Eduardo Hoornaert 1 de março de 2019

No primeiro sermão do papa Francisco, pronunciado no dia 19 de março de 2013, aparecem algumas expressões que eu gostaria de comentar com você neste capítulo. Por duas vezes, ele se definiu como ‘bispo de Roma’, mas ao mesmo tempo falou em ‘ministério petrino’ e afirmou ser ‘sucessor de Pedro’. Quando fez referência a Pedro, não se apoiou no texto de Mateus 16, 19 (‘tu és Pedro’) como reza a tradição, mas no último capítulo do evangelho de João, onde Jesus confia suas ‘ovelhas’ aos cuidados de Pedro. Penso que esse ‘deslocamento’ foi intencional. Num outro trecho do mesmo sermão, o papa declarou que a ‘rocha’ da igreja é Deus. Estamos de novo diante de um deslocamento, pois se costuma dizer que a rocha da igreja é Pedro. Será que o papa Francisco está sugerindo algo com essas sutilezas? Será que ele nos convida a estudar melhor a história do papado e desse modo colaborar para uma reforma da igreja católica em profundidade? Efetivamente, o governo central da igreja católica necessita ser repensado em profundidade. Escrevo isto com muito respeito pelo papa e pelas estruturas da igreja católica. Mas é patente que essas estruturas mal se adaptam ao mundo que emerge em nosso redor. Redijo as anotações históricas em seguida no sentido de ajudar a remover ideias antigas, enraizadas na mente de muitos católicos, e que dificultam reformas mais profundas. Proponho que procedamos por pontos e digo de início: se você encontrar algum termo histórico mais difícil, procure esclarecimento na Wikipédia de Google ou simplesmente na Internet.

  1. As primeiras imagens de Pedro.

O papa Francisco se referiu às palavras de Jesus dirigidas a Pedro no último capítulo do evangelho de João: ‘cuide de minhas ovelhas!’. Essas palavras costumam ser entendidas no sentido de que Jesus teria se dirigido a quem considerava ser o chefe de uma igreja emergente, mas uma leitura cuidadosa do texto em seu contexto desfaz essa impressão. Quando consultamos os primeiros textos da literatura cristã em torno de Pedro, percebemos que eles entendem invariavelmente a ação do apóstolo dentro do que hoje chamaríamos de ‘pastoral da saúde’. Na época de Jesus, havia muitos doentes na Galileia, como demonstra o evangelho de Marcos. As pessoas costumavam atribuir essas doenças à influência maléfica de demônios ou espíritos imundos. É por isso que os ‘agentes de saúde’ que andavam pelos vilarejos a cuidar de doentes, eram chamados ‘exorcistas’. Eles ‘expulsavam demônios’. Como registra a história, a maioria desses exorcistas eram charlatães que se aproveitavam das misérias humanas para se exibirem e extorquirem dinheiro. O evangelho de Marcos apresenta Jesus como um exorcista diferente, que não gostava de se exibir, mas se emocionava profundamente diante das misérias humanas, um homem que tratava as pessoas com carinho e cuidado. Daí seu imenso sucesso em toda a Galileia e mesmo além. Jesus curou muita gente e seu sucesso foi tão grande que ele teve de organizar equipes volantes de apóstolos a andar por aldeias e vilarejos para multiplicar o trabalho de curar, expulsar demônios e consolar. Os primeiros documentos cristãos mostram que Pedro aprendeu com Jesus a arte de cuidar de doentes e necessitados. Os Atos dos Apóstolos mostram que após a morte de seu mestre, Pedro se tornou um dos mais requisitados exorcistas da Palestina. Por onde andava, ‘os doentes se alinhavam nas praças para que pelo menos sua sombra passasse por eles’ (At 5, 15-16). Quando se compara o texto aqui citado dos Atos dos Apóstolos com o capítulo 6 do evangelho de Marcos (vv. 55-56), dá para se perceber que a intenção do autor dos Atos consiste em mostrar Pedro como um ‘novo Jesus’. Em ambos os relatos aparecem as mesmas palavras: vilarejo, maca, praça, etc. Pedro continua a tarefa de Jesus, não no sentido de chefiar uma pretensa ‘igreja’ (unificada?), mas no sentido de continuar o trabalho junto às populações necessitadas. Eis o que aparece repetidamente em textos do século II, como na segunda carta de Pedro (escrita por um discípulo do apóstolo), no Apocalipse de Pedro e nos Atos de Pedro (sendo os dois últimos textos apócrifos). Autores importantes da época, como Justino, Ireneu e mais tarde Tertuliano, também exaltam Pedro como exorcista. Pedro é invariavelmente apresentado como exorcista. Mesmo o historiador Eusébio de Cesareia, no século IV, apresenta Pedro como exorcista. Você pode verificar isso no Google (Eusébio de Cesareia, História Eclesiástica, 2, 14, 6) ou consultando o volume 15 da ‘Patrística’ (Editora Paulus, 2000), na página 91. Aí Eusébio escreve que Pedro viajou a Roma para combater o exorcista Simão, um samaritano que fazia muitos milagres e enganava muita gente. Outro detalhe interessante: na mesma ‘História Eclesiástica’, um pouco adiante (2, 25, 4-5) você pode ler que Tertuliano, um autor do início do século III, escreve que muita gente viajava a Roma par venerar os túmulos de Pedro e Paulo. Essas pessoas não iam ver o papa, mas visitar os lugares onde, segundo a tradição, os dois principais apóstolos teriam sido martirizados. Não pense que Pedro seja o único exorcista da escola de Jesus que teve sucesso. A história nos conserva alguns outros nomes: os sete filhos do sumo sacerdote Ceva (At 19, 13-15), Jacó de Quifas Secania (que curou um rabino em nome de Jesus), Eleazar e, finalmente, o exorcista anônimo que aparece em Mc 9, 38. Este último texto é muito importante para se entender como Jesus se posicionava diante dessa proliferação de exorcistas, que pretendiam agir em seu nome. Quando os apóstolos reclamaram a Jesus que havia outros exorcistas atuando em seu nome, ele reagiu de forma inesperada: ‘deixem que eles também trabalhem. Quem não está contra nós, trabalha em nosso favor’ (Mc 9, 38-40). Penso que a ideia de Jesus foi a seguinte: quanto mais gente se empenha em cuidar da saúde das pessoas, tanto melhor. Jesus não quer ser exaltado, quer o bem-estar do povo. Da mesma forma Pedro.

