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Seguindo a verdade em amor, cresçamos em tudo n’Aquele que é a Cabeça, Cristo ( Ef 4, 15)

  1. Em diversas partes da Comunhão Anglicana cresce o debate em torno de questões referentes à Ética. Certas dioceses e províncias têm tomado decisões práticas que parecem contrariar a Tradição e o consenso histórico da Igreja. Em certos ambientes o debate chega a um tom de lamentável agressividade reciproca. Percebe-se entre nosso povo um sentimento de interrogação e até de perplexidade. Diante disso, é oportuno parar e refletir, para perceber como nos dirigir, como povo anglicano, com nosso jeito próprio de caminhar e lidar com questões polêmicas, mesmo quando poderia parecer que essas tocam a substância da mensagem bíblica ou a doutrina constante da Tradição eclesial.
  2. A vida cristã, antes de tudo, é escutar e obedecer à Palavra de Deus. A Palavra é sempre Boa-Nova e, ao mesmo tempo, Julgamento. Comunica-nos a alegria de saber que somos objeto do amor misericordioso de Deus. Mas também aviva em nós a consciência de sermos pessoas pecadoras, dignas de condenação. Por isso, a Palavra suscita gratidão e contrição, sentimento de felicidade e de arrependimento, ação de graças e conversão.
  3. A Bíblia é o testemunho histórico privilegiado da Palavra. Sob a iluminação do Espirito Santo, no ambiente comunitário da Igreja, ela nos fala quando sua antiga mensagem se põe em relação com nossa vida, com a realidade viva de cada geração humana. Para isso, nossa Razão tem de estar sempre aberta aos desafios que surgem de cada nova experiência histórica. Assim, vai-se formando a preciosa herança que a Igreja carrega consigo, a longa Tradição de sua caminhada e da qual tem extraído a doutrina que nos guia à salvação, as normas de comportamento que julga de acordo com o “ser em Cristo”, e os princípios de interpretação das Santas Escrituras. Bíblia, TradiçãoRazão e Experiênciasão os quatro pilares da autoridade na Igreja, segundo nossos melhores teólogos desde Richard Hooker.
  4. Ora, vivemos hoje num tempo de profundas mudanças. A Ciência e a Técnica abriram à humanidade um horizonte de novidades bastante radicais. Daí vieram as revoluções, quer no campo econômico, quer no político, com as consequentes mudanças culturais. Não apenas nossos conhecimentos têm crescido, não só temos mais informações sobre amplos campos da realidade, que antes ignorávamos. Não se dá simplesmente o aumento quantitativo de conhecimentos. Trata-se, na verdade, de algo bem mais amplo e mais profundo. Tem havido uma revolução em nossos critérios de conhecimento, no próprio modo de ver a realidade, ou seja,têm mudado os paradigmas, os pontos de referência e de observação da vida. Doutro lado, antigos problemas assumem dimensão assombrosa e ameaçadora: a concentração da riqueza mundial em pouquíssimas mãos, às custas da exploração de países, regiões e pessoas; Ásia, Afroameríndia e África são testemunho vivo da cruel e degradante obra do Imperialismo, poucos ricos possuem fortuna equivalente à renda de muitos países juntos. A guerra continua vergonhosamente como flagelo sobre muitos povos. Cresce o contingente de migrantes e refugiados, gente sem pátria, famílias divididas, destino incerto.
  5. A Igreja Cristã é parte da sociedade. Está também ela situada nesse mesmo contexto de um mundo em crise e em transformação. Inclusive, deve-se dizer, nela também subsiste o “mundo”, no sentido de forças inimigas de Deus, o “mistério da iniquidade” que, como o joio da parábola, cresce ao lado do trigo e o ameaça, e só será definitivamente arrancado no Dia de Cristo. Os desafios da realidade se convertem, assim, em desafios à vida cristã em cada época e se erguem em novas perguntas para a leitura que sempre de novo fazemos da Bíblia. Novas aquisições da Razãoe novas Experiênciasde vida oferecem à Igreja elementos de discernimento e a orientam em sua maneira de perceber a mensagem atual da Revelação de Deus. Provocam-na a reler a Bíblia e a rever a Tradição da fé, em vista de, com humildade, indicar à humanidade caminhos de salvação, isto é, de felicidade.
