Convidado a participar de um debate, com dois ilustres e brilhantes amigos, no programa de rádio de Geraldo Freire, fui provocado a refletir sobre a visão da Ciência acerca “dessa tal felicidade”. Mas ao aceitar não imaginava o tamanho do desafio, pois existe muita subjetividade na temática. Fácil de subtender e discorrer, felicidade é quase impossível de ser definida cientificamente. E para aqueles que lidam com o método científico isso é um enorme problema. Encontrei algumas tentativas que, entre muitas, compartilho a seguir: a) estado de consciência de plena satisfação pessoal; b) sinônimo de satisfação, contentamento e bem-estar; c) experimentar, frequentemente, emoções positivas, como alegria e, infrequentemente (mas não ausentes), emoções negativas, como tristeza, ansiedade e raiva; d) satisfação em apreciar a vida e seus momentos de prazer. Resolvi então realizar uma breve revisão buscando apenas às sistemáticas ou meta-análises, que são os instrumentos que mais nos aproximam da “verdade científica provisória” e ao “estado da arte” sobre qualquer temática. E dentre os poucos encontrados participo aos leitores os principais, e mais atuais, achados, alguns surpreendentes: 1) felicidade (como tudo no Universo) é decorrência de inúmeros fatores, mas aparentemente parecem ser muito importantes: saúde e uma vida coerente com os objetivos, sentido existencial, crenças e valores de cada um; 2) existem realmente mecanismos biológicos (ex: neurotransmissores) envolvidos com as “variáveis” felicidade e infelicidade; 3) existem tanto causas genéticas quanto contextuais (ex: sócio-econômico-culturais) associadas ao objeto de estudo; 4) a leitura da expressão facial é confiável e tem validade científica como instrumento de identificação de quadros emocionais; 5) crenças religiosas estão associadas à felicidade e, aparentemente, os/as que professam o Islamismo parecem ser os/as mais felizes; 6) ter um sentido existencial (seja ele qual for) está associado à felicidade e bem-estar; 7) perdoar a si mesmo ajuda muito a obter a “tal felicidade”; 8) o dinheiro não é, nem de longe, a variável mais importante associada a uma maior felicidade; 9) fazer o bem, a outro ou a si mesmo, ou assistir o bem sendo feito (tanto aos mais próximos quanto aos mais distantes) aumenta a “tal felicidade”. Em minha opinião, esses achados, mesmo passíveis de inúmeras pertinentes críticas, nos obrigam a refletir sobre a velha dicotomia “ter ou ser”. E, enquanto acumulamos novas contribuições ao entendimento do belo “Livro da Natureza Humana”, continuo degustando algumas pérolas de sabedoria que pessoas muito especiais, e que não eram/são cientistas, compartilharam com toda a humanidade: “Felicidade é quando o que você pensa, diz e faz estão em harmonia” (Gandhi); “Felicidade significa paz de espírito” (Dalai Lama); “Seja tão simples como você pode ser. Você ficará surpreso ao ver o quão feliz sua vida pode se tornar” (Yogananda); “Só serão realmente felizes os que procurarem e encontrarem um meio de servir” (Albert Schweitzer). Pessoalmente, acredito que o caminho da alegria, da felicidade e da paz de espírito passa pelo descobrir, entender e viver coerentemente com as leis que regem o Universo e tentar, apesar de nossos defeitos, limitações, fraquezas e contradições, “ser” o sonho que sonhamos. Não é fácil. Mas acho fundamental arriscar.

Publicado no jornal Diário de Pernambuco, pág. A2, 01/01/2019 

Obs: O autor, Prof. Dr. Aurélio Molina, Ph.D pela University of Leeds (Inglaterra) é membro das Academias Pernambucanas de Ciências e de Medicina, professor da UPE, Coordenador do Programa Ganhe o Mundo

Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor e foi publicado da forma como foi recebido, sem alterações pela equipe do Entrelaços.


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