  1. Pedro em Roma.

Neste segundo ponto passo a você informações acerca de uma pergunta frequente: será que Pedro efetivamente esteve em Roma? E, se ele esteve aí, foi na qualidade de chefe da igreja? O bispo Eusébio de Cesareia (que citei acima) escreve no segundo livro de sua ‘História eclesiástica’ (14, 6), que Pedro viajou a Roma no início do reino de Cláudio, ou seja, por volta do ano 44. Quando conferimos essa informação (proveniente do século IV) com os escritos do novo testamento (do século I), chegamos a um impasse. Nos Atos dos apóstolos (12, 17) está escrito que Pedro, em 43, saiu de Jerusalém e ‘foi para outro lugar’, sem especificar qual. Os mesmos Atos relatam que Pedro está em Jerusalém no ano 49, por ocasião da visita de Paulo. Não se informa por onde Pedro andou entre 43 e 49. O mais provável é que ele tenha ido à Samaria como exorcista, pois os Atos relatam sua disputa com o exorcista Simão Mago (citei acima), que na época atuava na Samaria. Enfim, as datas propostas por Eusébio não combinam com o que os Atos dos apóstolos relatam. Hoje reina entre os historiadores uma grande desconfiança acerca de Eusébio de Cesareia, pelo fato de que este se mostra totalmente envolvido no projeto imperial de Constantino, que consiste no enquadramento do cristianismo dentro da organização sacerdotal do império romano. Para fundamentar essa política, Eusébio redigiu, nos capítulos 4 a 7 de sua História Eclesiástica, listas de sucessivos bispos para as principais cidades do império romano. Os historiadores estão de acordo, hoje, em afirmar que ele inventou muitos nomes de bispos, para poder preencher sua lista. Assim ele escreve, por exemplo, que Clemente foi ‘o terceiro bispo de Roma’, depois de Lino e Anacleto. Conhecemos Clemente romano por suas cartas, mas nada sabemos acerca de Lino e Anacleto. Ninguém sabe de onde Eusébio tirou esses nomes, trezentos anos após os acontecimentos. O bispo de Cesareia projeta a imagem da igreja no século IV sobre o passado e nisso comete um anacronismo (erro recorrente na historiografia). É dele a ideia de se aplicar ao movimento cristão a estrutura das dioceses, repartições territoriais típicas da administração romana. Concluindo, podemos dizer que não há base histórica segura para a afirmação de que Pedro tenha estado em Roma. Com isso cai um dos principais fundamentos do que se costuma dizer acerca do papado. Mas, já que a crença de Pedro em Roma se enraizou profundamente na mente dos católicos, o papa Pio XII mandou, em 1956, executar escavações num cemitério antigo descoberto sob uma garagem em construção no Vaticano. Nesse cemitério estavam enterradas pessoas pobres, escravos e libertos até os séculos IV e V. O papa esperou encontrar aí sinais do túmulo de Pedro, mas as obras foram suspensas por falta de evidências (veja maiores informações sobre esse ponto na bibliografia, no final do trabalho).