  6. Uma das marcas do Anglicanismo é o “senso da realidade”, isto é, a abertura para viver a fidelidade ao Evangelho nas condições reais em que se acham, de fato, as pessoas. É isso o que confere a nossa Igreja grande diversidade e a prevalência da açãoe da oração sobre as formulações teóricas, e da pedagogia sobre a lei.Somos uma Igreja muito mais da caminhada, peregrina em busca da Verdade, do que de definições dogmáticas. Escrevia certa vez um Bispo, mais ou menos assim: “Cremos tanto na iluminação do Espírito Santo que toleramos o erro na Igreja, na certeza de que, de qualquer modo, Ele nos vai guiando à Verdade”.
  7. É por ser permanentemente desafiada pelas questões da vida que, ao longo da história, a Igreja revê formulações anteriores e evolui em sua compreensão das afirmações das Escrituras. Houve uma época em que emprestar dinheiro a juro era tido como grave pecado. Por que? Porque não se julgava saudável o lucro que não derivasse do trabalho, mas se aproveitasse da necessidade financeira de outrem: trabalho é que gera dinheiro, dinheiro não gera dinheiro. Imaginemos, quão longe se estava do “Capitalismo financeiro”! Por muito tempo a escravidão parecia legitimada pela Bíblia, sem nem desconfiar que a igualdade dos seres humanos é princípio fundamental da mentalidade bíblica. Apelava-se à Revelação para justificar o “direito divino dos príncipes” de governar os povos. Com argumentos bíblicos defendia-se a tese de que a liberdade democrática era contrária à “ordem” hierárquica estabelecida por Deus na sociedade e na Igreja, tal a influência da mentalidade de poder, mentalidade ainda hoje presente em seus restos na “imaginação” eclesiástica. A poligamia na África, por exemplo, era considerada simplesmente um costume imoral, sem atentar para suas razões econômicas e culturais. A partir de palavras explícitas de Jesus, o divórcio era claramente rejeitado como contrário ao propósito do Criador, a pessoa divorciada que se casasse de novo era vista como adúltera e a Igreja não admitia novo casamento. Tinha-se como doutrina definitivamente estabelecida que as mulheres deviam estar sob o poder social dos homens e, na Igreja, não podiam ter acesso ao ministério do diaconato, do presbiterado e, muito menos, do episcopado. Quem imaginava poder limitar a procriação sem atentar contra as leis bíblicas inscritas na natureza pelo Criador? Quanta coisa, ao longo da história, tem mudado no modo de interpretar a Bíblia, por força do discernimento que a Igreja vem fazendo a partir de novas condições e exigências da vida! Não se trata de acomodar ou facilitar as exigências da Mensagem, mas de perceber como, em cada tempo, manifestar o amor de Deus à humanidade pecadora, limitada e peregrina, ferida pela “dureza de coração”. Há gente que apela para a letra da Bíblia a fim de justificar pontos de vista, pretendendo ignorar a complexidade e a historicidade do processo de interpretação. Há pessoas que agem desse modo e são, por exemplo, divorciadas e casadas de novo, e nem se lembram de que a letra da Bíblia as condenaria, pois quem assim procede, diz, “comete adultério”, ou seja, está em grave pecado de desobediência ao Criador (cf. Mc 10, 5-12). Na verdade, no contexto das discussões de Sua época, Jesus pretendia defender a igualdade e dignidade da mulher.
