catolicismo polaco, conhecido por seu perfil conservador, forjado na resistência histórica às ambições russas e ao Comunismo e adepto da Teologia pré-conciliar, consta que votava com a minoria derrotada no Concílio. Angustiava-se com a repaganização da “Europa cristã” e nutria o sonho de restabelecer a “civilização cristã” a partir do velho continente. Tinha perfil autoritário e ao mesmo tempo inspirava grande simpatia popular por seu carisma de teatro e midiático. Foi eleito papa bastante jovem, na casa dos cinquenta e teve a seu lado o cardeal que o sucedeu e que cultivava, também ele, a decepção com o Catolicismo europeu, e mesmo tendo sido teólogo prestigiado, infelizmente, releu o Concílio como brecha pela qual a Igreja se via invadida por influências racionalistas e do relativismo da verdade, com prejuízo das doutrinas julgadas perenes. Tivemos, então, um período sombrio de autoritarismo, de condenação de teólogos, como Leonardo Boff e toda a corrente da Teologia da Libertação e de desconfiança até em relação a certos bispos estimados e influentes, como Dom Paulo Evaristo Arns, Dom Oscar Romero e Dom Pedro Casaldáliga e Dom Helder Camara. De lá pra cá a Igreja tem experimentado um processo de mediocrização do clero e até mesmo do episcopado. Interessava, antes de qualquer outra coisa, “a volta à grande disciplina”, como tão bem caracterizou João Batista Libânio. Importava o alinhamento com a Cúria Romana e  a obediência antes de tudo.

Durante mais de trinta anos tivemos a volta ao estilo pré-conciliar: o centralismo vaticano, com o favorecimento a denúncias e a espionagem no interior da Igreja; exaltação da submissão, confundida com a obediência evangélica, no espírito da bula de Leão X que condenou Lutero: “a obediência que é fonte e raiz de todas as virtudes”. Esquecia-se de que “a fonte e raiz” é o amor. Como critério, não mais a criatividade missionária, mas a Igreja voltada para si mesma em vista de reconquistar a liderança na sociedade estabelecida, mediante a reafirmação da “cultura cristã”. Suspeitava-se de tudo o que, mesmo de longe, parecesse tendência à esquerda. Isto o sofreu na carne o próprio santo Arcebispo Romero, de El Salvador. Na diplomacia era notória a aproximação com o governo Reagan dos USA. Tivemos acentuado retorno ao clericalismo, desconfiança em relação a teólogos e teólogas (que o digam as teólogas dos USA!) com novas propostas e até significativa perda de gosto pelos estudos na camada clerical da Igreja. Avoluma-se uma onda de espiritualismo “carismático” de matriz conservadora, imitação do que há de mais discutível no evangelicalismo popular, onda essa secundada por meios de comunicação confessionais e por um discurso e música que não ajudam o povo a refletir sobre sua fé e até acentuam o lado supersticioso da religiosidade. Espalhou-se difusa desconfiança em relação às Comunidades Eclesiais de Base e à Pastoral da Libertação e a sua Teologia. O que não deixa de ser uma grande perda para o povo cristão, liderado, frequentemente, por pessoas com deficiente formação teológica e com acentuado interesse de manter privilégios clericais e para isso dificultam o surgimento de lideranças leigas autônomas e bem preparadas.

A principal chave de interpretação: o peso da própria história da Igreja Cristã

Gostaria agora de chamar a atenção para algumas significativas etapas da história do Cristianismo que nos ajudam a perceber por que têm sido tão difíceis mudanças profundas e mais rápidas.