  1. ‘Tu és Pedro’

Hoje, as palavras ‘Tu és Pedro e sobre esta pedra construirei minha igreja’ figuram em enormes letras no interior da cúpula da basílica de São Pedro, em Roma. Mas essas palavras não estão só gravadas na pedra, mas também na mente de muitos católicos. O que podemos dizer? Sabemos que essa frase é retirada de um trecho do evangelho de Mateus, capítulo 16, versos 16 a 19, mas nem sempre prestamos a devida atenção ao contexto dos quatro versos em que a afirmação de Jesus se encaixa. Hoje, os exegetas são severos nesse ponto: não se pode ler um texto sem considerar seu devido contexto. Ora, quem ler os quatro versos em conjunto, vai perceber sem dificuldade que se trata aqui de um elogio de Jesus dirigido a Pedro. Quando Pedro diz ‘Jesus, você é o ungido de Deus’, ele expressa sua admiração diante de um profeta diferente, que não fala sempre em pecados e calamidades, como faz a maioria dos profetas. Efetivamente, muitos profetas do antigo testamento ameaçavam e intimidavam as pessoas falando da ira de Deus por causa dos pecados e da necessidade de penitência. Pedro enxerga em Jesus um profeta que não ameaça nem condena, mas aponta o reino de Deus, a graça, a misericórdia, o perdão. E pensa: ‘ele deve ser mais que um profeta, deve ser o tão esperado ungido de Deus’. É como se ele dissesse a Jesus: ‘tudo que você faz e diz é direcionado para o bem das pessoas’. E Jesus replica: ‘Pedro, você é como uma pedra, tão segura é sua palavra. Se todos entendessem o que você diz aqui, estaríamos bem seguros, consolidados sobre uma rocha. Você, Pedro, capta minhas intuições’. Em outras palavras: Jesus elogia Pedro por expressar de forma tão feliz a novidade que ele traz. Eis como podemos ler Mateus 16, 16-19 ‘em contexto’.

Mas, com o correr dos tempos, o verso 18 ficou isolado de seu contexto e se tornou um argumento a favor do primado de Pedro. Se consultarmos mais uma vez Eusébio de Cesareia, veremos que ele isola o verso 18 de seu contexto (os vv. 16 a 19) e desse modo consegue dar um significado eclesiástico às palavras de Jesus. Estamos diante de mais um anacronismo. Hoje, somos obrigados a criticar severamente Eusébio e os que leem o evangelho do mesmo modo. Como escrevi acima, a exegese atual é taxativa em afirmar que não se pode isolar um texto de seu conjunto literário e transformá-lo em oráculo. Quem lê os evangelhos em contexto não imagina que Jesus tenha planejado uma dinastia apostólica de caráter corporativo, baseada em sucessão de poderes.

  1. A palavra ‘papa’.

De onde vem a palavra ‘papa’ (ou pope)? Ela pertence ao grego popular do século III e é um termo derivado da palavra grega ‘patèr’ (pai). Uma palavra que expressa o carinho que os cristãos tinham por determinados bispos ou sacerdotes. O termo penetrou no vocabulário cristão, tanto da igreja ortodoxa como da católica. No interior da Rússia, até hoje, o pastor da comunidade é chamado ‘pope’. A história conta que o primeiro bispo a ser chamado ‘papa’ foi Cipriano, bispo de Cartago entre 248 e 258, que deve ter sido um bispo amado pelo povo. Outra curiosidade: o termo ‘papa’ só apareceu tardiamente em Roma, de modo que o primeiro bispo dessa cidade a receber oficialmente o nome ‘papa’ (segundo a documentação disponível) é João I, no século VI.

