A fronteira não é apenas um lugar geográfico. É certo que se trata de algo que divide. Mas pensá-la exclusivamente como limite geográfico nos aprisiona em um universo restrito, com o perigo do preconceito e do medo do outro que ainda não conhecemos. É melhor refletir a fronteira como um lugar teológico, ou seja, de encontro com o divino, o qual há um rosto humano que nos pede abertura e conversão. A fronteira, nesta perspectiva, é como o poço de Jacó, onde Jesus nos pede de beber para só assim nutrir a nossa fé. Este é o paradoxo da fronteira: eu posso oferecer algo, mas o dou porque sei que também sou necessitado. Todos nós precisamos uns dos outros.

Se isso é verdade, a encarnação é uma fronteira teofânica. Foi no ventre de uma mulher que Deus pôde tocar o mundo para redimi-lo. Da glória eterna para à história: eis a estrada na qual Deus mesmo se aventurou para nos salvar. Toda a história bíblica culmina nesta novidade: o mundo, como fronteira, acolhe a salvação de um Deus que se faz peregrino para nos visitar e estabelecer comunhão plena com a humanidade.

Infelizmente, hoje há uma tendência a recusar a fronteira. Em vez de ser lugar de solidariedade, tornou-se lugar da violência e do desencontro. Se para Deus a fronteira foi o trampolim para o amor, hoje para alguns é a escola do ódio e da indiferença. Precisamos, contudo, interpretar a fronteira em perspectiva pastoral e humana. Vejamos.

A fronteira é a casa do afeto. Todos nós, um dia, experimentamos uma centelha de afeto. Não nos esqueçamos que a nossa história é feita de etapas fronteiriças. Sair do útero e entrar no mundo foi a nossa primeira experiência de total dependência: foi nesta fronteira que alguém nos alimentou e aqueceu. Foi aqui que as lágrimas do primeiro choro foram enxugadas, com um grande sorriso daqueles que estavam nos esperando. O primeiro dia da escola, mais uma fronteira para descobrir, nos foi presenteado com um abraço dos nossos professores que ainda não nos conheciam, mas nos esperavam. E assim, a nossa vida se desenvolve a partir das várias experiências fronteiriças.

É lá que está meu irmão que precisa de pão e acolhida, por isso a Igreja deve buscar meios para encontrá-lo. Precisa sair e exercer a sua maternidade. Uma das formas mais belas de habitar a fronteira é aprender a ouvir o grito da cidade. Esse grito ecoa na voz daqueles que choram na solidão da noite, são aqueles que são obrigados a negociar o próprio corpo, são os pais que banham de lágrimas os corpos dos filhos assassinados e que clamam por justiça. O grito da cidade constitui a fronteira mais urgente que a comunidade de fé deve enfrentar.

O cardeal esmoleiro do Papa, D. Konrad Krajewski, ouvindo um dos gritos da cidade de Roma, no domingo do Bom Pastor (12.05.19), tomou conhecimento que mais de 400 pessoas, ocupantes de um edifício da cidade, teve a energia cortada por parte das autoridades locais. Sem luz e sem água quente, a situação foi se agravando, sobretudo para as crianças. Tomado de misericórdia, vai ao encontro dessa fronteira de desespero humano. Ele mesmo, o cardeal, retira os lacres do contador e reativa a energia, deixando seu cartão de visita para que depois as autoridades possam procurá-lo para assumir as consequências de seu ato de extrema compaixão.

O amor está na fronteira à medida que nos disponibilizamos a interpretar o grito das nossas cidades como grito divino, ou seja, de Deus que nos pede ajuda. Habitar a fronteira é a verdadeira missão cristã e a mais bela oportunidade de tocar Deus com as nossas mãos, mas só quando eu decido encontrar-me com o próximo.

Obs: O autor é religioso da Congregação da Paixão de Jesus Cristo (Passionistas). Natural de Fagundes, Paraíba. Atualmente reside em Roma, cursando mestrado em Teologia Fundamental na Pontifícia Universidade Gregoriana.   

Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor e foi publicado da forma como foi recebido, sem alterações pela equipe do Entrelaços.


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