Nos evangelhos podemos acompanhar o ministério profético de Jesus que anuncia a proximidade do Reino de Deus. Na verdade, está muito além da religião de Seu tempo, da qual é membro, é verdade, mas se situa na tradição profética. Nessa condição de profeta, exerce crítica radical à religião (cf. Mt 23). O profetismo se define em posição oposta ao poder do Estado e da religião e a denuncia enquanto esta funciona como legitimação do Estado, o qual se pretende instância de poder acima do povo (cf. Jz 8, 22-23; 9, 1-15; 1Sm 8, 1-22; 2Sm 71-17; Dt 17, 14-20; Os 13, 9-11; Jr7; 23; Ez 34).  Sem dúvida, a linguagem de Jesus traz a marca das intensas expectativas apocalípticas de sua época. Nesse horizonte, porém, Sua perspectiva vai bem além de seus contemporâneos quando percebe que as fronteiras do “povo da aliança” têm de se alargar para além dos limites do Judaísmo. Chama e escolhe discípulos e discípulas e assim forma o Seu grupo para assumir Sua mesma missão. Insiste em que a comunidade a Seu redor se converta a um modelo de vida fundado no serviço recíproco, na partilha de bens, no perdão mútuo e na total confiança em Deus compreendido como Pai universal. É, por exemplo, o que vemos, segundo os evangelhos, no sermão das Bem-Aventuranças, na oração do Pai-Nosso e nas conversas durante a última viagem a Jerusalém.

É recebido como verdade óbvia e inabalável que Jesus fundou uma organização própria e a estabeleceu como Sua Igreja, esta na qual estamos até hoje; chega-se a dizer que Jesus fundou uma “instituição hierárquica”. Ora, penso que precisamos clarificar questões como essa. Na verdade, historicamente, Jesus viveu e morreu como um bom e fiel judeu, membro da “assembleia do Senhor” (“Qahal YHWH” ou “Qahal Israel”) e da religião de Seu povo. É verdade que, enquanto profeta, denunciou seus erros e encarnou pessoalmente o julgamento de Deus contra o que julgava digno de censura e até mesmo assumiu comportamentos radicais como invadir o templo de Jerusalém e chamar o rei Herodes de “raposa”. Não podia porém passar por Sua cabeça fundar outra instituição paralela ao Judaísmo, outra “assembleia do Senhor”. O povo formado por Moisés era o povo da aliança. Romper com ele e criar um novo “povo de Deus” teria sido cisma e heresia, teria sido romper com Moisés e toda a tradição da fé. Outra coisa é Seu trabalho profético de chamar Seu povo à conversão, a saber, a “voltar a Deus” (cf. Mc 1, 14-15) para acolher a manifestação de Seu Reino universal. A grande novidade foi Sua compreensão de que o povo da aliança tinha suas fronteiras para além do Judaísmo, pois Deus é Pai universal, daí assumir comportamentos característicos de profetas antigos como Elias e Eliseu na direção de incluir pessoas gentias, chegando mesmo a dizer “nunca vi tanta fé em Israel” (cf. Mc 7; Lc 4,14-8, 55;1Rs 17-2Rs 10). Seu “livro de cabeceira” era a profecia de Isaías, sobretudo caps. 40-66. Sem dúvida, a Igreja surge sobre um fundamento novo que é a fé em Jesus como Messias universal (cf. Mc 8, 27-30; Mt 16, 13-20) e surge, com os discípulos e discípulas, para levar adiante Sua missão profética, para isso é que chamara e escolhera discípulos e discípulas, para darem continuidade a Sua missão de profeta escatológico. Mas, tanto para Jesus como para todo o seu grupo de discipulado, tratava-se de levar adiante a vocação e a tradição de Israel, povo da aliança, agora aberto à universalidade dos povos (cf. Rm 1-2 e Ef 2).

Sobre a fé de discípulos como Simão Pedro (cf. Mc 8, 27-30; Mt 16, 13-20; Jo 1, 40-42; 6, 67-71) e discípulas como Marta e Maria Madalena e outras mulheres (cf. Jo 11, 24-27; 20, 11-18; Lc 8, 1-3) se funda a Igreja em continuidade com a missão de Jesus, mas a forma de organização foi mudando entre o primeiro grupo a Seu redor e as comunidades que se foram organizando em variadas circunstâncias e contextos após Sua partida. Jesus não deixara de herança uma determinada “instituição”. É interessante notar que o grande teólogo francês Yves Congar, por exemplo, um dos grandes assessores do Concílio Vaticano II e grande conhecedor da história das instituições e da tradição teológica cristã, nos adverte de que até um certo momento da história o texto de Mateus 16 era interpretado, dando-se todo o peso à fé de Simão Pedro em nome do grupo, sobre a fé se funda a Igreja; a partir de certo momento na Idade Média começa-se a pôr o acento no poder institucional de Pedro (o chamado “poder das chaves”) supostamente entregue por Jesus; e aí, para que se compreenda  a mudança de interpretação, diz Congar, acontecera um fato que serve de fundamento à virada de perspectiva: o papa tinha se tornado senhor dos chamados Estados Pontifícios, a saber, um soberano temporal sobre a Igreja.

