Aurélio Molina da Costa 15 de dezembro de 2018

Injusta, imoral e ilegal. Essas foram algumas das palavras usadas pelo emissário do Papa em sua conversa com o presidente dos Estados Unidos para manifestar sua oposição à uma guerra com o Iraque. Eu acrescentaria inaceitável. Não vou gastar nenhum minuto ou linha enumerando todas as razões que sustentam o uso dos quatro vocábulos citados anteriormente e que começam com “i”. Ou para desqualificar o atual dirigente americano, com outros adjetivos também iniciados com a letra “i”. Seria deselegante e desnecessário, pois em poucas situações na história da civilização houve um número tão grande de indivíduos em concordância, apesar do Saddam ser, ou ter se tornado o que ele é, ou ser esse produto de difícil digestão, criado pelos seus atuais inimigos. Entretanto, gostaria apenas de afirmar que dói muito naqueles que acreditam no progresso e desenvolvimento da espécie humana, mesmo lentamente e com muitos percalços (processo esse também chamado de evolução), ver um país que já teve como seus fundadores gente da estirpe de um Benjamim Franklin, de um Thomas Jefferson, ser liderado por um senhor como o Mr. Bush.
Numa época que não só filosoficamente, mas tambem cientificamente, a Ética da Responsabilidade ( somos responsáveis por tudo e por todos) começa a se tornar um paradigma cabe relembrar uma reflexão que alguns afirmam ser do grande poeta russo Mayakovsky: “Na primeira noite eles se aproximam e colhem uma flor de nosso jardim e não dizemos nada. Na segunda noite, já não se escondem; pisam as flores, matam nosso cão, e não dizemos nada. Até que um dia o mais frágil deles entra sozinho em nossa casa, rouba-nos a lua e, conhecendo nosso medo, arranca-nos a voz da garganta. E porque não dissemos nada, já não podemos dizer nada”, e Martin Niemaller, um pastor Alemão, que em 1944, preso no campo de concentração nazista de Dachau escreveu: “Na Alemanha primeiro eles vieram prender os comunista e eu não falei nada porque não era comunista. Então eles vieram buscar os judeus, e eu não falei nada porque eu não era judeu. Depois eles vieram atrás dos sindicalistas e eu não falei nada porque não era sindicalista. A seguir eles vieram atrás dos católicos e eu não falei nada porque eu era protestante. Finalmente quando eles vieram me buscar, já não tinha sobrado ninguém para falar”. Ah, quão sábias e atuais são estas ponderações!
Mesmo tendo a clareza que, talvez, só uma mudança maciça da opinião pública americana possa impedir a guerra, se nada fizermos, muitos de nós poderemos passar o resto de nossa existência acompanhado de um sentimento de vergonha e culpa e, principalmente, sem ter como poder olhar nos olhos de nosso filhos e netos e dizer, do fundo de nossos corações, que “eu fiz tudo o que podia para que essa página vergonhosa da história da humanidade não fosse escrita” ou afirmar para eles que: “apesar de todos os meus defeitos e limitações eu me considero parte da solução e não do problema”. No mínimo, todos, repito todos, os que tem a mínima consciência do que está em jogo, serão portadores, em maior ou menor intensidade, de uma nova doença crônica, de claro diagnóstico e fisiopatologia (mas de difícil tratamento) chamada Síndrome ou Maldição de Pilatruz ou Avelatos (Pilatos com Avestruz) que, entre muitos sinais e sintomas, como noites mal dormidas, tristeza e depressões, se caracteriza principalmente pela súbita audição de gritos de horrores e gemidos de crianças e de inocentes, acompanhado do aparecimento de um gosto de sangue na boca, toda vez que abastercemos nossos automóveis e veículos.
Como prevenir ainda é o melhor remédio temos até o dia 17 de março de 2003, data limite segundo aquele senhor Bush, para fazermos o melhor que pudermos e ficarmos tranqüilos com as nossas consciências e não carregarmos o peso do pecado da omissão até o fim de nossas vidas.
PS: Como professor sugiro que os próximos dias letivos sejam direcionados para reflexões com a comunidade estudantil e acadêmica e, quem sabe, talvez, um grande dia de mobilização (sexta-feira, dia 14, por exemplo) tomando as ruas e praças de nossas cidades, com irreverência e colorido, mas principalmente, com a indignação, consciência, responsabilidade e determinação que o momento requer.

Publicado no jornal Diário de Pernambuco em 19/03/2003

Obs: O autor, Prof. Dr. Aurélio Molina, Ph.D pela University of Leeds (Inglaterra) é membro das Academias Pernambucanas de Ciências e de Medicina, professor da UPE, Coordenador do Programa Ganhe o Mundo

Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor e foi publicado da forma como foi recebido, sem alterações pela equipe do Entrelaços.


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