Frei Betto 1 de dezembro de 2018

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Há momentos em que prefiro Bach, na expectativa de que me antecipe o céu. Em outros, Tchaikovsky, para que me suscite energias criativas. Nosso estado de espírito muda de acordo com as circunstâncias. Como reza o Eclesiastes, há tempo para tudo, de destruir e de construir, de chorar e de rir. Agora, vitoriosos e derrotados na eleição presidencial conhecem tempos distintos.

Passado o pleito, as fissuras abertas no estado de espírito do brasileiro ainda não cicatrizaram. Relações familiares foram rompidas, amizades se desfizeram, batalhas nas redes digitais se intensificaram. 

Conhecida a preferência das urnas, os estados de espírito variam. Há derrotados que sofrem de melancolia e insônia, afogam-se em inquietações e lamúrias. Os mais politizados afirmam que é hora de o PT fazer autocrítica e se reinventar. Mas há quem insista que não há do que se arrepender; os acertos do partido teriam sido maiores que os erros. E há ainda os que estão convencidos de que o PT acabou, ainda que tenha elegido a maior bancada da Câmara dos Deputados e quatro governadores. 

Do lado vitorioso, o estado de espírito varia da euforia desaforada, ao fazer eco ao eleito de que é hora de passar o trator na oposição, ao receio de que o novo governo não corresponda à expectativa criada. Depositou-se o voto na caixa de Pandora sem saber o que ela contém. A democracia será aprimorada ou a censura estará de volta? A Escola sem Partido criará um clima de terror nas salas de aula? Sérgio Moro fez bem ao se deixar picar pela mosca azul? O Brasil haverá de superar a recessão, retomar o crescimento e reduzir o desemprego?

Eleitores de um e de outro têm um sentimento comum: medo. Não do mesmo tipo. O dos antibolsonaristas é o de que vândalos antipetistas aprofundem o clima de intolerância e ameacem direitos constitucionais, como a liberdade de expressão. Alguns derrotados mais aquinhoados cogitam deixar o país.

Do lado da situação, o medo é ver tamanha esperança precocemente abortada. Desavenças na equipe de governo, nomeação de políticos acusados de corrupção, atropelos entre os poderes, e dificuldade de aprovar as tão propaladas reformas. Medo de ser feliz à custa do encolhimento dos direitos civis e do espaço democrático.

A eleição deste ano representou o canto do cisne da Nova República. Ninguém sabe o que virá pela frente, nem mesmo aqueles que se preparam para governar. O programa de governo apresentado é superficial. Prefere apontar prioridades, como a reforma da Previdência, o combate ao crime organizado e o equilíbrio das contas públicas. Mas como fazê-los?, eis o dilema.

Na reforma da Previdência, haverá quem seja poupado, como os militares? No combate ao crime organizado a prioridade é prender bandidos ou erradicar as causas que favorecem o narcotráfico, o comércio ilegal de armas e as penitenciárias como centrais do crime? E na questão fiscal, mais cortes, mais contingenciamentos e privatizações ou o Estado como indutor do desenvolvimento e da criação de empregos? E como fica a prioridade das prioridades do brasileiro, o atendimento à saúde? Com a saída dos médicos de Cuba que atendiam a população mais pobre e as áreas mais remotas do país,  quem e quando serão substituídos, sobretudo nos 3.228 municípios assistidos exclusivamente pelos cubanos?

 “Não se faz omelete sem quebrar os ovos”, diz o ditado. Que ovos serão quebrados? E quem haverá de comer o omelete? É bom lembrar que, dos 208 milhões de brasileiros, mais de 100 milhões sobrevivem com menos de R$ 954 (valor do salário mínimo) por mês. Destes, 52 milhões estão abaixo da linha da pobreza, ou seja, sobrevivem com menos de R$ 547,20/mês. Isso significa que 90% dos brasileiros ganham, por mês, muito menos que o auxílio-moradia dos juízes, que é de R$ 4.378.

 Ora, o Brasil não terá futuro e o estado de espírito do brasileiro não haverá de melhorar enquanto o problema número 1 do país não for decididamente atacado: a desigualdade social. Só os cínicos e os ególatras conseguem aparentar felicidade com tanta infelicidade em volta. 

Obs: Frei Betto é escritor, autor do romance policial “Hotel Brasil” (Rocco), entre outros livros.

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