  8. Encontramo-nos hoje diante de desafios inéditos. Com o aprofundamento e a “globalização” do fenômeno da exclusão social, levanta-se uma questão ética de primeira ordem: é licito deixar simplesmente ao arbítrio e às possibilidades de cada pessoa, grupo ou pais decidir sobre o nível da produção e do consumo, ou a sociedade internacional tem o direito de impor limites? Não se tem de impor limites claros quanto à extensão e ao uso da propriedade privada, tendo em conta. sua essencial função social e a evidente origem coletiva? O estilo de vida, marcado pela sobriedade e austeridade, não tem de ser um valor ético precípuo, moralmente obrigatório, uma vez que está em jogo a própria preservação da vida no planeta? Não tem de ser aprofundado e levar a decisões no plano internacional aquilo que hoje se chama de “Direitos da Natureza”, em outras palavras, direitos da quase totalidade dos seres da Natureza incluindo os seres humanos? Após o Capitalismo mercantil e o industrial, estamos hoje na fase do Capitalismo financeiro. A moeda (dinheiro, renda) já deixou de ser símbolo de bens produzidos ou possuídos, tendo-se tornado “produto” por si mesmo. Hoje é sobretudo dinheiro que gera dinheiro, por isso a grande importância das instituições financeiras e a transferência de trilhões de dólares cada dia, sem que se toque nem de longe em coisas ou produtos, a não ser em computadores. Como julgar eticamente tal situação quando essa está mostrando cada vez mais claramente seu caráter de “economia assassina”, como tem denunciado o Papa Francisco? Como se justifica eticamente uma economia que literalmente “produz” exclusão e morte e mesmo necessita disso para “progredir” e ir adiante? A “lei da Casa” (Eco-nomia) já há tempo se tem revelado como “lei da morte” (“Tanato-nomia”) e grandes pensadores nos alertam sobre o risco de sermos dominados(as) pelas máquinas que estamos a inventar. Renomados analistas chegam a enfatizar que o Capitalismo se difunde como a grande “religião” de nossa época, religião semelhante àquela que, na Antiguidade, cultuava o deus Molok, o Grande Rei que devorava seus piedosos fiéis. Não são hoje os bancos e os centros de compras (“shopping centers”) as grandes catedrais de nossa civilização? Não é aí que cumprimos nossos rituais, assimilamos e recitamos mitose praticamossacrifícios? A responsabilidade pelo meio-ambiente, a problemática ecológica (pensemos, por exemplo. na água, já escassa e poluída, e nos efeitos do chamado “desenvolvimento” sobre o ar que respiramos e o alimento que ingerimos), não são hoje desafios éticos primordiais a serem enfrentados pelas Igrejas cristãs, mediante denúncia profética e prática pedagógica alternativa ao sistema dominante? Como suportar por mais tempo que a agricultura seja mantida envenenada mediante produtos que eliminam pragas enquanto exterminam os insetos, essenciais à polinização do campo? Pensemos na tragédia que nos ameaça com a eliminação progressiva das abelhas, por exemplo!
  9. Em outras palavras, impõe-se nova compreensão de uma ética social e política emdimensão planetáriaque se concretize em normas morais e costumes culturais. Com a revolução da informática e a importância decisiva da informação e da comunicação, particularmente no processo de produção, inclusive com os inumeráveis “bancos de dados” e a civilização de massa, qual é o limite eticamente aceitável de “invasão” da privacidade das pessoas, qual a margem de privacidade a ser preservada inviolável e qual a margem de “invasão” a ser tida como normal, tendo em vista o bem maior e a segurança da coletividade? Essa é uma questão importantíssima para os meios de comunicação social, particularmente quando se trata de tornar públicos certos comportamentos “privados” prejudiciais à sociedade. Além disso, a propaganda e as modernas técnicas de marketing colocam em novos termos a questão da “verdade” na comunicação social e exigem estabelecer com mais clareza a delicada linha divisória entre o “gênero literário” do “marketing de manipulação” e do “marketing de proposição”.
