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Em artigo aqui publicado (A Leitura da Bíblia em nossa vida) falava da leitura da Bíblia em nosso quotidiano, ali dizia que o primeiro passo é dar atenção ao texto. Para não ficar numa leitura simplesmente espontânea e superficial, temos de tirar proveito do que a Ciência Bíblica já conquistou.

O chamado Método HistóricoCrítico nos oferece diversos e importantes procedimentos científicos para nos ajudar a entrar mais profundamente no texto: a Crítica Textual compara a grande diversidade de manuscritos antigos do texto bíblico e, a partir de critérios precisos, ajuda a saber quais os que são considerados mais próximos dos textos originais. Em seguida vem a Crítica Literária para ajudar a perceber se os textos são realmente do autor ao qual se atribuem, se houve acréscimo de outras mãos, se foi escrito de uma vez ou se se acha a presença de épocas diferentes, como é o caso clássico do livro do profeta Isaías, que começa a ser escrito com o profeta oito séculos antes de Cristo e contém muitos textos que datam do período contemporâneo ao exílio em Babilônia e depois da volta dos exilados, entre os séculos quinto e sexto antes de Cristo, naturalmente obra de seus discípulos. Esta pesquisa quer responder à pergunta sobre a “autenticidade”, mas esta não é juízo de valor sobre os conteúdos (“autenticidade” literária não é sinônimo de superior e “inautenticidade” não é sinônimo de inferior), trata-se apenas de dizer, com mais ou menos segurança, se os textos são realmente do autor ao qual se atribuem, Por aí é possível verificar como o texto “viveu”, cresceu ou diminuiu, ou seja, fez história na história do povo. A Crítica Histórica procura estabelecer a relação entre os fatos narrados e sua correspondência à história da época, faz perguntas sobre Geografia e os acontecimentos históricos, inclusive tendo em conta que a Bíblia é um escrito com grande poder simbólico que ultrapassa a simples nudez dos acontecimentos; esse procedimento tira também muito proveito de pesquisas arqueológicas e de descobertas históricas, assim como de comparações entre a vida e história do povo de Israel e de povos de sua mesma região. A Crítica ou História das Formas examina e discute os diversos gêneros ou formas literárias (modos de escrever) e busca classificá-las segundo suas características próprias, chegando até a perceber os “contextos vitais”, as necessidades que levaram as pessoas a elaborar os textos como resposta a essas necessidades. Daí, percebe, por exemplo, que os evangelhos foram escritos para responder a necessidades da missão e da catequese das comunidades; identifica nas epístolas hinos que devem ter nascido da celebração litúrgica, etc. Finalmente, há ainda a Crítica da Tradição (tentar estabelecer o processo como os texto foram sendo transmitidos adiante e como se foi fazendo a redação, uma vez que o processo de autoria na Antiguidade era bem diferente de hoje, a obra literária era escrita a mão e não tinha direitos autorais, pois era patrimônio da comunidade, é a chamada Crítica da Redação.

A Análise Literária ou Retórica é um procedimento que se oferece ao estudo da Bíblia vindo da área da Literatura. Enquanto os procedimentos anteriores buscam desvendar o processo que gerou os textos, foi dando-lhes forma e os trouxe até nós, com isso, por assim dizer, se faz a “arqueologia” do texto, a Análise Literária toma o texto como tem sido recebido na Igreja, isto é, na forma final como o conhecemos. Adotam-se procedimentos vindos da área da Ciência da Literatura, muitos dos quais conhecemos desde os tempos de colégio, quando fazíamos “interpretação de texto”. É evidente que aqui nos sentimos mais à vontade, pois não se exige tanta preparação científica como no caso dos procedimentos elencados anteriormente. Normalmente, para nós é mais fácil praticar a “análise literária” em nossos grupos de estudo bíblico e até na leitura pessoal e acolher, de “segunda mão” os resultados do Método Histórico Crítico, com a leitura de obras de autores renomados e recomendados. Naturalmente, com atenção, começamos nós mesmos(as) por pôr os olhos no texto para observar o vocabulário dominante e seu jogo de relações entre si, o que já nos encaminha devagarinho para o tema dominante no texto.  Mas, cuidado, ainda não é o momento de “pensar” sobre o texto e tirar conclusões temáticas, mas de “observar”, olhar o texto a partir de sua face mais “exterior”. A esta altura, já sabemos, pela Crítica das Formas, qual é o “gênero literário”. Passamos a observar os recursos de expressão empregados, que dão ao texto sua expressividade: estilo, jogos de palavras, repetições, ênfases, contrastes, figuras de linguagem… O passo seguinte é identificar os recursos de construção: o texto é um tecido ou uma obra de arquitetura que, mediante certos procedimentos, se articula enquanto conjunto. Assim, torna-se possível identificar as partes de que o texto se compõe (p. ex., introdução, primeira parte, segunda parte, conclusão… e como se passa de uma para outra…) e perceber como as partes se articulam num único conjunto, ou seja, identificar a estrutura de conjunto do texto. Ao chegar a esse ponto, já é possível identificar a temática que se evidencia no texto, inclusive se evidencia não só pelo que é dito explicitamente, mas também pelo que nos é sugerido pela estrutura. Só resta, então, ir em busca de textos paralelos, ou seja, outros textos da Bíblia que tenham alguma afinidade ou se achem aparentados com o texto em tela, os quais possam ser úteis para esclarecer pontos obscuros, pôr os temas em horizonte mais amplo e ou ainda mais profundo. Na verdade, cada texto é membro de uma família maior de textos aparentados que se podem iluminar uns aos outros. Os grandes Pais da Igreja na Antiguidade usaram muito esse procedimento: a partir de determinado texto faziam verdadeiro “passeio” através da Bíblia tentando explorar tudo o que podia abrir ainda mais o sentido da Palavra revelada.

