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Os princípios e os impulsos do sistema capitalista estão entranhados na vida das pessoas, bem como nas instituições e nas relações sociais. Sua lógica é perversa, uma vez que promove a exclusão, brutais desigualdades, injustiças, individualismo, competição, destruição e morte. Não é possível que nos acomodemos à sua fúria avassaladora. Muito pior é contribuir para que ela se reproduza, prospere e destrua o que temos de mais caro e nobre: a vida com todos os seus significados.

A motivação para resistir a este sistema pode partir de diferentes análises, perspectivas teóricas ou posicionamentos políticos. Dentre os lugares de onde se levantam gritos proféticos de indignação diante da dinâmica de morte produzida pelo capitalismo estão as Comunidades Eclesiais de  Base (CEBs). Berço de onde surgiram múltiplos movimentos sociais populares, as CEBs seguem, com teimosia, lutando em função de uma sociedade mais justa, igualitária e sustentável, organizada a partir da base.  Esse novo jeito de ser Igreja continua, em parte, como uma realidade que se concretiza e, em grande parte, como uma utopia que está sempre na mira das esperanças.

Para dar mais concretude às esperanças e possibilidades de um mundo melhor, creio ser importante pensar no fortalecimento daquilo que denomino de Comunidades Integrativas de Base. Refiro-me às próprias CEBs, as quais necessitam avançar sob múltiplas dimensões e avançar de maneira integrativa. Ao invés de identificar essas dimensões como pilares, colunas estáticas, prefiro falar delas como “pneus” das comunidades, uma vez que, historicamente, as CEBs se assumiram como Igreja “em” movimento. De modo simbólico, cito quatro “pneus”, que estão na base da movimentação. Mas, esse número pode ser ampliado.

Comunidades Eclesiais de Base: Diante do individualismo, preconceitos, discriminações e divisões é preciso fortalecer a vida comunitária, o ecumenismo, o diálogo interreligioso, o respeito ao diferente, a valorização das mulheres, dos jovens, das culturas oprimidas, dos excluídos em geral. A espiritualidade solidária, libertadora, profética e missionária torna-se fundamental na superação do espírito e das estruturas capitalistas. As CEBs precisam ser cada vez mais eclesias no sentido de estreitar laços de fraternidade, superar centralismos e autoritariasmos, exercitar a democracia interna, lutar pela justiça, pelo direito, pela vida e dignidade humana. Para isso, é importante aprimorar a organização dos pobres e excluídos em comunidades, grupos, associações, redes… Segue válido o princípio de que a força aparece quando a fraqueza se organiza.

As CEBs, alinhadas com a perspectiva da Teologia da Libertação, entendem que a fé precisa estar articulada com a vida, tanto no nível pessoal como social. Nesse sentido, são possíveis inúmeras ações nas pequenas comunidades visando compreender a necessária relação existente entre a fé e suas implicações sociais. Entre os múltiplos eventos e mobilizações que podem contribuir nessa direção, está a 5ª Semana Social Brasileira, que será realizada em 2013 com o tema “Um novo Estado: caminho para uma nova sociedade do bem viver”. A mesma tem como objetivo discutir com a sociedade questões sociopolíticas e traçar perspectivas para o país, com base na Doutrina Social da igreja.

Comunidades Econômicas de Base: O livro dos Atos dos Apóstolos (2,42-47) afirma que os primeiros cristãos tinham tudo em comum. Vendiam suas propriedades e seus bens e dividiam entre todos, segundo a necessidade de cada um. Esse modo de viver é revolucionário, totalmente distinto da economia de mercado que rege a sociedade moderna, transformando os mais fugazes desejos em necessidades inevitáveis e fazendo com que muitas necessidades básicas de uma multidão de pobres e excluídos não sejam atendidas.

As comunidades, configuradas como eclesiais de base, ficarão impossibilitadas de seguir seu caminho se tiverem o “pneu” da economia desalinhado. Diante do sistema capitalista, que estimula o lucro a qualquer custo, a competição individualista, a exploração e a exclusão social é preciso fortalecer a economia solidária, o consumo responsável, o comércio justo e ético. Entre tantas outras ações possíveis, está a mobilização para obter 1,5 milhão assinaturas a fim de aprovar a lei de iniciativa popular em vista da criação de uma política nacional da Economia Solidária.

Comunidades Políticas de Base: Em nosso país ainda persiste a corrupção, o colonialismo, o assistencialismo, a dominação de uma elite, a utilização da máquina pública para interesses particulares, a indiferença e o analfabetismo político de muitos. Sabe-se que é no mundo da política que se definem os rumos de um país e de seu povo. Nesse cenário, as comunidades eclesiais e econômicas de base necessitam fortalecer a política do bem comum, as lutas por justiça social, a democracia direta, as práticas cidadãs e a cultura de participação ativa nos espaços decisórios.

Entre outras ações possíveis, destaca-se a fiscalização da ficha dos candidatos a cargos eletivos. Originada de um projeto de iniciativa popular, aprovada pelos deputados e senadores e sancionada pelo Presidente da República, a Lei da Ficha Limpa/2012 será aplicada integralmente nas eleições municipais de 2012. Seria importante, inclusive, que os critérios da Ficha Limpa fossem extensivos a todos os ocupantes de funções públicas. É fundamental também fiscalizar a conduta dos candidatos, fazendo valer a Lei 9.840/99, Contra a Corrupção Eleitoral. Para garantir mais ética na política, faz-se necessária ainda ampla reforma do sistema político, incluindo, entre outras questões, o financiamento público exclusivo de campanhas, como reivindica o novo projeto de lei de iniciativa popular lançado há um ano pela Plataforma dos Movimentos Sociais.

Comunidades Ecológicas de Base: Diante das graves crises e problemas ambientais, como a poluição, as monoculturas, o aquecimento global e tantos outros, há necessidade de criar e ampliar as práticas ecológicas sustentáveis e responsáveis. Como afirma Leonardo Boff: “O cuidado salvará a Vida, fará justiça ao empobrecido e resgatará a Terra como Pátria e Mátria de todos.” A articulação da fé viva com a vida de tudo e de todos os que vivem transformará as comunidades em comunidades ecológicas de base.

Nesse sentido, é importante adotar o consumo ecologicamente correto e socialmente justo; praticar a separação dos resíduos na fonte; realizar a coleta seletiva, a reciclagem, a reutilização, etc.; fortalecer as organizações dos catadores de materiais recicláveis; criar eficientes mecanismos para concretizar a política nacional dos resíduos sólidos nos municípios… Há muitas ações que podemos e devemos desenvolver de modo a enfrentar os diversos problemas. As ações das comunidades serão tanto mais eficientes quanto mais forem articuladas e integradas.

Enquanto houver desigualdades, injustiças, agressão à dignidade humana e à natureza, as CEBs permanecerão atuais, necessárias e indispensáveis na sua missão fundamental de defender e promover a vida. Necessárias para enfrentar a lógica capitalista que atua fora e dentro de cada um de nós e para fortalecer a sociedade do bem viver, utopia feita realidade pelos povos indígenas Aymara, Quétchua, Guarani e outros. As comunidades serão mais fortes e autênticas na medida em que forem eclesiais, econômicas, políticas e ecológicas de base! (05.08.12)

Obs: O autor é Doutor em Sociologia, pós-doutor em Educação e professor da Universidade Federal do Sul da Bahia

Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor e foi publicado da forma como foi recebido, sem alterações pela equipe do Entrelaços.


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