  10. Com as atuais possibilidades da engenharia genética no campo da vida vegetal, é aceitável manipular sementes e mantê-las sob o controle de algumas poucas empresas, com prejuízo da enorme multidão de agricultores(as) tradicionais e das sementes chamadas de “crioulas”? É a famosa discussão a respeito dos alimentos transgênicos, com seus desdobramentos no campo da ética econômica, da ética ecológica e da ética quanto à preservação da saúde humana. Aqui se poderia acrescentar a questão da indústria farmacêutica e suas operações de marketing que vão bem além da qualidade dos medicamentos e tocam, na verdade, a manipulação da opinião pública. Lembremo-nos de que até algum tempo atrás era proibido fazer propaganda de remédios… Além disso, o que seria eticamente aceitável quando se tratasse de manipular embriões humanos? Até onde se pode ir na esfera da fecundação artificial? Qual o limite ético da manipulação de genes e de células-tronco para fins terapêuticos? Até onde é moralmente lícito interferir para a “criação”’ da vida em laboratório? Qual o momento inicial da vida de um ser humano, que o constitui sujeito de direitos? E daí como legislar em relação ao aborto? Em outras palavras, como combinar adequadamente o direito à liberdade da mulher em relação a seu próprio corpo e a responsabilidade públicade gerar uma vida em seu ventre? Seria a gestação um fato meramente privado? Ainda, como distinguir na questão do aborto entre assistência à saúde da mulher e do feto e o aspecto da “criminalização do aborto”; seria ético criminalizaro aborto como “assassinato”? As Igrejas não teriam uma missão pedagógica precípua na formação da consciência em relação a tudo o que envolve gravidez e direitos do nascituro? Basta condenar opções e métodos? Ou o mais fundamental não seria ajudar na formação de consciência no respeito à vida que pudesse levar até ao heroísmo e, ao mesmo tempo, fosse capaz de compreender a limitação e o desespero humano? Criminalizar o aborto tem ajudado nessa direção, ou apenas feito crescer a hipocrisia, a crueldade e os terríveis dramas de consciência? Poderíamos ainda perguntar: Qual o direito que poderia ter alguém de interferir quanto ao momento de sua própria morte (eutanásia)? Que pode significar hoje para a Igreja cristã “defender a vida”? Transplantes de órgãos, por exemplo, devem depender da livre doação do sujeito ou de seus familiares, quando se sabe hoje que podem salvar inúmeras vidas? Até que ponto a sociedade e o Estado teriam o direito de interferir? O que deve prevalecer, o direito de quem necessita de ter salva a própria vida ou o “direito do cadáver”? O que deve preceder, o direito individual à integridade material de morto ou o dever primário de solidariedade humana? Afinal, não somos todos e todas um único sólido enquanto humanidade? A vida não nos chama a romper essa barreira de individualismo? Não devemos esquecer que, a partir do momento da morte, já não se trata propriamente de um “corpo humano”, mas de um “cadáver”, ou seja, do que resta do corpo de uma pessoa.
  11. Sabemos atualmente com mais clareza que toda pessoa tem uma dimensão masculina e outra feminina, quer seja homem, quer mulher. A acentuação de uma das duas dimensões depende simplesmente de “opção” virtuosa ou pecaminosa, ou tem componentes biológicos e psíquicos? Qual a relação da homossexualidade com processos endócrinos (condicionamentos biológicos hormonais e/ou cerebrais) ou com condicionamentos psíquicos e psicossocioculturais? O sexo biológico coincide sempre com o “sexo psicológico”? Como repensar a relação entre sexo e gênero? Será eticamente correto falar de “ideologia de gênero”, ou temos aí um dado de realidade que deve ser cuidadosamente analisado e refletido? São perguntas que se levantam hoje com muita força, particularmente em certos contextos socioculturais e nesta época de viragem da civilização. Doutra parte, muita gente se pergunta se a aceitação da homossexualidade, não mais como “desvio” ético, mas como orientação sexual “natural”, não tem a ver com a “decadência” dos costumes em sociedades permissivas, as quais, por sua prepotência econômico-politica, pretendem impor a todo o mundo seus padrões culturais. Com efeito, não se pode ignorar que o grande debate sobre a questão se dá, justamente, em “países da abundância” material, e, de modo especial, nos Estados Unidos da América do Norte.