Do texto ao Contexto. Após todo esse trabalho de dar atenção ao texto, chega o momento de buscar perceber donde brota o texto, em que contexto foi produzido, pois as marcas do contexto estão nele impressas. Passamos da análise literária sobre o texto para o pano de fundo que lhe dá origem. É a chamada Análise Sociológica pela qual se consegue perceber muitos elementos que apontam para o contexto de vida que veio a dar origem ao documento escrito. Afinal, o texto sempre fala da vida, às vezes até sem o querer diretamente. É preciso formular adequadamente as perguntas: quais as possíveis alusões à realidade econômica da qual nasce o texto; como se dão as relações e as estruturas sociais naquela sociedade; se há alusões e quais à realidade política, também em suas relações e estruturas; finalmente, como transparecem possíveis dados da dimensão psico-cultural e antropológica, aqui se inclui a religião. Seria um bom exercício aplicar este olhar a textos como, por exemplo, Amós, capítulos 1 a 2, e ter a agradável sensação de identificar essas diversas dimensões.

A leitura da Tradição. É muito útil e instrutivo dar mais um passo e buscar perceber como ao longo da história o texto tem sido lido e interpretado, ou seja, qual tem sido a (ou as) leitura da Tradição. É evidente que para isso dependemos de estudiosos que se dedicam a analisar a tradição da leitura na Igreja: na Época Patrística, na Idade Média e nos tempos modernos.

A explicitação da Perspectiva Hermenêutica. Finalmente, chegamos ao momento final, o qual é, na verdade, o detonador de todo o processo desde o início, mesmo que esteja implícito até agora. Pois é preciso ter presente que o texto é lido porque, de alguma maneira, nos interessa ainda hoje e já temos as nossas perguntas prévias ou que vão surgindo ao longo da leitura. Afinal, todo o esforço para aprofundar a leitura, desde o momento mais “crítico” que é o de pesquisar a “arqueologia do texto”, passando pela atenção ao texto como produto final de todo um processo histórico de composição; toda a atenção que se dedica ao texto como produto literário em determinada época; a atenção ao contexto que o produziu e que se deixa ver mediante alusões mais evidentes ou veladas, tudo isso tem a ver com uma pergunta que vem do Leitor: o que o texto nos diz hoje, em nossa circunstância, é o momento chamado de hermenêutico e que, na verdade, está presente desde o início do processo da leitura. Aqui estamos atentos(as) à vida (a nossa) que hoje lê o texto, texto que é ele mesmo resultado de outro contexto de vida (a de nossos pais e mães na caminhada que produziu o texto). Ou seja, mediante a composição do texto feita antigamente e mediante a leitura que agora dele fazemos, o que está em vista é perceber, pela mediação do texto, qual a visão de mundo que a vida dos antigos pais e mães nos deixou e de que jeito nossa vida de hoje é capaz de acolher o seu testemunho. Este momento final, “hermenêutico”, supõe reconhecer várias dimensões que habitam o leitor: toda leitura é leitura militante, a partir da práxis, qualquer que seja, em nosso caso a práxis de quem faz opção fundamental pelos pobres, e pelas massas oprimidas e excluídas; no caso de pessoa crente, é leitura de fécontemplativa  e por isso celebrativa das obras de Deus na Criação e na História, incluindo a nossa história; é leitura eclesial, a saber, “tradicional” e comunitária, participante daquilo que se chama “o senso comum dos fiéis” (“sensus fidelium”, fundado no “sensus fidei”); e é leitura ecumênica, sempre aberta ao diálogo no terreno das Igrejas e para além delas, na sociedade. Na verdade, em última análise, trata-se, finalmente, de perguntar-se em que o texto ainda é hoje para nós Boa-Nova e Julgamento.       

Obs: O Autor é Bispo Emérito da Diocese Anglicana do Recife
Igreja Episcopal Anglicana do Brasil – IEAB….

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