A história do termo ‘papa’ me leva a um tema que considero de grande importância para a compreensão do papado. Muita coisa existente no catolicismo tem raiz na religião do povo. Não se tem dado entre nós a devida atenção à religião popular na construção do cristianismo. Isso provém em parte do fato de que até pouco tempo atrás, a historiografia cristã estava principalmente baseada no estudo de fontes escritas. Ora, essas fontes praticamente nunca abordam a religião do povo. Isso, aliás, é uma regra geral: intelectuais não costumam mostrar interesse pelo que se passa no meio do povo comum e anônimo. A ‘plebe’ não retém a atenção de filósofos como Platão, Aristóteles, Cícero ou Sêneca, ou de intelectuais proeminentes como Galeno, Plotino ou Marco Aurélio. Nem mesmo autores cristãos como Justino, Ireneu, Tertuliano, Cipriano, Clemente de Alexandria ou Orígenes descrevem o que se passa entre cristãos comuns. Afinal, eles também pertencem à elite letrada. Mas hoje, esse quadro está mudando, principalmente por causa de ciências que nos revelam a vida vivida em tempos remotos: a arqueologia, a iconografia, o estudo da arte cristã, o estudo da liturgia. A arte cristã mostra que praticamente tudo que se conta sobre Pedro provém da religião popular. Na época da construção das primeiras basílicas cristãs (segunda parte do século IV) foram convidados artistas para cobrir as paredes com mosaicos que retratassem cenas relativas aos evangelhos e à vida da igreja. Assim, aparecem naquelas paredes as mais variadas imagens de Pedro: crucificado de cabeça para baixo, com as chaves na mão, pescador, segurando na mão direita a maquete de alguma nova igreja, revestido de vestes sacerdotais romanas (alba, estola, manípulo), com a tiara persa ou a mitra mesopotâmica (da liturgia do deus Mitra) na cabeça, com seu barco (que nunca afunda), sua rede (que pesca homens), seu selo, sua cátedra (a santa sé). Mas a imagem que aparece com mais frequência é a do túmulo de Pedro, ao lado do túmulo de Paulo. Efetivamente, para o povo, o papa é o guardião dos túmulos de Pedro e Paulo. As pessoas não se importam com a questão da ‘sucessão apostólica’ (uma ideia de Eusébio) e da constituição da hierarquia, elas veneram os heróis da fé cristã. Uma tradição romana muito antiga reza que Pedro foi martirizado no monte Vaticano e Paulo ‘fora dos muros’. Desde cedo se registram ‘romarias’ aos túmulos dos apóstolos-mártires Pedro e Paulo(em latim: ad limina apostolorum). Mesmo sem documentação que provasse a veracidade da presença de Pedro e Paulo em Roma, as histórias sobre ambos proliferam em Roma. Já no século II, ir a Roma significa visitar os túmulos sagrados, como comprovam os escritos de Justino e Inácio de Antioquia. A ‘romaria’(viagem aos túmulos de Pedro e Paulo) constitui uma página importante da história do cristianismo. Para os bispos, não é fácil aceitar a predominância da religião popular na formação do cristianismo, mas não há como fugir da evidência. O povo não só sustenta financeiramente a hierarquia (de uma ou outra forma), é ele que confere prestígio e honorabilidade a bispos e papas. Afinal, o que seria o papa se ninguém mais saísse de casa para vê-lo e aclamá-lo?

Acrescento aqui um detalhe interessante. A escolha do nome Francisco pelo novo papa constitui um caso típico do que se pode chamar de ‘religiosidade papal’. Pois os papas também têm sua religiosidade. Até agora, nenhum papa se atreveu adotar o nome Pedro. Só tardiamente, no século VI, um papa ousou adotar o nome João. No século VIII veio o primeiro Paulo. Há um pudor em se atribuir um nome que traz à lembrança uma pessoa que viveu tão próxima de Jesus. A escolha do nome Francisco é particularmente feliz, pois traz o simbolismo do cuidado com pobres e doentes, mas também com a ecologia.