Para levar adiante a missão de Jesus é que foi surgindo progressivamente a Igreja como rede de comunidades autônomas e diversificadas, mas em comunhão entre si. Ele não havia deixado nenhum estatuto a ser cumprido, e morrera muito cedo, sua vida fora interrompida abruptamente. Pelos textos do Novo Testamento podemos ver quão grande era a diversidade: diversidade de horizonte missionário, diversidade de estilos e de organização. Em torno de Tiago e de Pedro se reuniam grupos mais afinados com o Judaísmo e seus costumes religiosos, inclusive o acatamento da importância do Templo de Jerusalém e das práticas de piedade judaicas (circuncisão, tabus alimentares, distância em relação a gentios…); sob a forte liderança do Apóstolo Paulo nascem comunidades entre os gentios em cidades greco-romanas, mantidas sob sua supervisão mediante pessoas de sua “equipe missionária” (cf. Rm 16, 1-16), nas quais são relativizados os costumes da piedade judaica e se declara que “já não há mais judeus nem gregos, todos são um só em Jesus Cristo”, que é o assunto das Epístolas aos Gálatas e aos Coríntios, tendo-se chegado a elaborar uma estratégia missionária de cunho universal para a época (da Judeia à Ásia Menor, à Grécia, a Roma – a capital do Império, até a ponta extrema no Ocidente, Espanha) a ponto de podermos falar de um projeto internacionalista de transformação radical do mundo (cf. Rm 1-2 e 8; Ep. aos Efésios); havia ainda  comunidades que se referiam ao “Discípulo Amado”, quem sabe, na área de influência da grande cidade de Éfeso, na Ásia Menor (Turquia de hoje), com aspecto de liderança comunitária (modelo “congregacional”) e até forte liderança feminina, com acento sobre a guia do Espírito que a todos e todas  dirige, e com acentuada igualdade entre os membros, mediante o amor fraterno… como se vê na Primeira Epístola atribuída a João.

Relativamente em pouco tempo, porém, entre o primeiro e o segundo séculos, já desaparecida a primeira geração de discípulos e discípulas, testemunhas diretas do Mestre, vai havendo um retorno a padrões já superados por Jesus. Aliás, a Igreja nunca consegue seguir os passos de Jesus, Ele esteve e vai estar sempre adiante da Igreja, de nós. Jesus havia reconhecido claramente a igualdade homem-mulher, admitindo mulheres em seu discipulado (algo absolutamente inédito), ferindo padrões patriarcais; a igualdade entre senhores e escravos, assim como ricos e pobres (o Apóstolo Paulo o compreendeu muito bem); pessoas adultas e crianças, como vemos nos evangelhos;  convivência de mesa entre judeus e gentios (cf. 1Cor 8). As comunidades, porém, começam a voltar a padrões antigos: patriarcalismo (cf. 1Cor 14, 34-38: texto provavelmente interpolado; 1Tm 5, 3-16; 1Pd 3, 1-8); diferença entre patrões e escravos (cf. Ef 6, 5-9; 1Tm 6, 1-2; 1Pd 2, 18-25); submissão  às autoridades (1Pd 2, 13-17)… Ao acentuar-se o conflito com o Judaísmo e ao chegarem pessoas gentias às comunidades, essas vão assumindo o papel substitutivo de “religião”, pois particularmente os gentios eram, como diz o Apóstolo, “sob todos os aspectos os mais religiosos de todos os seres humanos” (At 17, 22). Ao abandonarem práticas religiosas pagãs necessitavam de alternativa, ou seja, de algo que lhes correspondesse como “mitos, ritos e sacrifícios”, o que é próprio de uma religião. Ora, as comunidades não tinham culto próprio, Jesus lhes deixara apenas “a ceia comum”, memorial de Sua presença perene, e talvez o Batismo que já era praticado no Judaísmo. Ritos judaicos, como Batismo, Unção de Enfermos, Imposição de Mãos, por exemplo, começaram a ser praticados (cf. Tg 5, 13-16; At 13, 1-3) e  foram sendo assumidos. A bela Carta aos Hebreus deve ser compreendida nesse novo contexto. As comunidades foram cada vez mais adotando costumes e modelos religiosos (cf. 1Cor 11, 2-16; 14, 1-40) de modo que no século II já se vão tornando “religião de uma parte da sociedade” e como tal se organizam: “clero” que antes designara todas as pessoas  “consagradas”, mediante a fé e o batismo, agora é um grupo especial; “leigo” que significava “membro do povo santo” (“laikós”, membro do “laós”) passa a ser definido negativamente como “não clérigo”; vão-se estruturando as “ordens” (degraus) de diácono, presbítero e bispo, este visto sempre mais com perfil “monárquico”. Progressivamente vem a sacralização desses “status” mediante a liturgia e a justificação teológica.

