Gostaria de delinear aqui, de forma muito abreviada, alguns horizontes que condicionam nossa visão da religião. Não enxergar esses horizontes é correr o perigo de cometer erros graves de interpretação em termos de análise da religião. São cinco pontos. 1. Religião não é conhecimento. Para nossos antepassados, religião significava conhecimento. No largo período entre os anos 2000 aC e 1000 dC (entre o antigo império egípcio e a expansão do islã), em todo o âmbito da África do norte, do oriente médio e da Europa do sul, o culto a Deus era tido como ‘ciência’. Tudo era interpretado por meio de imagens religiosas como caos e cosmos, criação e fim de mundo, céu e inferno, bem e mal, virtude e pecado, salvação e condenação, deus e satanás, vida e morte. Só a partir do ano mil da era cristã a compreensão da religião e dos textos religiosos começa a mudar. Há uma lenta e progressiva secularização da vida e do conhecimento que desemboca nos tempos em que vivemos. 2. Religião não é representação Quando se fala em religião, a primeira coisa que costuma vir à mente é sua representação. Pensamos em religião protestante, islâmica, espírita, católica, hindu, budista, embora muitos já percebam que religião não é o mesmo que doutrina, moral ou dogma. Instâncias que organizam a vida religiosa não devem ser confundidas com a religião em si. O dogma , por exemplo, expressa o consenso estabelecido entre participantes de uma determinada assembléia em torno de um ponto controvertido. Pertence, portanto, ao registro da representação política. O mesmo se diga da celebração religiosa. Em si, a celebração não é um ato religioso, se por religião se entende aquilo que passa na intimidade da pessoa (fascínio, emoção, sonho, encanto). Há como celebrar cerimônias religiosas com dignidade, sem que as pessoas envolvidas estejam necessariamente imbuídas de sentimentos religiosos. 3. Religião tem a ver com sistema neural. A religião pertence ao ser íntimo da pessoa. Jorra da mesma fonte que produz música, poesia e arte. Há neurocientistas que afirmam que a própria constituição de nosso corpo explica as persistentes tendências religiosas que observamos ao longo da história da humanidade. A religião seria a expressão de uma capacidade específica do ser humano, que consistiria na capacidade de ‘sentir’ a presença de algo que não se manifesta diretamente aos cinco sentidos, mas – de uma ou outra forma – se ‘revela’. Algo como pressentir, no tremular do capim, a possível presença de uma cobra. A cobra se ‘revela’ por sinais quase imperceptíveis. Da mesma forma, Deus se nos ‘revela’ e nos fornece uma explicação plausível para o emaranhado de eventos que defrontamos na vida. Em suma, a capacidade de descobrir alguma ‘revelação’ nas coisas ou nos acontecimentos e de costurar esses eventos ‘revelados’ em enredo coeso constituiria o que chamamos religião. Vale a pena acompanhar o que um neurocientista como Antônio Damásio tem a dizer sobre esse assunto, especialmente quando escreve sobre o ‘cérebro sensível’ (the feeling brain) e que ‘o cérebro cria o homem’. 4. Religião não serve para explicar as coisas. O discurso religioso não profere afirmações de cunho cognitivo nem emite opiniões. Não diz a verdade nem erra, se por verdade e erro entendemos coisas relacionadas à cognição. Só erra (ou acerta) quem emite opinião . O discurso religioso não tem opinião a defender, pois não descreve ocorrências nem define objetos. Sua função consiste em expressar sentimentos, dinamizar ações, oferecer segurança, ativar esperança, abrir horizontes. No momento em que se quer saber qual o conteúdo cognitivo de determinadas terminologias religiosas (como encarnação, aparição, ressurreição, ascensão, céu, inferno, milagre, salvação), elas perdem seu sentido. Pois a religião não serve para explicar as coisas, ela nos transporta para além do universo da cognição e nos introduz no universo propriamente humano da ação e revelação (no sentido acima indicado), do desejo, da esperança, do compromisso. A religião não é nem indicativa, nem afirmativa, nem informativa. Quando alguém diz ‘tenho fé em Deus’, ele não está se referindo a uma ocorrência, mas a uma ‘revelação’. Ele está em busca de um sentido para a vida. Por isso mesmo, quem diz ‘não penso em Deus’, não diz o contrário de quem diz: ‘tenho fé em Deus’. Apenas sente as coisas de maneira diferente. Quem diz ‘depois de minha morte, serei julgado por Deus’ não contradiz aquele que diz ‘eu não penso no último juízo’. Pois aqui não se trata de opiniões, mas de sentimentos. É por isso que religião não se discute. Como não respeitar quem beija a foto de um ser querido, manda celebrar uma missa por seu pai falecido ou pede a absolvição dos pecados antes de morrer? Ateísmo e religião não são teorias rivais, são sentimentos diferentes. 5. Finalmente: não conhecemos a Deus. Somos herdeiros de uma longa tradição bíblica, o que nos pode dar a impressão que ‘conhecemos a Deus’. Mas, já no século XVII, o filósofo Spinoza (1633-1677) nos mostrou os perigos dessa pretensão. Ele lembra que, embora todos os teólogos digam que Deus é mistério e que esse mistério não é desvendado pela bíblia, houve sempre tentativas para descobrir vestígios de Deus nos relatos bíblicos. Finalmente chegou-se à conclusão que esses pretensos relatos são na realidade obras literárias, com tudo que isso implica. Aos poucos, por meio de estudos pormenorizados, os pretensos relatos bíblicos, do livro êxodo, por exemplo, vão sendo despojados de sua base histórica. Até hoje nenhum documento ou monumento do Egito antigo encontrado por arqueólogos ou filólogos atesta a presença de hebreus em suas terras. Não foi encontrada em torno de Jericó a muralha mencionada no livro de Josué, apesar de exaustivas escavações. A descrição topográfica de Jerusalém feita nos textos bíblicos referentes aos reinados de Davi e Salomão não encontra nenhuma verificação arqueológica. Não se consegue descobrir em torno do monte Sinai nenhum resto (em cerâmica, por exemplo) da passagem de um importante agrupamento de pessoas por aqueles desertos, apesar do impressionante relato bíblico da permanência dos hebreus com Moisés ao pé do monte. Os caminhos da arqueologia e da bíblia levam para horizontes diferentes. Arqueologia é ciência e bíblia é literatura. Spinoza tira a conclusão que se impõe: não é sensato falar em ‘verdade’ quando se fala em Deus, pois este só se aproxima de nós em forma de imagens e comparações. O caminho para Deus passa por imaginações e afetos . Nós, seres humanos, não temos capacidade de conhecer a Deus, somos pequenos demais. Andando na superfície de um minúsculo planeta que gira em torno de uma estrela de quinta categoria, nem conseguimos tomar consciência da imensidão em que vivemos mergulhados ao longo de nossas breves vidas. Apesar de sua curiosidade incansável, de sua viva inteligência e dos enormes progressos intelectuais e materiais, o homem não avançou praticamente nada, em termos da compreensão de Deus, desde os tempos em que foi redigida a epopéia de Gilgamesh (2000 anos aC). Ele só consegue captar algo sobre Deus por meio de uma imaginação precária e incerta . Infelizmente, a filosofia religiosa de Spinoza ainda é pouco conhecida e insuficientemente valorizada entre nós.