  12. Haveria ainda outros pontos importantes a considerar e que têm desafiado a consciência da Igreja recentemente. Entre esses, a humanidade de hoje começa a ter nova compreensão da relação entre o “humano” e a “Natureza”, a partir da percepção de que a liberdade torna o ser humano eminentemente cultural, criador em sociedade, para além do determinismo das estruturas “naturais”, ou biológicas. O Cristianismo não pode identificar-se sem mais com valores ou costumes tradicionais ou costumes moralmente apreciados em determinadas sociedades. Antes de tudo, a vida cristã é uma experiência mística, a experiência de ser aceito(a) e acolhido(a), incondicionalmente, como filho ou filha de Deus, exclusivamente por amor, qualquer que seja nossa condição. É essa experiência da graça, radical e radicalmente renovadora, que nos faz nascer de novo e deverá tomar forma em princípios, valores, normas e práticasconcretas, no contexto de cada sociedade e cultura. E sabemos bem como as sociedades e as culturas são diferentes e mutáveis. Com a Psicologia aprendemos, por exemplo, o quanto são decisivos os primeiros anos de vida da criança, o processo de identificação inconsciente com a figura do pai e da mãe, para a formação de sua personalidade, e particularmente da identidade sexual. Como lidar com a homossexualidade, se essa não for simplesmente uma “opção”, mas uma “condição” que configure a personalidade de alguém? Em relação com isso, poder-se-ia perguntar: que significa, em termos psicológicos, a excessiva preocupação e a agressividade com que se tem discutido o tema, por que tanta gente se sente ameaçada e reage com tanta agressividade contra pessoas homossexuais? Não seria resultado de um sentimento de profunda insegurança camuflada e não aceita, em última análise agressividade contra si mesmo(a) projetada em alvos sentidos como mais frágeis?
  13. Estas e muitas outras questões se propõem hoje em dia à reflexão e ao discernimento da Igreja cristã. São perguntas novas, problemas não sentidos ou não explicitados por gerações anteriores a nós e agora particularmente agudos, nesta viragem dos tempos e na crise de civilização que atravessamos, com a hegemonia literalmente mundial do Capitalismo, por isso chamado de “globalizado“, “apelido” ou subterfúgio para esconder seu verdadeiro nome: Imperialismo em extensão mundial. Não basta, de maneira simplista, querer resolvê-los com respostas prontas, antigas, apelando apenas para a letra da Bíblia e para a Tradição. Nem o povo da Bíblia, nem nossos antepassados se defrontaram com tais desafios. Um dos exemplos disso é a necessidade de analisar cuidadosamente a relação entre homossexualidade e escravidão na Antiguidade, como parece ser o pressuposto na Epístola aos Romanos (cf. Rm 1, 18-2, 29) e em certos textos do Primeiro Testamento. A partir das modernas conquistas da Ciência e da Técnica, e de nova consciência da relação entre o ser humano e a Natureza, surgem questões novas, ou antigos problemas reaparecem em novo horizonte de compreensão.
  14. Como a humanidade em geral, também a Igreja Cristã é urgentemente provocada a escutar e acolher as pressantes interrogações de nosso tempo. Estamos, queiramos ou não, no fogo cruzado de intenso debate, particularmente de cunho ético, tendo em vista o futuro da humanidade. As soluções não se dão acabadas, é preciso refletir, compartilhar experiências diferentes e pontos de vista divergentes, até chegarmos a fazer um maduro discernimento. Discernimento que nos deve levar a distinguir com maior clareza entre o horizonte éticoque é o do amor e normas ou costumes morais vigentes na sociedade. Discernimento que é tarefa coletiva de toda a Igreja, até constituir-se progressivamente o “consensus fidelíum” (consenso dos fiéis). Tarefa de paciência, a exigir de todo o conjunto das Igrejas muita escuta recíproca, mútuo respeito, profunda reflexão, caridade e tolerância, confiante na guia do Espírito Santo. Por isso, temos de cultivar a humildade e insistir na oração, longe de todo sentimento de arrogância e de posse exclusiva da verdade.