O passo seguinte foi a assimilação das referências culturais da sociedade greco-romana, sobretudo o platonismo e o neoplatonismo, com a acentuação do antropocentrismo que desequilibra a relação ser humano-Natureza; do dualismo espírito-matéria que inferioriza a dimensão material da Criação divina; e o espiritualismo que supervaloriza a dimensão espiritual e inferioriza ou até condena o corpo e a materialidade. O monaquismo nascente deixou-se marcar por essa cultura e o grande Santo Agostinho foi um de seus grandes arautos na Filosofia e na Teologia. Além disso, a moral do estoicismo, considerada moral dos sábios, marcadamente elitista, forneceu significativo material para a formulação da moral e das virtudes cristãs. Evidentemente, a materialidade do mundo e da vida, o corpo, o sexo, a mulher foram caindo sob perspectiva particularmente negativa. O Gnosticismo e outras correntes, finalmente julgadas heréticas, com sua tese da salvação mediante o conhecimento, oferecia fundamento para o elitismo espiritual e algumas tendências mais radicais chegaram mesmo a negar a humanidade de Jesus, reduzindo-a a aparência para possibilitar Sua comunicação conosco.

Finalmente, o processo se completa com a adesão da Igreja ao Império, tornando-se, assim, o braço religioso do Estado e sua ideologia de legitimação: o “Pantocrátor” (“Cristo-Rei”) se fazia representar no mundo pelo imperador, o “bispo leigo” que supervisionava e protegia a Igreja. Na verdade, era a projeção celeste do poder imperial. A Igreja, então, passa de perseguida a perseguidora de gentios e de hereges ou cismáticos. O cume desse processo político, legitimado pelo trabalho cultural que já vinha sendo feito, é atingido na chamada Idade Média, com a queda do Império Romano e a formação do regime da “Cristandade”, quando a Igreja se alia com os povos apelidados de “bárbaros” (os povos germânicos) que tinham invadido a Europa. Foi o último processo profundo e amplo de inculturação, depois do anterior que fora a entrada na sociedade greco-romana. Depois disso, só imposição de modelos já existentes, como foi no caso de nossos povos colonizados. Na Cristandade, a Igreja se torna a mais alta referência política e militar, chegando a expressão “Sancta Ecclesia” a equivaler ao papado, com o restante da Igreja, a começar do ministério, reduzido a simples extensão: “Sancta Ecclesia Magistra et Domina” (Mestra e Senhora) era o papado, frase do papa Gregório VII, século XI, em seu conflito com o imperador e príncipes cristãos.