  1. Papado ou episcopado?

Assinalei acima que o papa Francisco, em seu primeiro sermão, chamou a si mesmo de ‘bispo de Roma’. O que significa isso? Ele lembrou que a primeira instituição do cristianismo é o episcopado, e não o papado. Efetivamente, a instituição episcopal deita raízes sólidas na origem do cristianismo, pois se refere a uma função já existente no sistema sinagogal judeu, antes de Jesus. A palavra ‘bispo’ (que significa ‘supervisor’) é encontrada diversas vezes nos textos do novo testamento (1Tm 3, 2; Tito 1, 7; 1Pd 2, 25 e At 20, 29), onde aparece igualmente o substantivo ‘episcopado’ (1Tm 3, 1). Nas sinagogas judaicas, o ‘episcopos’ era responsável pela boa ordem nas reuniões e as primeiras comunidades cristãs nada mais fizeram que adaptar as funções. O episcopado registra, ao longo dos séculos, páginas luminosas de vida evangélica e lutas contra a supremacia papal, que hoje desaguam no combate em prol da colegialidade episcopal (uma ideia do concílio Vaticano II). Trata-se de fortalecer o poder dos bispos e limitar o poder do papa. Mas essa luta não registrou, nos últimos tempos, avanços consideráveis, principalmente pela reação dos papas João Paulo II e Bento XVI.

  1. A luta entre os patriarcas do oriente.

Pode-se dizer que o papado emerge de uma contenda histórica entre bispos. A partir do século III, os bispos das quatro principais metrópoles do império romano (Constantinopla, Alexandria, Antioquia e Roma) começaram a rivalizar e hostilizar entre si para ver quem conquistaria o poder sobre um movimento cristão em plena expansão. Essa luta foi particularmente dramática na parte oriental do império, onde se falava a língua grega. Os bispos em litígio passaram a ser chamados ‘patriarcas’. Esse termo acopla o ‘pater’ grego com o poder político (‘archè’, em grego, significa ‘poder’), o que significa que o patriarca é ao mesmo tempo pai e líder político. Nos inícios, Roma participou pouco dessa disputa, por ficar longe dos grandes centros do poder da época e usar uma língua menos universal (apenas usada na administração e no exército do sistema imperial romano), o latim. Por sua vez, Jerusalém, cidade ‘matriz’ do movimento cristão, ficou fora do páreo por ser uma cidade de pouca importância política.

Em 330, Constantinopla se autoproclama a ‘segunda Roma’, um título que os bispos aceitam em 381, por ocasião do concílio de Constantinopla. Doravante, o poder divino (pretensamente exercido por Pedro) atua na ‘nova Roma’, ou seja, em Constantinopla. Fortalecidos por esse consenso, os patriarcas de Constantinopla se intrometem sempre mais em assuntos internos das demais igrejas, um processo que culmina em Calcedônia (451), quando Constantinopla tem a ousadia de nomear bispos para Antioquia e Alexandria. E esse exemplo é seguido pelos séculos afora e ainda faz sucesso no século XVI, quando o patriarca Jeremias II Tranos, de Constantinopla, viaja à Rússia (1589) e, impressionado pelo vigor do cristianismo naquele país, eleva Moscou à dignidade de ‘terceira Roma’. Prontamente, a cidade se torna centro de peregrinação, ao lado de Roma e de Constantinopla. Na mesma época em que francos e germânicos viajam para Roma e sírios, egípcios e gregos peregrinam para Constantinopla, eslavos e russos fazem sua ‘romaria’ para Moscou. A rivalidade entre Roma, Constantinopla e Moscou perdura até hoje. A identificação entre o império romano, sua memória, símbolos, ritos, vestes e cerimônias e os impérios bizantino, carolíngio, russo e católico é algo que salta à vista de quem se aprofundar na história.

  1. No ocidente, Roma também busca o poder.

Neste parágrafo entro em pormenores, pois se trata de compreender que o papado não ‘caiu do céu’ nem proveio diretamente de Jesus, mas é resultado de uma longa contenda repleta de manobras, jogos, enganos e domínios. Sendo a cidade mais importante do lado ocidental do império, Roma não deixa, desde cedo, de tentar exercer poder sobre os demais episcopados. No século III, o bispo Cipriano, de Cartago, reage com energia diante das pretensões hegemônicas do bispo de Roma e repete que entre os bispos há de reinar uma ‘completa igualdade de funções e poder’. O patriarca de Roma é o ‘primeiro entre iguais’ (primus inter pares), merece respeito, mas não obediência. Mas a história progride inexoravelmente. Com tenacidade, os sucessivos patriarcas de Roma ampliam sua ascendência sobre as demais igrejas do ocidente. É uma longa história, da qual aponto aqui apenas alguns momentos marcantes. Não é difícil encontrar exposições mais detalhadas na literatura especializada.

– Até o final do século III, o papado não interfere em decisões feitas por reuniões de bispos, livres e soberanas. Mas, apesar do firme posicionamento de Cipriano, já se anunciam problemas no horizonte.