  15. No que diz respeito ao tema da homossexualidade, algumas questões nos desafiam, de maneira particular. Umas dizem respeito à realidade: todo grupo humano tem, de fato, uma percentagem, minoritária mas significativa, de pessoas de orientação homossexual. Há homens e mulheres, plenamente membros da Igreja, e também membros do clero, que são homossexuais. Isso vem desde sempre. Hoje, porém, muita gente se pergunta: Quando se trata de outras condições ou de outras configurações concretas do modo de ser das pessoas, por que se pode falar e explicitar? Por que só não se pode revelar e aceitar a homossexualidade, se de fato essas pessoas existem desse modo e convivem conosco, e podem dedicar seus dons a serviço da sociedade e da Igreja? É pergunta para pensar com seriedade e romper com toda a carga de agressividade e hipocrisia. Por que é mais fácil aceitar como “normais” pessoas autoritárias, desonestas, injustas, perversas, do que acolher pessoas homossexuais, muitas das quais de traços de caráter intensamente apreciáveis? Por que a homossexualidade ameaça tanto assim pessoas e instituições? Na verdade, todas as pessoas não somos seres inacabados, limitados, falhos, cada qual com seu “desvio” e pecados? Por que todo esse peso sobre a homossexualidade? É mais uma questão para pensar.
  16. Outra questão é de caráter teológico: até onde vai a inclusividade do coração de Deus? Nossa vocação, que brota da mensagem do Evangelho, é a de “sermos semelhantes a Deus” (cf. Gn 1, 26-38), de acordo com o modelo de Jesus (cf. Fl 2, 1-11). Como Deus, temos de acolher qualquer pessoa em nosso coração, sem distinguir sua condição, pois “Ele não faz accepção de pessoas” (Tg 2, 1 ss). Desse princípio, que brota do centro da fé cristã e hoje para nós é mais claro (pensemos, por exemplo, como foi tratado no passado o fato da escravidão, e que hoje para nós é uma das maiores vergonhas…), desse princípio deriva necessariamente uma pergunta: Até que ponto se deve traduzir a ”inclusividade” na prática de nossas relações? Ora “inclusividade” é princípio basilar da doutrina e da espiritualidade anglicanas. Ainda mais: até que ponto se deve traduzir esse principio nas práticas institucionais e nas estruturas das instituições? Se o princípio não toma corpo nas relações e nas instituições, como se pode demonstrar sua verdade, sua efetividade, como se pode “verificar’ (“fazer verdadeiro”). Não seria simples palavra, ilusória e até hipócrita? Temos de pensar seriamente nisso.
  17. São todas perguntas com as quais se confronta a Igreja A resposta ainda não está dada, nem pode estar a cargo de nenhuma pessoa ou diocese ou província isoladamente, nem mesmo de nenhuma denominação cristã separadamente. É tarefa para o conjunto da Igreja de Cristo como um todo, desafiada pela Verdade do Evangelho no contexto dos novos problemas de nosso tempo. Na Igreja Anglicana, a resposta tem de ser encontrada, não pelo “atalho” de exacerbar a “autonomia” de cada Igreja local, mas pelo “caminho” da “interdependência” e da “comunhão” entre as diversas dioceses e províncias, no âmbito articulado da Comunhão Anglicana mundial, corno tem sido a insistência de nossas lideranças mais autorizadas.