A Reforma Protestante foi a proclamação do grande protesto que se preparara desde o século XI no Movimento Popular da época. Lembremo-nos de São Francisco, dos Valdenses, dos chamados “espirituais” ou “pobres”, de profetas como Joaquim di Fiore a anunciar a nova era definitiva do Espírito Santo, Frei Dolcino, líder espiritual nas montanhas italianas e tantos homens e mulheres, estas com forte liderança, insuportável para aqueles tempos, inclusive por sua capacidade de curar doenças com a serventia de ervas e danças, por exemplo, o que levava a serem tidas por bruxas e promotoras de rituais alternativos às solenes liturgias oficiais. Queimá-las na fogueira como bruxas era a forma de eliminar lideranças femininas do movimento popular, como se viu depois com Joana d’Arc. Dizem historiadores que os conventos se enchiam de mulheres altamente capacitadas (houve abadessas famosas que governaram até sobre monges homens) que optavam pelo convento para não se submeterem aos homens em casamentos arranjados num sistema claramente corporativo e machista. É desse Movimento Popular que atravessou séculos que surge o Papa Celestino V, um santo eremita, o qual renunciou com menos de um ano de papado. Dizem os historiadores que optou entre ser papa e continuar a ser cristão. A Reforma foi em grande parte herdeira desse Movimento, ao mesmo tempo, social-popular e espiritual. Um de meus maiores professores de Teologia em Roma, Zoltan Alzeghy, austríaco, nos dizia que “Lutero foi um caso da mística e não achou teólogos com capacidade de dialogar com ele, pois, enquanto já falava em linguagem existencial e dialética, os mestres da Teologia ainda estavam presos à linguagem e raciocínio escolásticos. Outro aspecto importante é que Lutero se levantou  justamente no momento em que já não era mais possível conter a onda da “liberdade do indivíduo” em conflito com o corporativismo do sistema feudal. Surgia “o cidadão”, o comerciante que prosperava à margem dos castelos, com as feiras, o intercâmbio possibilitado pelas viagens, a troca de moedas, o ressurgimento das cidades (“burgos”) e o novo fenômeno da “mobilidade social” em conflito com o imobilismo do corporativismo da nobreza feudal.

Com a Reforma, a Igreja entrava na Modernidade, mas não houve diálogo e o papado resistiu com todas as suas forças. A Contra-Reforma ou Reforma Católica durou praticamente até o Concílio Vaticano II. O Papa Bonifácio VIII, considerado o último papa “medieval”, chegou a dizer solenemente que ninguém se salva no mundo se não tem algum vínculo com o romano pontífice; Gregório XVI proibiu a entrada da luz elétrica e do trem nos Estados Pontifícios para que não carregassem para dentro as novidades do Mundo Moderno; Pio IX, o papa do Concílio Vaticano I, interpelado por cardeais que consideravam a infalibilidade doutrina problemática do ponto de vista bíblico e da Tradição da Igreja, respondeu: “A Igreja sou eu, a Tradição sou eu”. Pio IX e Pio X estabelecem a censura sobre livros que católicos não deviam ler, além da censura à produção teológica; e Pio X se admira de que se defenda a igualdade de todos os seres humanos, pois tal reivindicação contraria os desígnios do Criador que fez os seres humanos diferentes, uns em cima e outros em baixo, para a harmonia do conjunto. Até Leão XIII ainda se dizia que os ricos são ricos por providência divina para se salvarem ao fazer benefícios aos pobres… e não se perguntava nem de longe sobre a origem da riqueza. Que diferença de raciocínio de grandes Pais da Igreja que tinham plena consciência de que sua origem é o roubo e a ganância contra os pobres! E não devemos esquecer-nos de que foram Estados europeus como Portugal, Espanha, Inglaterra, França, Bélgica e até mesmo Itália, sem falar do caso particular da Rússia e do Cristianismo oriental, portanto todos países formados no seio da Cristandade, que promoveram a empresa colonial sobre os outros continentes. Avançaram ferozmente sobre a Natureza e contra os povos para devastá-los, implantaram o sistema capitalista e o têm consolidado como imperialismo mundial. Dom Helder lembrava isso como uma das maiores vergonhas do Cristianismo na história. Um grande jornalista, místico, teólogo e político italiano, meu amigo pessoal, Ettore Masina, me dizia certa feita que sérios historiadores chegam a dizer que no século XV-XVI, época das grandes navegações conquistadoras, o campesinato africano estava mais ou menos no mesmo patamar em nível técnico e de bem-estar que o campesinato europeu; a partir daí, a Europa só fez prosperar e a África foi impelida cada vez mais à destruição e opressão.

