Djanira Silva 15 de março de 2019

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Chega um momento na vida em que você acha-se muito nova para ficar em casa e velha demais para andar na rua. Então, alguém lhe diz, chegou a Terceira Idade. Como saber quando realmente começa cada fase? Como se avaliar o tempo que dura cada etapa da vida? Há pessoas que já nascem velhas, vivem e morrem carregando um sofrimento que ninguém sabe se adquirido ou genético. Outras carregam viva a lembrança da criança que foram, da adolescente feliz e do equilíbrio de uma vida adulta bem vivida. Não envelhecem nunca.

Sabemos que a dor acelera o amadurecimento, acumulando na alma um estoque de boas e más lembranças, de deveres cumpridos ou mal cumpridos e dando ou negando forças para prosseguir…

Atualmente, algumas pessoas têm mais medo da velhice do o que da morte. É uma afronta, diante delas, falar de uma Terceira Idade. Algumas pensam haverem adquirido usucapião da juventude fazendo plásticas que às vezes são piores do que o envelhecimento natural. Que me chamem de irreverente. Pouco me importa, mas não posso deixar de referir o estado deplorável em que se encontra uma senhora, completamente deformada pelas remodelações que feitas no seu rosto. Esquecida das mãos, as verdadeiras delatoras da velhice, usa mangas compridas para disfarçar os babados dos braços, deixando à mostra os dedos encarquilados, as unhas pontudas e bem cuidadas, que mais parecem garras de águia. Já não pode sorrir. As faces paralisadas não obedecem. Uma careta aqui, outra ali e a gente tem que decifrar as emoções. Falta-lhe couro no rosto e pregas nos lábios – material indispensável para construir um simples sorriso. Em contrapartida, deixaram-lhe no olhar uma expressão de alumbramento, a boca, sungada dos lados parecendo um rede pendurada nos armadores das orelhas, as bochechas brilhando de tanto creme e a triste figura passando fome para ter um corpo esbelto, corpo que nem mais o marido quer ver. Ele, principalmente. Nas recepções não come, não bebe e pouco fala. Tem medo de pegar gripe, de arrotar e de fazer tudo quanto fazia no tempo em que era normal. Dizem até que sofre de couro curo. Quando fecha os olhos faz barulho dentro da saia. Bem já chega.

Voltando à Terceira Idade chego à conclusão de que é uma fase de sustos e perigos. O velho se transforma num verdadeiro criminoso. Tudo quanto disser poderá ser usado contra ele. Se ficar alegre dá para desconfiar do juízo. Se ficar triste é depressăo.

As vezes penso que temos validade como alimentos e remédios. Tem muita gente por ai com a validade vencida. A alma também tem seus limites. Temos uma para cada idade. Sendo assim, acho que estou na terceira alma.

Se depressão é tristeza, fingir alegria é o que?

A vida é uma eterna cobrança – viver, saber viver, se preparar para a morte pois a vida é uma porta aberta pela qua poderemos sair a qualquer instante.

Dizem que devemos fazer dieta e exercícios para morrermos com dignidade. Para que serve dignidade a um defunto?

O ser humano luta pela felicidade e nem sempre a reconhece quando a encontra.

Obs: Texto retirado do livro da autora – Doido é quem tem Juízo

A autora é poetisa, escritora contista, cronista, ensaísta brasileira.

Faz parte da Academia de Artes e Letras de Pernambuco, Academia de Letras e Artes do Nordeste, Academia Recifense de Letras, Academia de Artes, Letras e Ciências de Olinda, Academia Pesqueirense de Letras e Artes , União Brasileira de Escritores – UBE – Seção Pernambuco
Autora dos livros: Em ponto morto (1980); A magia da serra (1996); Maldição do serviço doméstico e outras maldições (1998); A grande saga audaliana (1998); Olho do girassol (1999); Reescrevendo contos de fadas (2001); Memórias do vento (2003); Pecados de areia (2005); Deixe de ser besta (2006); A morte cega (2009). Doido é quem tem Juízo (2012); Saudade presa (2014); O Sorriso da Borboleta (2018)
Recebeu vários prêmios, entre os quais:

Prêmio Gervasio Fioravanti, da Academia Pernambucana de Letras, 1979
Prêmio Leda Carvalho, da Academia Pernambucana de Letras, 1981
Menção honrosa da Fundação de Cultura Cidade do Recife, 1990
Prêmio Antônio de Brito Alves da Academia Pernambucana de Letras, 1998 e 1999 
Prêmio Vânia Souto de Carvalho da Academia Pernambucana de Letras, 2000
Prêmio Vânia Souto de Carvalho da Academia Pernambucana de Letras, 2010
Prêmio Edmir Domingues da Academia Pernambucana de Letras, 2014



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