  18. O Conselho Consultivo Anglicano (espécie de parlamento mundial do Anglicanismo) tem recomendado que, em matérias polémicas e que pusessem em risco a unidade da Comunhão, nenhuma diocese ou província tomasse decisões sem amplas consultas e paciente diálogo com toda a Igreja. Em seu Encontro em Gramado (RS), Brasil, há alguns anos atrás, os Arcebispos e Primazes da Comunhão Anglicana, reunidos em torno do Arcebispo de Cantuária, garantiam estar assumindo com seriedade a tarefa a eles confiada pela Conferência de Lambeth (encontro mundial de bispos e bispas anglicanos(as), de monitorar a discussão e o estudo acerca da sexualidade humana. Acrescentavam que o tema tem de ser objeto de reflexão “no contexto da oração e da adoração comunitária”. Finalmente, declaravam que “a questão de ritos públicos de bênção de uniões do mesmo sexo é ainda motivo de controvérsia capaz de provocar divisões. O Arcebispo de Cantuária interpretou bem nosso pensamento quando disse que é através da Liturgia que expressamos o que cremos, e que não existe consenso teológico a respeito de ritos oficiais para uniões do mesmo sexo. Por isso, enquanto corpo, nós como Primazes, não podemos apoiar a autorização de tais ritos. Outra questão é a tarefa de cuidado pastoral que incumbe a qualquer pessoa cristã, de voltar-se com amor e compreensão para quem quer que seja, independentemente de sua orientação sexual. (….) é preciso manter a abertura para responder a situações pessoais que exigem particular cuidado pastoral”. De qualquer forma, por que insistir tanto em estender o “rito” matrimonial a casais homoafetivos? Uma coisa é o rito de casamento (só vigente na Igreja lá pelo século VII d. C.), outra é a realidade antropológica e teológica do casamento. Esta se constitui pelo livre consentimento das pessoas que se unem, não pelo ritual. Por que insistir tanto no “rito”, chegando até a pôr em risco a unidade da Igreja, quando hoje o “rito” de casamento tem estado tão desmoralizado? Grande parte das pessoas “se casam na igreja” exclusivamente por motivos socioculturais, ou no máximo por razões de superstição (“receber a bênção de Deus nesse momento tão importante da vida”, sic?), sem participar de nenhuma comunidade cristã e mesmo sem nenhuma adesão aos valores do Reino de Deus. E a Igreja prossegue tranquilamente a se expor ao ridículo papel de presidir ritos vazios de conteúdo e validade que já não envolvem compromissos profundos e duradouros. É comum hoje escutar: “É, se não der certo, hoje já é mais fácil de resolver, vamos ver, não é?” Sem dúvida dá para suspeitar de que motivos financeiros têm lá sua interferência… Padres e pastores usam da celebração de ritos de casamento para completar seus rendimentos mensais ou/e fortalecer o caixa de suas comunidades. Se o “rito” fosse ministrado gratuitamente, é o caso de perguntar, será que haveria tanta disponibilidade para agendar “ministério” tão duvidoso? Boa parte de ritos matrimoniais já não é contratada em paróquias ou igrejas locais, mas em “empresas de casamentos” ou, como se diz hoje, “cerimoniais”, e os ministros são “contratados” entre aqueles ou aquelas que “pregam bem”, isto é, capazes de falar bonito e emocionar a “plateia” levando-a às lágrimas. E a Igreja assim prossegue com seu papel ridículo, bem perto da simonia (venda de ritos sagrados), de legitimar socialmente com um “rito” uniões que, no Brasil, por exemplo, só chegam a durar em torno de sete anos… Mesmo assim, o “teatro” prossegue com a representação de um juramento feito para a vida toda “na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza, na alegria e na tristeza…” E cada vez mais a Igreja se faz de palco e de cofre… na verdade, só a continuação de uma triste narrativa que já rola por séculos, basta conhecer a História, quando não se atinge o ridículo. De fato, cheguei a ler em jornal o diálogo jocoso de dois jornalistas: “Imagine, rapaz, hoje só quem quer se casar são os padres e os gays. – Ora, logo os gays? Que ideia conservadora!”
