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Sonhar, eu acho difícil encontrar alguém que nunca tenha tido essa experiência. O sonho é tão comum que muitas vezes sequer nos lembramos do que sonhamos quando acordamos, e aí, de repente, vem à tona aquela lembrança sobre algum sonho que tivemos. Na verdade o modo como nosso cérebro funciona ainda é um campo enorme de estudo, principalmente o comportamento dele quando estamos dormindo. Mas, como um Químico por formação, de repente se interessa por um assunto que chega até a ser folclórico como o sonho? Pois é, o problema é que muita gente não faz ideia de que sonho e ciência tem tudo a ver, inclusive quando a ciência em questão é a Química.

Falar ou escrever sobre temas que não são comuns em sua área de formação e atuação é sempre um desafio enorme. No meu caso, o desafio chegou a mim através de extensas conversas com minha prima Conceição Soares Beltrão, Psicóloga e Analista Junguiana atuante. As informações que me chegavam foram se acumulando até que um dia eu fui contaminado pelo “vírus” da curiosidade e pela “bactéria” da investigação. Para combatê-los fui atrás de mais informações, até que uma pergunta intrigante veio a mim: o que é que a Alquimia tem a ver com o físico Wolfgang Pauli? Você já deve estar se perguntando onde é que o sonho entra nessa nossa conversa. Tenha só um pouco de paciência, explico já.

Primeiro preciso explicitar o que é Alquimia e quem foi Wolfgang Pauli. Não podemos considerar a Alquimia como uma ciência, mas de alguma forma, por conta das práticas relacionadas com a transformação de materiais, ela é estudada como uma precursora da Química moderna. Existem registros que demonstram que a Alquimia era praticada na antiguidade por povos como os egípcios e os chineses, bem antes de Cristo. O austríaco Wolfgang Ernst Pauli foi um dos principais físicos do século XX tendo participado ativamente do surgimento da revolucionária Teoria Quântica da matéria, ganhou o Prêmio Nobel de Física de 1945 por suas contribuições. Pauli era muitas vezes chamado pelos seus colegas de “a consciência da Física”.

Agora vou explicar como o sonho aparece. Quem encontrou a intrigante conexão entre Pauli e a Alquimia foi o Psiquiatra e Psicoterapeuta suíço Carl Gustav Jung, que nomeou o conjunto de suas descobertas de “Psicologia Analítica”. Jung fez uso de uma coisa bastante comum no nosso dia a dia: o sonho. A análise feita por Jung de conteúdo onírico descrito por Pauli foi relatada no livro “PSICOLOGIA E ALQUIMIA” publicado pela primeira vez em 1944. Além de ter ficado extremamente curioso sobre o assunto, me fiz logo a seguinte pergunta: que conteúdo relativo à Alquimia estava nos sonhos do Pauli? Antes de obter mais informações a respeito do assunto, resolvi buscar nos livros sobre a História da Química alguns casos em que o sonho teria sido parte determinante em alguma descoberta. Não foi preciso muito esforço para que logo eu encontrasse três casos interessantes que relato adiante, com certeza existem muito mais.

O primeiro caso que encontrei aconteceu no início dos anos 1800. Nessa época a fórmula estrutural das substâncias orgânicas ainda era objeto de muitas controvérsias porque não era claro a forma como o átomo de carbono se ligava aos outros átomos para formar uma variedade absurda de moléculas. Uma substância orgânica bastante estudada era o benzeno, solvente orgânico muito utilizado no laboratório químico. A fórmula do benzeno é C6H6, ou seja, uma molécula de benzeno tem 6 átomos de carbono e seis átomos de hidrogênio. O comportamento químico do benzeno era bem diferente daquele esperado pelos químicos na época. O químico alemão Friedrich August Kekulé publicou um trabalho em 1865 descrevendo corretamente a estrutura do benzeno, onde seis átomos de carbono se unem uns aos outros formando um hexágono regular, tremenda novidade para a época.

