Homilia no dia da ÚLTIMA VIAGEM da minha irmã

Acabamos de entregar o corpo mortal,
plantando a semente no campo santo.
O grão amadurecido será recolhido por Deus.
Isaías diz em 25, 6-9
O véu será tirado, a coberta será removida.
A morte será vencida para sempre,
e enxugadas serão as lágrimas dos olhos.
E João anuncia no evangelho em 6, 37-40:
Todos os que o Pai me dá, virão a mim;
ninguém se perderá, mas terá vida eterna.
O que sobrou foi só o invólucro, a palha.
A morte é quem bate e separa.
E o trigo vai para o celeiro celeste.
A alegria ressurge, e o júbilo vai cantar.

O véu, a coberta…
A vida de Maria estava encoberta.
Viveu na terra do esquecimento.
Chave perdida…endereço esquecido…
Onde está o meu lugar?
O lado de cá está fechado,
o lado de lá ainda não se abre.
Onde vou ficar?
Maria, como sofreste!

O jeito era buscar ajuda competente
de quem lida com a vida limitada.
O endereço é a Clínica do Blomberg
nome bonito: “Monte das flores”.
Enfermeiras e médicos: Como velastes!

E o tempo que passa
nos causa má consciência.
Corremos atrás dos deveres
mas tem uma que fica para trás
na terra do silêncio.

Eu mesmo era quem estava mais longe.
Somente a oração te visitava.
Quando avisei minhas férias,
tu demonstravas: Eu vou esperar!
E ao chegar tive a surpresa:
Tu me reconheceste: ADOLFO, QUE BOM.”
Por um momento estava tirada
a coberta que encobria a memória;
o véu foi tirado neste monte,
a saber no MONTES DAS FLORES.

Pouco tempo depois saíste
da nuvem para a plena consciência,
para a VERDADE que nós ignoramos.
Alí te acolhem os teus que já estão na luz.
Papai e Mamãe correm ao teu encontro
com ternura que nós não imaginamos.
Saúdam-te os irmãos que já foram para lá
com pressa de chamar-te para o coro
que canta sem fim o louvor do Pai.
Nada mais de balbuciar,
tua língua está solta para confessar:
Eis o Senhor meu Deus
em quem pus a minha confiança.

Não choramos por causa de ti.
Mas choramos por nossa causa.
Nós é que estamos no esquecimento.
Na obsessão pelo Bem estar.
Confessamos o erro e queremos sair.
Não dá para correr em dias de neblina.

Querida irmã, em criança te admirei.
Eu com sete anos, tu com quinze.
Na profissão do pai éramos ajudantes de valor.
Entregar vacas vendidas era nosso dever.
Pois não havia gasolina para o carro.
Tu no cabresto com gado rebelde,
e eu atrás, o tangedor, com cipó.
Longo era o caminho para as pernas curtas,
e eu perguntava: Ainda falta muito?

Boa pergunta: Ainda é longe?
Tua chegaste. Mais nada para entregar.
Eu continuo na estrada;
no cabresto com problemas rebeldes.
Às vezes o animal obstinado sou eu.
Quem vai atrás? Quem é o tangedor?
Quem me faz andar é meu Senhor.

Maria, quero te perguntar:
Levaste tudo sem nada esquecer?
Meu vestido não tem bolso para levar nada!
O que é que vou precisar para a última viagem?
Humildade e espírito contrito.

Frei Adolfo Temme Glane , dia 28 de março de 2019

Obs: O autor é Frade Franciscano, nasceu na Alemanha em 1940.
Chegou ao Brasil como missionário em 1964. Depois de completar os estudos em Petrópolis atuou no Piaui e no Maranhão. Exerceu trabalhos pastorais nos anos 80 em meio a conflitos de terra. Desde 1995 vive em Teresina no RETIRO SÃO FRANCISCO onde orienta pessoas na busca da vida espiritual.  

As imagens enviadas pelo autor são do autoria de Felix Timmermanns

Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor e foi publicado da forma como foi recebido, sem alterações pela equipe do Entrelaços.


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