Grandes desafios: “É preciso começar tudo de novo”

Ao contemplar, mesmo assim em voo de pássaro, essa longa história de dezenove séculos, é fácil compreender a sensação de estarmos frente a poderosa montanha de ferro que é preciso remover e arrastar para seguir em frente e abrir caminho na direção do futuro e, como repetia nos últimos anos de vida o grande teólogo José Comblin, “é preciso começar tudo de novo”. E acrescentava: “Não devemos pensar que o Cristianismo fracassou, na verdade é que ainda está em gradíssima proporção para ser praticado”. Sem dúvida, o primeiro passo tem de ser uma profunda e humilde autocrítica em relação a toda a sua caminhada histórica, como se quis iniciar no Concílio Vaticano II e já se prenunciava nas correntes espirituais e teológicas que o prepararam. Num tempo como agora, de acentuação de personalismos (econômicos, políticos e culturais), com tantos fermentos de desagregação, é preciso recuperar laços comunitários na Igreja e de solidariedade com o Movimento Popular; é imprescindível mergulhar nas fontes bíblicas, sobretudo na corrente profética que para Jesus é o núcleo da mensagem divina, do contrário o Cristianismo se dissolve em grupos religiosos “de paz e amor”, incapazes de fermentar a transformação da sociedade. É urgente voltar a contemplar o ministério de Jesus na esteira do profetismo bíblico, como nos mostram os evangelhos. É imprescindível ter conhecimento e visão crítica da trajetória histórica da Igreja cristã através dos séculos, atenção! visão crítica não quer dizer nem de longe falta de amor, ao contrário, o amor não pode faltar com a verdade. Devemos estudar, como se fazia nos grupos de Ação Católica do passado, para distinguir bem entre correntes e autores de Teologia, pois o que há por aí é em grande parte ideologia legitimadora do “status quo” e “movimentos” que tentam lançar poeira nos olhos para que pensemos que a forma de Igreja que temos foi o que Jesus teria criado há vinte séculos atrás. Temos de superar “a peste do clericalismo”, como nos convida Papa Francisco: só temos clero “clerical” porque temos um laicato marcado pelo clericalismo para mantê-lo como ovelhinhas dóceis e não “gente adulta em Cristo”. Em nossa oração, cada vez mais devemos aprofundar o que quer dizer o Evangelho quando nos compara a fermento, sal e luz para representar nossa relação com a sociedade humana (imagens típicas que marcavam a espiritualidade da Ação Católica). Devemos abraçar decididamente o macroecumenismo como uma dimensão de nosso serviço divino ao mundo criado por Deus; o olhar da Igreja não pode estar voltado para si mesma, mas para o mundo criado por Deus e redimido por Cristo. Temos de fomentar em nós a espiritualidade da Criação, não somos puros espíritos, somos espírito feito corpo, nosso corpo mesmo é que é espiritual, “espírito encarnado”, gostava de dizer o filósofo francês existencialista cristão Gabriel Marcel. É preciso que tomemos a sério a Natureza, fomos feitos/as “do barro da terra” (cf, Gn 1) para “cuidar” do Jardim de Deus (cf. Gn 2) e aprofundar a consciência de que a Natureza é a matriz da vida, por isso temos de voltar a ter uma Economia (“lei da Casa”) assentada na Ecologia (“lógica da Casa”).

Além de tudo isso, e, quem sabe, como base de tudo, distinguir claramente “religião” e “fé”. Religião é natural, os povos criam religião em seu contexto de vida, é o topo, o ponto mais alto no qual acha legitimação a cultura, isto é, os valores que regem a vida social de um povo. Costumo dizer que na religião nós, espontaneamente, manifestamos “gostar de Deus”. Fé é outra coisa, não é algo natural, é compromisso assumido de “assemelhar-se a Deus” (Gn 1, 26-31; 2Cor 3, 12-18) , é comprometer-se com Ele para cuidar de Seu mundo. A fé se exerce em três dimensões: pessoal para nos amadurecer na liberdadecomunitária para qualificar nossas relações tornando o Poder exercício de amor, mediante o serviço recíproco, a partilha dos bens, o perdão mútuo e a confiança total no Pai universal; societária como compromisso transformador da sociedade com suas  relações, estruturas e  valores, é a fé política. Fé não se identifica com crença, nem com oração, nem com culto a Deus, aí estamos na “religião”, cuja utilidade é  emprestar-nos a linguagem poética que nos possibilita  expressar e formular nossa fé. “Religião” está mais do lado da linguagem; “Fé” está mais do lado do conteúdo da experiência mística. Ambas surgem de uma mesma fonte, que é a busca de nossa origem transcendente: “re-ligar-se à Fonte” (Deus como Pai/Mãe). Somos como rio que corre adiante, suspeitamos de ter origem em Fonte transcendente e suspiramos por reencontrá-la. Mas a correnteza não volta atrás. O rio é o originado, o Filho e n’Ele vamos como quem está em Caminho, é a imagem usada por Jesus no Evangelho: seguí-Lo pelo caminho. O Espírito é o Vendaval que nos impulsiona a seguir a correnteza do Filho. Mas religioso, mas não é um livro de religião” (Carlos Cunha, pastor presbiteriano, já falecido), põe-nos em confronto com a totalidade da vida. Por força de nossa imaginação, fazemos o esforço impossível de “descrever” Deus e nossas experiências com Ele, é a religião. Só que o máximo que consegue é falar por “alusões” a partir de nossas próprias experiências humanas tão limitadas. O que julgamos descrições ou “definições” não passam de linguagem alusiva, imaginativa, poética. A própria Bíblia nos dá o exemplo a seguir, pois, na verdade, “é um livro religioso, mas não é um livro de religião” (Carlos Cunha, pastor presbiteriano, já falecido). A religião nos pode fornecer aquela linguagem poética que nos permite intercambiar nossas experiências de fé, pois ambas, religião e fé, em sua origem nos remetem à Fonte. O decisivo, porém, é que essa Fonte brote do quotidiano da Vida, pois daí é que Deus nos fala e nos chama, baste conferir todos os relatos de vocação na Bíblia.