Obs: O autor : “Nasci em Bruges, na Bélgica, no ano de 1930. Estudei línguas clássicas na universidade de Lovaina e teologia em preparação ao sacerdócio católico, entre 1951 e 1955. Em 1958 viajei ao Brasil (João Pessoa). Fui professor catedrático em história da igreja, sucessivamente nos institutos de teologia de João Pessoa (1958-1964), Recife (1964-1982), e Fortaleza (1982- 1991). Sou membro fundador da Comissão de Estudos da História da Igreja na América Latina (CEHILA), fui coordenador para o Brasil entre 1973 e 1978, responsável pelo projeto de edições populares entre 1978 e 1992, e entre 1993 e 2002 responsável pelo projeto “História do Cristianismo”. Entre 1994 e 1997 fui pesquisador visitante no mestrado de história da universidade federal da Bahia. Durante esses anos todos administrei cursos e proferi conferências em torno de temas como: história do cristianismo; história da igreja na América Latina e no Brasil; religião do povo. Atualmente estou estudando a formação do cristianismo nas suas origens, especificamente os dois primeiros séculos.”

Explicação do painel(foto)

O autor é o primeiro à direita.

“O painel do fundo, é um quadro desenhado pela Irmã Adélia Carvalho, salesiana (Filha de Maria Auxiliadora) de Recife e ‘artista da caminhada’, que tem muitos trabalhos na linha de uma Igreja libertadora e colabora em diversos programas de conscientização pela arte.
O tema do quadro pode ser descrito assim: ‘a proposta cristã na confusão do mundo em que vivemos’.“



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