Sob muitas métricas poderíamos considerar nosso país como uma “proposta” que ainda não deu certo. Mas necessário se faz contextualizar nossa realidade dentro do processo histórico. Defendo que o projeto de construção da nação brasileira (um dos últimos entre os Estados Nacionais contemporâneos) só começou (stricto sensu) com a chegada da família real portuguesa (junto com sua corte). Antes disso éramos proibidos de tentar construir a parte que nos cabia no sonho do Novo Mundo. Enquanto nos EUA os imigrantes aportavam com a crença da chegada à terra prometida, aqui era o lugar de rapinagem, destruição, escravidão, exploração vil, assassinatos, cobiça desmedida e patrimonialismo. Qualquer um que tentasse tornar realidade a aspiração de uma sociedade mais justa, fraterna, livre e feliz era preso, torturado e morto (ou exilado). A Austrália foi construída por presidiários britânicos que, ao chegarem por lá, queriam estabelecer uma sociedade melhor para si e para os seus. Aqui, todas as tentativas nesta linha sofriam a mais dura represália do governo português e de seus mandantes. Na educação, nosso incomensurável atraso pode ser sintetizado no desonroso título de “último país das Américas a ter uma Universidade”. Apesar disso, pouco a pouco, com altos e baixos, sob vários vieses ideológicos, matizes raciais e raízes culturais, nos últimos 200 anos (diminuto “tempo histórico”), num percurso repleto de contradições e vícios, fomos edificando um país único e um povo novo. E hoje, ao olhar em volta, vejo sinais que uma nova ética vai se consolidar, onde o Bem Comum será o principal valor e a Justiça (a serviço do Bem Comum) a principal virtude. Noto, num país ainda conservador e autoritário, que o espírito empreendedor, a criatividade, a inovação e a inteligência coletiva começam a tomar conta da sociedade. Observo, na Academia, que o criticismo, o dialógico e a autonomia intelectual (fundamentais para a criação do novo e do “fazer bem, diferente e melhor”) ganham força, “enterrando” a cultura coimbriana e salamantina da “erudição pela erudição” e da educação informativa e acrítica. Os ideais republicanos de igualdade, fraternidade e liberdade e independência dos Poderes tomam corpo (mesmo que tardiamente). O respeito pelo que é público (principalmente pelo dinheiro de todos nós) e pela democracia começa a ficar inegociável. As Instituições não só funcionam como conseguem suportar uma forte pressão pelo fim do estado democrático de direito e das liberdades democráticas. Em verdade, o Poder Judiciário (mesmo com alguns exageros, contradições e equívocos) vive um momento de “vanguarda da sociedade” e nos brinda com a prática de que a Lei (e a Constituição) realmente vale para todos. A visão de que “o que você faz (ou deixa de fazer) conta e pode fazer a diferença” e a de que “somos responsáveis por tudo e por todos” está se tornando paradigmática entre os jovens e a cidadania ativa está contagiando a todos. Se olho só para o Nordeste fico ainda mais esperançoso. A equação “potencial de energia solar + eólica + imensidão de terras potencialmente produtivas + água chegando)” só pode ser igual a “otimista com o futuro”. Pernambuco então…! A revolução na educação que ocorreu com o Programa Ganhe o Mundo (que apesar da conjuntura vai continuar a existir), que enviou cerca de 5000 dos melhores alunos das escolas públicas para estudarem um semestre letivo no exterior (em apenas 4 anos) e impactou fortemente toda sociedade (escolas, projetos didático-pedagógicos, famílias e comunidades), é o melhor exemplo de uma sociedade em ebulição, mutante, plena de potenciais e expectativas de um futuro melhor. Enfim, não tenho dúvida que existe luz no final do túnel “pós-eduardocunha”. Estou convencido que sairemos desta crise melhores. Como povo e como nação.

Publicado no jornal Diário de Pernambuco, 28-12-2015, página a

Obs: O autor, Prof. Dr. Aurélio Molina, Ph.D pela University of Leeds (Inglaterra) é membro das Academias Pernambucanas de Ciências e de Medicina, professor da UPE, Coordenador do Programa Ganhe o Mundo.

Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor e foi publicado da forma como foi recebido, sem alterações pela equipe do Entrelaços.


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