Espiritualidade” é conceito ambivalente. Trata-se do “caminho de vida a própria Bíblia nos dá o exemplo a seguir, pois, na verdade, “é um livro” (Jesus dizia: “Eu sou o caminho”, Jo 14,6; 3,8) impulsionado por algum “espírito” (vendaval, cf. Jo 3, 8). Podemos ser impulsionados/as pelos caminhos dos ídolos, que é a busca de si mesmo/a, ou pelos caminhos de Deus que são os da transcendência da liberdade. No caminho de Deus se revela o Deus abscôndito, não como alguém ou algo exterior, mas como dimensão divina em nós – Deus como dimensão salvífica de abertura ao mundo, às pessoas, aos povos, ao futuro: na Bíblia Deus se revela como O que está aí, Deus conosco, entre nós e em nós (cf. Ex 3, 13-15; Is 7, 14). Não somos “panteístas” (tudo é Deus), mas temos de ser, conforme a Bíblia, “panenteístas” (tudo em Deus), como nos diz o Apóstolo no discurso em Atenas: “Nele vivemos, nos movemos e existimos” (At 17, 28), como em infinito oceano de vida, como nos dizem belamente místicos e místicas ao longo da história. Dizia o poeta Ferreira Goulart, com toda a convicção expressa no olhar: “É evidente que o sentido da vida são as outras pessoas”. Ora, o “sentido da vida” é mais um nome para dizer Deus em nós.

Conclusão

Temos de chegar a ser Igreja com profunda e radical mentalidade bíblica, que desaprenda a ser parte de palácios e palanques de autoridades mundanas e passe a sentir-se parte da sociedade civil, parte do Movimento Popular, do Povo de Deus, por isso “sacramento, sinal e instrumento” de um mundo transformado, transparente, pelo Xalôm (felicidade, bem viver, paz) com “a queda do muro de separação” que nos divide (cf. Ef 2), Igreja samaritana que presta o verdadeiro culto ao levantar caídos/as pelos caminhos (cf. Lc 10, 29-37), não simplesmente “voz de quem não tem voz”, o que já seria um passo, mas voz com as pessoas  antes sem voz… nas praças das cidades, como Jesus manda a seus enviados (cf. Mt 10, 1-16; Lc 10, 1-16). Para indicar-nos o rumo, Deus milagrosamente nos enviou o profeta Papa Francisco, quem sabe, “o maior líder mundial da atualidade”, trabalhemos e oremos para que a Igreja seja fiel a esse privilegiado e extraordinário dom entregue a toda a Igreja cristã!

Obs: O Autor é Bispo Emérito da Diocese Anglicana do Recife
Igreja Episcopal Anglicana do Brasil – IEAB….

É Teólogo e Biblista
Assessor do CEBI, de lideranças de Comunidades Eclesiais de Base e de Escolas de Fé e Política

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