– Na primeira parte do século IV, os bispos locais mantêm sua independência diante de Roma, sem deixar de manifestar respeito para com o patriarca de Roma. Assim nas reuniões episcopais de Arles (314), Nicéia (325) e Sárdico (342). Quando há um litígio, o bispo de Roma é notificado, nada mais. Patriarcas como Silvestre e Libério não interferem em decisões episcopais (concílios).

– As coisas começam a mudar na segunda parte do século IV. Os patriarcas romanos Damásio (366-384) e Sirico (384-399) são destemidos e atribuem a Pedro (e seus sucessores) títulos da nomenclatura religiosa romana, como ‘sumo pontífice’, ‘príncipe (dos apóstolos)’, ‘vigário (de Cristo)’. Bispos como Basílio e Ambrósio reagem diante das manobras romanas. Mesmo assim os patriarcas romanos avançam em busca de controle sobre os bispos.

– Sob Inocêncio I, no início do século V, o processo da romanização da igreja cristã no Ocidente avança sempre mais. Inocêncio intervém sistematicamente nos assuntos de igrejas locais na Gália, Espanha e Ilíria, exige relatórios e reserva para si a decisão final. Quando as reuniões episcopais de Cartago e Mileve (hoje Algéria) tratam de questões de fé (estamos na época de Agostinho), ele manda dizer que um caso só se resolve após passar por Roma. Celestino I segue o mesmo caminho e resolve soberanamente o caso de Nestório (de Alexandria). Ele delega Cirilo de Alexandria ao concílio de Éfeso (431) e, mais uma vez, bispos e teólogos reagem. Agostinho não concorda com a postura de Roma, embora seja dito que ele é o autor da frase ‘Roma falou, a discussão terminou’ (Roma locuta, causa finita). Agostinho segue a tradição que reza que a autoridade romana tem de respeitar a soberania dos concílios episcopais. Para ele, o primado do bispo de Roma é apenas honorário (como dizia Cipriano).

– O processo da centralização romana se intensifica com Leão I, que cria uma mística petrina e toda uma mitologia em torno da imagem de Pedro. Ele tem a ousadia de afirmar que a ‘plenitude de seu poder’ (plenitudo potestatis), provém diretamente de Cristo. O ‘vigário de Cristo’ é o ‘príncipe dos apóstolos’, não é mais o ‘primeiro entre pares’ (Cipriano), nem uma autoridade ‘honorária’ (Agostinho). Nos concílios da Espanha, da Itália do Norte e da África do Norte, Leão age como chefe absoluto e intervém nos mínimos detalhes, mesmo no oriente. Na luta contra as heresias do tempo, ele despreza a intervenção do patriarca de Alexandria e manda seus próprios legados, transmite ordens aos padres reunidos em Calcedônia e declara nulas as decisões que não lhe agradam. Essa postura mandante impressiona os contemporâneos. A correspondência de Leão é cuidadosamente conservada e até hoje constitui a base da teoria papal.

– A vitória definitiva do papado vem com Gregório Magno, que cria em Lérins, na atual França, uma escola de ‘aristocratas episcopais’ a estabelecer a organização eclesiástica no sul da Gália. Intelectual de renome, Gregório inicia os tempos da glória romana. Sua figura pode ser arrolada ao lado de outros expoentes da ‘aristocracia episcopal’, como Ambrósio, protagonista da supremacia da igreja sobre o estado; Agostinho, ao mesmo tempo ‘pai da inquisição’ e genial teólogo; João Crisóstomo, orador de renome e Cirilo de Alexandria, fundador da tradição teológica grega.

– O caminho está pavimentado. Após a bem sucedida aliança com o emergente poder germânico no ocidente (Carlos Magno, 800), os patriarcas romanos sempre mais elevam o tom de voz e, por conseguinte, as relações com os patriarcas orientais se tornam sempre mais tensas. O cisma de 1054 vem concluir uma evolução de séculos. Rompe-se a unidade do corpo cristão e dois caminhos se abrem: o grego-ortodoxo e o latino-católico.

Traçei esse longo percurso para demonstrar que o papado é uma criação histórica que, a rigor, não pertence ao âmago do catolicismo.

