Aqui vão alguns apontamentos de caráter historiográfico acerca da base histórica (ou não histórica) de três narrativas evangélicas que compõem a ‘saga de Natal’ que celebramos nos dias de hoje: (1) o nascimento de Jesus; (2) o local de seu nascimento; (3) o massacre dos inocentes, promovido pelo Rei Herodes o Grande.

Antes de começar, lembro que tudo que se possa dizer sobre a vida histórica de Jesus tem inevitavelmente a marca da incerteza, já que nossos informantes, os evangelistas, não eram historiadores no sentido que hoje damos ao termo, mas antes narradores teológicos, ou seja, narradores imbuídos de insistentes apelos teológicos. Não sabemos ao certo onde Jesus nasceu, nem se teve irmãos (provavelmente sim), nem como se pode definir, segundo atuais critérios médicos, o que eram ao certo as muitas curas e as repetidas expulsões de demônios que ele praticou, etc. No claro-escuro entre probabilidades e incertezas há, decerto, como desenhar um perfil mais ou menos delineado de Jesus histórico. Mas é um perfil, não um ‘retrato’.

1. Acerca do nascimento de Jesus parecem ter circulado, nos primeiros tempos, duas narrativas paralelas. De um lado ele é mencionado como ‘filho de José’ (Lc 4, 22; Jo 1, 45 e 6, 42), de outro lado como nascido de uma virgem ‘por obra e graça do Sopro Santo’. Essa última tradição aparece com muito realce no primeiro capítulo do Evangelho de Mateus e no terceiro capítulo do Evangelho de Lucas, ambos redigidos por volta do ano 80, aproximadamente 50 anos após a morte de Jesus. Essas narrativas representam uma evolução já avançada de uma tradição consolidada por uma transmissão oral que é, como se sabe, muito sensível aos sabores do tempo. Há quem relaciona o paralelismo das narrativas (pai humano, pai divino) de Mateus e Lucas a uma tradição judaica, segundo a qual pessoas importantes teriam ao mesmo um pai humano e um pai divino (Lincoln, A. T., Born of a Virgin?. London, 2013).

2. Acerca do local do nascimento de Jesus existem igualmente duas tradições. Há textos que fazem crer que Jesus tenha nascido em Nazaré. No trato comum, os contemporâneos falam em ‘Jesus de Nazaré’, o que pressupõe que ele teria nascido naquela aldeia (Jo, 1, 46 e 7, 41; Mt 2, 23). Mas existe uma insistente tradição, que se expressa em pelo menos sete textos (Mt 1, 1; Lc 1, 32; At 2, 29-32; Rm 1, 3; 2Tm 2, 8; Ap 22, 16 e Hb 7, 14), que situam o local de nascimento de Jesus em Belém. Uma insistência teológica, sinal da importância que os primeiros escritores deram à imagem de ‘Jesus Ungido (em grego: Cristo)’, ou seja, à imagem de um novo Messias do tipo Davi, um ‘filho de Davi’ (lembre-se que Davi foi ungido três vezes). Eis uma das primeiras preocupações teológicas que se detectam em torno da figura de Jesus. Já faz tempo que os biblistas detectaram falhas nas ‘árvores genealógicas’ que tanto Mateus (capítulo 1) como Lucas (capítulo 3) apresentam como justificativas de uma pretensa origem davídica de Jesus. Elas são muito deficientes. Há também um fator cultural, relacionado à mentalidade da época. É possível que, no tempo de Jesus, famílias importantes tenham tido o cuidado de construir ‘árvores genealógicas’ com a intenção de comprovar alguma descendência davídica que lhes conferisse consideração. Quantas ‘árvores genealógicas’, através dos tempos e das culturas, não se baseiam nesse tipo de justificativa de grandeza?

Outro ponto: comparando as narrativas de Mateus e de Lucas se detectam várias incongruências: Mateus dá a entender que o casal José e Maria, já antes do nascimento do filho, vive em Belém, enquanto Lucas apela para um censo demográfico que teria sido organizado pelo governo central do Império e que teria ocasionado o deslocamento do casal para a cidade paterna, ou seja, Belém. Esse censo não encontra confirmação nos registros históricos do Império romano.

Tudo indica que a razão de uma localização do nascimento de Jesus em Belém esteja expressa nos versículos 4 a 6 do capítulo 2 de Mateus:

E tu, Belém, terra de Judá,

Tu não és a menor das cidades de Judá,

Pois tu darás ao meu povo Israel seu pastor

Aquele que o governará.

Esses versos são uma adaptação ligeiramente modificada de versos do profeta Miqueias alusivos ao nascimento de Davi:

E de tu, Belém Efrates

Pequena demais para ser contada entre as cidades de Judá

Sairá aquele que governará Israel (Mi 5, 1).

Com tudo isso, não se pode excluir totalmente a possibilidade de Jesus ter nascido em Belém. Afinal, não sabemos nada de certo acerca do local de nascimento de Jesus. O que sabemos é que ele nasceu entre os anos 7 e 4 aC, pois no ano 4 aC Herodes o Grande faleceu.

3. Umas breves palavras ainda sobre o ‘massacre dos inocentes’. É estranho que o historiador judeu Flávio Josefo, que descreve em detalhes numerosos atos de crueldade praticados por Herodes na época do nascimento de Jesus, não tenha uma palavra sequer sobre o massacre em Belém. Isso também fragiliza a hipótese de Jesus ter nascido em Belém.

Obs: O autor : “Nasci em Bruges, na Bélgica, no ano de 1930. Estudei línguas clássicas na universidade de Lovaina e teologia em preparação ao sacerdócio católico, entre 1951 e 1955. Em 1958 viajei ao Brasil (João Pessoa). Fui professor catedrático em história da igreja, sucessivamente nos institutos de teologia de João Pessoa (1958-1964), Recife (1964-1982), e Fortaleza (1982- 1991). Sou membro fundador da Comissão de Estudos da História da Igreja na América Latina (CEHILA), fui coordenador para o Brasil entre 1973 e 1978, responsável pelo projeto de edições populares entre 1978 e 1992, e entre 1993 e 2002 responsável pelo projeto “História do Cristianismo”. Entre 1994 e 1997 fui pesquisador visitante no mestrado de história da universidade federal da Bahia. Durante esses anos todos administrei cursos e proferi conferências em torno de temas como: história do cristianismo; história da igreja na América Latina e no Brasil; religião do povo. Atualmente estou estudando a formação do cristianismo nas suas origens, especificamente os dois primeiros séculos.”

Explicação do painel(foto)

O autor é o primeiro à direita.

“O painel do fundo, é um quadro desenhado pela Irmã Adélia Carvalho, salesiana (Filha de Maria Auxiliadora) de Recife e ‘artista da caminhada’, que tem muitos trabalhos na linha de uma Igreja libertadora e colabora em diversos programas de conscientização pela arte.
O tema do quadro pode ser descrito assim: ‘a proposta cristã na confusão do mundo em que vivemos’.“



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