De acordo com o próprio Kekulé, a inspiração na elucidação da estrutura do benzeno lhe apareceu em um sonho, descrito por ele dessa forma: “eu estava sentado, escrevendo em meu livro, mas o trabalho não progredia, meus pensamentos estavam em outro lugar. Eu virei a minha cadeira para o fogo e cochilei. Novamente os átomos estavam saltando diante dos meus olhos. Desta vez, os grupos menores ficaram modestamente na parte de trás. Meu olho mental, aguçado por repetidas visões desse tipo, podia agora distinguir estruturas maiores, de conformação multiforme: longas fileiras, às vezes encaixadas de forma mais compacta; todas se torcendo e girando em movimento serpenteante. Mas olhe! O que foi aquilo? Uma das serpentes agarrou a sua própria cauda e a forma rodopiou zombeteiramente diante de meus olhos. Como por um clarão de luz, acordei e também desta vez passei o resto da noite elaborando as consequências da hipótese”. O relato de Kekulé é impressionante e mostra a origem onírica da descoberta de Kekulé.

O segundo caso que encontrei: na segunda metade do século 19 muitos elementos químicos já eram conhecidos e buscava-se uma forma de listá-los de forma organizada, qual seria a lógica para essa organização? Um dos químicos da época que se empenhava nesse problema era o russo Dmitri Medeleiev. No dia 17 de fevereiro de 1869 Mendeleiev teve um sonho revelador. Em seu diário Mendeleiev escreveu: “Vi num sonho uma tabela em que todos os elementos se encaixavam como requerido. Ao despertar, escrevi-a imediatamente numa folha de papel”. Na verdade, o sonho revelara à Mendeleiev uma tabela em que os elementos químicos eram listados de acordo com a sua massa atômica, dessa forma a sequência dos elementos mostrava que aqueles com propriedades semelhantes seguiam uma determinada periodicidade nessa organização, daí a tabela se chamar “Tabela Periódica dos Elementos Químicos”.

Por fim, o terceiro caso que encontrei em que o sonho teve papel fundamental  aconteceu já no fim do século XIX. Também foi um caso relacionado com a elucidação da estrutura molecular de um composto, nesse caso, uma substância que continha cobalto. A substância em questão apresentava na sua composição um átomo de cobalto e vários de nitrogênio, além de outros átomos que completavam sua composição. A questão era como seria o ordenamento dos átomos na formação da estrutura da molécula. Pensava-se que os átomos de nitrogênio se ligassem uns aos outros formando cadeias, o átomo de carbono também se comporta assim.

A elucidação da estrutura desse composto de cobalto foi detalhada pelo químico Alfred Werner, nascido em 12 de dezembro de 1866 em uma região pertencente à França na época. Werner descreveu a estrutura desse composto de cobalto em um trabalho publicado em 1893, tinha ele portanto 27 anos. O trabalho de Werner chamava à atenção pela sua extensão, tinha 63 páginas e nele o átomo de cobalto ocuparia a região central, ligando-se aos átomos de nitrogênio de forma coordenada.

O espantoso nessa história é que a forma como o átomo de cobalto se ligaria aos átomos de nitrogênio na estrutura proposta por Werner não era comum até então e lhe foi revelada através de um sonho. Durante uma noite, após um sonho, Werner acordou na madrugada e começou a escrever sobre o que lembrava do sonho, escreveu durante cerca de 18 horas seguidas descrevendo essa forma estrutural inovadora em que o átomo de cobalto ocupava a posição central se ligando de forma coordenada aos átomos de nitrogênio. Alfred Werner ganhou o Prêmio Nobel de Química de 1913.

 Com esses três casos descritos acima pude verificar que o conhecimento químico não surge apenas nos laboratórios mas também, de vez em quando, diretamente do  inconsciente, vindo à tona através de sonhos. Esses acontecimentos mostram que o inconsciente é a fonte de todo o conhecimento, e que nele tudo se encontra, nele tudo está dado, ele contém as sementes do vir a ser. A Psicoterapeuta alemã Marie-Louise von Franz no livro “Número e Tempo” faz extensos relatos de cientistas que confessam não terem sido eles a elaborar seus teoremas, fórmulas ou descobertas, mas momentos de ‘iluminação’, insight repentino.

Continuo lutando contra o “vírus” da curiosidade e a “bactéria” da investigação, agora, tentando entender o simbolismo alquímico que foi identificado por Jung nos relatos oníricos do físico Wolfgang Pauli. Quem sabe o estudo detalhado desse material possa também revelar alguma relação da Alquimia com as ideias originais de Pauli que resultaram em grandes avanços também para a física.

Obs: O autor é Professor de Físico-Química do Departamento de Química – UFRPE
e Coodenador do Projeto de Extensão Universitária
Oficina da Ciência (https://www.facebook.com/oficinadaciencia/?fref=ts).

Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor e foi publicado da forma como foi recebido, sem alterações pela equipe do Entrelaços.


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