  1. Roma no auge do poder.

Aí, no século XI, começa a história da igreja católica apostólica romana propriamente dita. O papa se faz rodear por um senado de cardeais e inicia uma história de sucesso, principalmente baseada na diplomacia, na famosa ‘arte da corte’ que Roma aprendera com Constantinopla (veja os livros de Norbert Elias). Ao longo dos séculos, praticamente todos os governos da Europa ocidental aprendem a ‘arte romana’. A bem dizer, a diplomacia é uma arte eficaz, mas nada edificante. Inclui hipocrisia, aparência, habilidade em lidar com o povo, impunidade, sigilo, mentira, linguagem codificada (inacessível aos fiéis), palavras piedosas (e enganosas), crueldade encoberta de caridade, acumulação financeira, indulgências, ameaça do inferno, pastoral do medo etc. Sem armas, Roma enfrenta com sucesso os maiores poderes do ocidente (Canossa 1077). Como resultado, é afetada, no dizer do historiador inglês Toynbee, pela ‘embriaguez da vitória’. O papa perde contato com a realidade do mundo e passa a viver num universo irreal, repleto de palavras sobrenaturais (que ninguém entende). Um pássaro preso numa gaiola dourada.

  1. A política papal no século XX.

Com o advento da modernidade, o papado perde paulatinamente espaço público. No século XIX, principalmente durante o longo pontificado de Pio IX, a antiga estratégia de se opor aos ‘poderes deste mundo’ não funciona mais. Não traz mais vitórias, registra apenas derrotas. É o que compreende o papa Leão XIII, que resolve mudar a estratégia e inicia uma política de apoio aos mais fortes, uma estratégia que funciona durante todo o século XX. Bento XV sai da primeira guerra mundial ao lado dos vitoriosos; Pio XI apoia Mussolini, Hitler e Franco, enquanto Pio XII pratica a política do silêncio diante dos crimes contra a humanidade perpetrados durante a segunda guerra mundial, à custa de incontáveis vidas humanas. Após uma breve interrupção com João XXIII, a política de apoio silencioso aos ganhadores (e de palavras genéricas de consolo aos perdedores) prossegue até os nossos dias. Sei que esta análise é dura e dói na alma dos católicos, mas é necessária para que entendamos que o problema não é o papa, mas o papado enquanto instituição histórica. É verdade que o século XX é marcado por regimes particularmente violentos, transgressores dos direitos humanos, tanto na Europa como aqui na América latina, mas não podemos esquecer que aqui tivemos, nos últimos tempos, além de bispos mártires como Romero (El Salvador) e Angelelli (Argentina), uma geração de bispos que se opuseram bravamente à repressão política, entre os anos 1960 e os anos 1990. Particularmente no Brasil tivemos bispos corajosos. A história mostra que os sistemas mais autoritários, como os de Hitler e Mussolini, recuam quando a igreja católica se posiciona em contrário. Quantas vidas humanas poderiam ter sido salvas se Pio XI e Pio XII tivessem tido a coragem de se opor às ditaduras de seu tempo! Mas, pelo menos até o presente momento, não vejo em Roma sinais concretos de compromisso resoluto ao lado da humanidade sofredora, como fazia Jesus.

  1. O problema não é o papa, mas o papado.

Estamos de acordo: o papa merece todo o respeito na qualidade de bispo de Roma. O ‘primeiro entre pares’, como dizia o bispo Cipriano no século III. Não precisa ser chefe de estado nem necessariamente viver em Roma (veja abaixo uma indicação bibliográfica sobre Roma como símbolo do mito eurocêntrico) e, principalmente, não tem de se reservar a última palavra dentro da igreja. Alguns perguntam ‘mas, pode a igreja católica subsistir sem papa?’ É como perguntar ‘pode a França subsistir sem rei, a Inglaterra sem rainha, a Rússia sem czar, o Irã sem aiatolá?’. A própria história fornece a resposta. A França não se acabou com a destituição do rei Luis XVI e penso que o Irã não se acabará com o fim do reino dos aiatolás. O surgimento do luteranismo e do anglicanismo, no século XVI comprovou que o cristianismo pode subsistir sem papa. Pois não se trata de mudar a igreja, mas de desatar os nós colocados por papas como Damásio (século IV), Leão I (século VI), Gregório Magno (século VII), Inocêncio III (século XII) e outros. Desconstrução de esquemas autoritários e reconstrução democrática, um processo em curso no mundo de hoje. Haverá certamente resiliências e saudosismos, tentativas de volta ao passado, mas instituições não costumam desaparecer com mudanças de governo. Cedo ou tarde, a igreja católica terá de enfrentar a questão da superação do papado, tal qual existe hoje, por uma forma de governo central mais condizente com o mundo em que vivemos. O problema não está na palavra ‘papa’, mas na maneira em que funciona essa palavra dentro do imaginário católico.