  19. Se as questões continuam em debate, e se o debate até se agravou com certas tomadas de posição unilateral por parte da Província Anglicana dos Estados Unidos da América do Norte (ou “Igreja Episcopal”) e mais algumas poucas províncias, inclusive a do Brasil, é sinal de que o consenso da Igreja ainda não se firmou. Há visões e pontos de vista diferentes. O caminho, porém, que corresponde ao ethos característico do Anglicanismo, está suficientemente claro, embora não seja fácil, nem de resultados imediatos. Não dispomos de uma instância central que defina as doutrinas e as normas morais, e tenha a prerrogativa de pôr ponto final às questões disputadas. É a Igreja inteira, como “autoridade dispersa e compartilhada“, que tem de encontrar os rumos da Verdade de Cristo. Desafiada pela Razão, imersa na experiência de vida de nossa época, mas também na experiência da comunidade de fé, e carregando a rica herança da Tradição, a Igreja tem de reler a Bíblia e, sob a guia do Espírito Santo, em comunhão, buscar escutar “o que o Espírito diz ás Igrejas” (Ap 2, 17. 29; 3, 6. 13. 22). Pacientemente, com humildade e oração, e, ao mesmo tempo, com ousadia e total honestidade, tem de buscar o consenso que brote da fé como resposta aos desafios da vida. Sem omissão, mas também sem arrogância nem sentimentos de superioridade, quando não de autoritarismo, pois esses só levam a comportamentos de agressividade, intolerância e escândalo. Caminho difícil, tenso, demorado e sofrido, caminho da compaixão e da comunhão, que exige da comunidade cristã grande maturidade humana e de fé, mas o único correspondente à atitude – fundamental para nós – de inclusividade e tolerância que tem caracterizado a “via media” anglicana, entre Tradição Católica e Reforma Protestante, ou, como dizia Paul Tillich, “substância católica e princípio protestante”.
  20. O “atalho”, embora pareça levar-nos mais depressa, não é o Caminho. Um desafio primordial para nossa Igreja hoje é o de como equilibrar “autonomia” e “interdependência”, identidade própria das Igrejas locais e efetiva, não só formal, comunhão universal. O atual debate em torno da sexualidade humana revela que, para além de divergências ou convergências no campo da ética bíblica, duas questões de fundo são primordiais e inadiáveis: quais os critérios da Hermenêutica (interpretação) bíblica e quais os critérios de nossa Eclesiologia. Como distinguir na Bíblia o que é a perene seiva da Palavra de Deus a irrigar nossa vida em Cristo, e a expressão cultural e histórica, necessariamente limitada, das formulações em que se encarnou a experiência da Palavra em seu tempo. Como equilibrar autonomia e interdependência para preservar a unidade da Igreja, a Comunhão, o valor maior proposto pelo Evangelho, e que está no centro de nosso ministério de reconciliação (cf. 2Cor 5, 18-21). Ao quebrar-se a comunhão, enfraquece-se o testemunho que a Igreja é chamada a dar em meio ao mundo: “Que todos sejam um, como és Tu, ó Pai, em mim e eu em Ti, também sejam em nós, para que o mundo creia que Tu me enviaste!” (Jo 17, 21). Como enfatizava o notável Arcebispo Rowan Williams, durante a Conferência de Lambeth 2008, “os pobres precisam de nossa unidade”. Ou seja, os pobres são o critério último para julgar de nossa caminhada e fidelidade (cf. Mt 25, 31-46).
  21. Que o Espírito Santo nos guie, com ousadia e, ao mesmo tempo, com paciência e humildade, pelos caminhos da Verdade do Evangelho, para que sejamos efetivamente “Igreja Católica para toda a Verdade de Deus e Protestante contra todos os erros humanos”! “Seguindo a verdade em amor, cresçamos em tudo n’Aquele que é a Cabeça, Cristo!”. Amém.

    ………..
    Obs: O Autor é Bispo Emérito da Diocese Anglicana do Recife
    Igreja Episcopal Anglicana do Brasil – IEAB….

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