Djanira Silva 1 de janeiro de 2019

djaniras@globo.com
www.djaniragamboa.blogspot.com.br

Estou aqui. O pensamento está lá. Onde? Ai como eu gostaria de saber. A primeira coisa que se perde da gente é ele, dissoluto, desobediente, às vezes até improvável.
Que palavra é esta ? É louca ou quase louca ou qualquer coisa assim. Muda a cada hora ou não sai ou não pode dar o seu recado. Não consigo entender o mimetismo. As portas se fecham as janelas permanecem espiando. Esta palavra inútil que carrego agora que ninguém entende e nem quer ouvir, remete a outras mais simples e sábias. Ao serem pronunciadas me entregam um ser, um nome, um sentimento.
Esta de agora é velha, cansada, capenga, carregada de lembranças e tristezas tornou-se pesada e inútil. Adormeço
Acordo cedo. Espicho as pernas numa preguiça comprida e morna que teima em me prender à cama.
Olho como se visse, pela primeira vez, as paredes nuas do quarto. Nuas ou quase nuas porque numa delas e mãe pendurara um retrato de primeira comunhão de uma menina tão antiga que dormira criança e acordara mulher.
Passei a noite na enganação dos sonhos. Via-me desfilando elegante e charmosa, e, de repente caia da passarela. Num despertar insosso e real voltei a dormir. Voltaram os sonhos. Vestida de noiva vi-me parada na porta da igreja, sem conseguir sair do lugar. Os pés pareciam colados no chão. O noivo era uma velho de sorriso sem dentes. Gritei tão alto que a mãe veio correndo acudir. Levantei. Tomei um tranquilizante. Voltei a dormir. Acordei com as pernas pesadas de tanta preguiça. Sabia a origem da falta de coragem – os estudos. Detestava estudar. Coisa inútil. Matérias insípidas sem serventia alguma. A mãe também estudara matemática trigonometria, geografia, história e , nenhuma delas, lhe servira para pagar as contas da casa, do super mercado ou ajudar na faxina semanal.
Resta-me, agora, descontar as horas que acordei cedo para estudar.

Obs: Texto retirado do livro da autora – Doido é quem tem juízo

A autora é poetisa, escritora contista, cronista, ensaísta brasileira.

Faz parte da Academia de Artes e Letras de Pernambuco, Academia de Letras e Artes do Nordeste, Academia Recifense de Letras, Academia de Artes, Letras e Ciências de Olinda, Academia Pesqueirense de Letras e Artes , União Brasileira de Escritores – UBE – Seção Pernambuco
Autora dos livros: Em ponto morto (1980); A magia da serra (1996); Maldição do serviço doméstico e outras maldições (1998); A grande saga audaliana (1998); Olho do girassol (1999); Reescrevendo contos de fadas (2001); Memórias do vento (2003); Pecados de areia (2005); Deixe de ser besta (2006); A morte cega (2009). Saudade presa (2014)
Recebeu vários prêmios, entre os quais:

Prêmio Gervasio Fioravanti, da Academia Pernambucana de Letras, 1979
Prêmio Leda Carvalho, da Academia Pernambucana de Letras, 1981
Menção honrosa da Fundação de Cultura Cidade do Recife, 1990
Prêmio Antônio de Brito Alves da Academia Pernambucana de Letras, 1998 e 1999 
Prêmio Vânia Souto de Carvalho da Academia Pernambucana de Letras, 2000
Prêmio Vânia Souto de Carvalho da Academia Pernambucana de Letras, 2010
Prêmio Edmir Domingues da Academia Pernambucana de Letras, 2014



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