Termino trazendo aqui dois exemplos recentes em torno dessa problemática. Poucas pessoas sabem que nos idos de 1980, o cardeal Aloísio Lorscheider chegou a discutir com o papa João Paulo II acerca da descentralização do poder na igreja. Não existe registro escrito ou fotografado dessa discussão, mas parece que o papa se mostrou aberto às colocações do cardeal brasileiro, conforme consta na sua encíclica ‘Ut unum sint’. Se você quer saber mais sobre esse ponto, consulte na internet um dos últimos trabalhos de José Comblin, intitulado: ‘Problemas de governo na igreja’. Parece que o papa só não avançou na direção apontada pelo cardeal Lorscheider porque não sentia, entre os católicos, suficiente ressonância para poder mexer com um tema tão delicado. É por isso que é tão importante que leigos e leigas entrem em campo e façam pressão. Não se pode pensar que a hierarquia esteja disposta a proceder a uma reforma em profundidade de sua própria instituição. Enfim, a discussão entre o cardeal Lorscheider e o papa João Paulo II mostra que o problema não é o papa (João Paulo II se mostrou aberto), mas o papado. Um exemplo bem diferente, mas que aponta na mesma direção, é dado por outro bispo brasileiro, Helder Câmara. Chegando a Roma para participar do concílio Vaticano II, o bispo brasileiro, uma pessoa intuitiva e sensível, estranhou os comportamentos na corte romana a ponto de ter alucinações, como conta em suas cartas circulares (em vias de publicação pelo governo estadual de Pernambuco). Certa vez, por ocasião de uma sessão na basílica de São Pedro, ele teve a impressão de ver o imperador Constantino invadir a igreja montado num garboso cavalo a pleno galope. Outra vez, ele sonhou que o papa ficou louco, jogou sua tiara no Tibre e atou fogo no Vaticano. Ele dizia em conversas informais que o papa faria bem em vender o Vaticano à Unesco e alugar um apartamento no centro de Roma. Pude verificar pessoalmente, em diversas ocasiões, que Dom Helder detestava o ‘sigilo papal’ (um dos instrumentos do poder romano). Ao mesmo tempo, o bispo brasileiro mantinha amizade com o papa Paulo VI, o que mostra mais uma vez que o problema não é o papa, mas o papado enquanto instituição.

Pequena bibliografia.

– Acerca das pesquisas arqueológicas em busca do túmulo de Pedro em Roma, você pode consultar a Revue d’ Histoire Écclésiastique, Universidade de Lovaina, 1976, 109-111, com comentário de um livro de Väänänen sobre o assunto.

– Acerca de Roma como símbolo do mito eurocêntrico, você lerá com proveito o artigo referente na Revue d’ Histoire Écclésiastique, Universidade de Lovaina, 1985, 134.

Obs: O autor : “Nasci em Bruges, na Bélgica, no ano de 1930. Estudei línguas clássicas na universidade de Lovaina e teologia em preparação ao sacerdócio católico, entre 1951 e 1955. Em 1958 viajei ao Brasil (João Pessoa). Fui professor catedrático em história da igreja, sucessivamente nos institutos de teologia de João Pessoa (1958-1964), Recife (1964-1982), e Fortaleza (1982- 1991). Sou membro fundador da Comissão de Estudos da História da Igreja na América Latina (CEHILA), fui coordenador para o Brasil entre 1973 e 1978, responsável pelo projeto de edições populares entre 1978 e 1992, e entre 1993 e 2002 responsável pelo projeto “História do Cristianismo”. Entre 1994 e 1997 fui pesquisador visitante no mestrado de história da universidade federal da Bahia. Durante esses anos todos administrei cursos e proferi conferências em torno de temas como: história do cristianismo; história da igreja na América Latina e no Brasil; religião do povo. Atualmente estou estudando a formação do cristianismo nas suas origens, especificamente os dois primeiros séculos.”

Explicação do painel(foto)

O autor é o primeiro à direita.

“O painel do fundo, é um quadro desenhado pela Irmã Adélia Carvalho, salesiana (Filha de Maria Auxiliadora) de Recife e ‘artista da caminhada’, que tem muitos trabalhos na linha de uma Igreja libertadora e colabora em diversos programas de conscientização pela arte.
O tema do quadro pode ser descrito assim: ‘a proposta cristã na confusão do mundo em que vivemos’.“

Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor e foi publicado da forma como foi recebido, sem alterações pela equipe do Entrelaços.


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