Em 1995 vinha ao ar o filme Um Sonho de Liberdade. Um jovem banqueiro é condenado a prisão por ter matado sua esposa com o amante. Dentre tantos personagens do cárcere, marcou-me profundamente a figura do ancião que cuidava da biblioteca. Depois de mais de quarenta anos naquele ambiente, ele cumpre seu tempo de pena e retoma a convivência na sociedade. Já idoso e debilitado, não consegue habituar-se ao novo estilo de vida. Muito movimento dos carros nas ruas, jovens com pouca paciência no supermercado onde ele conseguiu emprego, vida solitária e aquela saudade imensa dos amigos da penitenciária o levaram a depressão e ao suicídio. Uma das cartas enviadas aos velhos amigos da prisão dizia: “Quando você se torna um homem do sistema, já não consegue mais viver aqui fora”. Foi exatamente esta frase que me impactou. Os quarenta anos vividos na prisão o transformou num homem do sistema, porque a rotina de todos os dias acabou plasmando seu estilo de vida. Contudo, assumir uma nova vida na sociedade para ele foi como uma prisão sem muros, mais cruel do que viver no cárcere real.

Isto me fez pensar na vida cristã. As estruturas da Igreja devem ser transitórias e ajudar aos seus membros a não apaixonar-se por lugares e nem pelas coisas, deveria facilitar o constante desejo de sair ao encontro das pessoas, sempre! Convivi com santos homens religiosos que deram a vida por causas nobres, mas não conseguiriam nunca largar as próprias estruturas criadas por eles mesmos. Se o fizessem, cairiam numa prisão sem muros, como o ancião bibliotecário do filme, o que seria uma crueldade para com eles.

O pós-moderno é uma vitrine com belas ofertas, dentro as quais a mais desejada é o bem-estar. Motiva-nos pensar apenas nos melhores lugares e nas melhores coisas. Mas o problema terrível é a insistência de não querer mudar, de litigar por causas transitórias que nos oferecem status. Insistir nesta direção, a meu ver, é transformar-se num homem do sistema. Porém, não podemos negar: esta tentação está dentro de todos nós e não nos faz, muitas vezes, pensar no outro. A comodidade das estruturas é como se fosse uma mão invisível que vai aos poucos nos empurrando em direção ao próprio ego, distanciando-nos dos outros. Esse é o veneno letal que pode destruir o seguimento a pessoa de Jesus.

Um dia, uma mãe pediu a Jesus que os seus dois filhos sentassem um a sua direita e outro a sua esquerda, quando ele estivesse no reino dos céus. Contudo, Jesus põe a cruz como critério de seguimento. O verdadeiro bem-estar não pode ser apenas para mim, precisa ser partilhado com os outros. Por isso, se fala tanto em descer Jesus da cruz, ou seja, comprometer-se com a causa do próximo, para colaborar com um futuro de fraternidade.

Quando nos tornamos homens do sistema, a vida pode ser um verdeiro inferno. Se alguém nos fala de mudanças ou de transferências, parece nos ameaçar com aquele medo de perder o status. Depois de longos anos desfrutando de pompas e regalias, se renunciamos a isso para assumirmos outra missão corremos  o risco de caírmos na depressão e entrarmos na prisão sem muros.

Uma possível via de solução quem sabe poderia ser aquele ideial baseado nas experiências breves, marcadas pela itinerância. Esse remédio nos faz ser livres e estar sempre a serviço. Por “experiências breves” entendemos intensas, profundas, evangélicas, livres, em outras palavras: experiências samaritanas, ou seja, que se realizam no caminho, nas estradas da vida, tocando a carne sofredora de Jesus.

Já sabemos que o poder, o prazer e o ter foram as duras tentações que Jesus teve que enfrentar no deserto. Mas do que nunca em nossos dias elas se aproximam de nós sem piedade. Quando Francisco propôs a toda a Igreja aquela atitude de saída, pensou exatamente no risco de nos transformarmos em homens do sistema. Neste sentido, convoca-nos a não aderirmos aos vícios de corte, mas assumirmos a santidade com uma mística de olhos abertos para com o próximo.

“Sistema” é uma palavra complexa e difícil de interpretar. Pessoalmente eu penso naquelas mães que choram dia e noite, pedindo aos filhos para abandonarem as drogas. Estes filhos precisam de ajuda para libertar-se do sistema que os enganou. Penso ainda, naquele pai de família analfabeto que não consegue viver seu projeto de vida pessoal na sociedade porque por trás tem um sistema que privilegia apenas os doutos e sábios. Penso na vida religiosa que, nas palavras de Francisco, pode priorizar mais a mundanidade do que o Evangelho. A mundanidade é o pior de todos os sistemas. Não significa desprezo pelo mundo, criatura de Deus. Não! Mundanidade é um sistema que corrompe a nossa personalidade e nos faz trair o Evangelho. Faz-nos apegarmos a situações pequenas, como amor às casas religiosas de manutenção, escolha pelas melhores paróquias que nos pagam bem, não aceitar transferências em vistas à vida comunitária e a formação do povo de Deus. Tudo isso é o espírito mundano, identificado pelas regras do discernimento de Santo Inácio de Loyola e que Francisco está pedindo atenção a toda a Igreja.

O que poderia nos libertar? Tem um critério: observarmos se estamos progredindo na fé, ou seja, se nos damos conta se temos uma fé adulta. A fé progride só quando realizamos o bem uns para com os outros. Isso implica, contudo, um apocalipse de compaixão primeiro com nós mesmos, ou seja, sermos livres para dizer “não” aos vários sistemas mecionados e estar em atitude de saída. Realmente não é fácil, mas isso é uma fé adulta para um mundo adulto que precisa de mim.

Somos todos colaboradores de Deus e, se insistimos sempre no desenvolvimento dos sistemas do anti-reino, nunca nos libertaremos de nossas prisões e fantasias. Estamos juntos nesse processo de conversão.

Obs: O autor é religioso da Congregação da Paixão de Jesus Cristo (Passionistas). Natural de Fagundes, Paraíba. Atualmente reside em Roma, cursando mestrado em Teologia Fundamental na Pontifícia Universidade Gregoriana.

Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor e foi publicado da forma como foi recebido, sem alterações pela equipe do Entrelaços.


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