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A IGREJA É CONTINUADORA DE JESUS?

Jesus foi um profeta. Denunciava a infidelidade de Seu povo a Deus, sobretudo das lideranças que o desviavam para fora do caminho. Doutro lado, anunciava a bondade de Deus, a graça e o perdão, convidando-o a mudar de vida radicalmente, para que assim tivesse a experiência do Reinado de Deus, já neste mundo. Evidentemente, denunciava os poderes opressores, em particular os chefes da religião, que se encarregavam de entregar o povo nos braços dos poderosos do sistema econômico, social e político, amparados por sua respeitabilidade e pela autoridade de que gozavam junto ao povo. Este, na verdade, é um dos grandes problemas da religião, sua capacidade incrível de enganar o povo.

Sem dúvida, depois da morte de Jesus e ao longo da história até hoje, muitas pessoas, mulheres e homens, têm permanecido fiéis a Suas ideias, sua atitudes e seu jeito de ser e de agir. Em qualquer época, Jesus tem realmente contado com gente fiel até o fim, capaz de viver sob o império das Bem-Aventuranças, movida pelo Espírito, garantia da “tradição de Jesus”. Quantas pessoas que têm tido a coragem de confessar a fé, testemunhar os valores do Evangelho, na contramão dos sistemas do mundo, chegando até a renunciar a tudo até à própria vida! Mas não são todas as pessoas que se dizem cristãs que vivem dessa maneira e as instituições da Igreja e suas lideranças nem sempre permanecem fiéis ao que Jesus mostrou em Sua vida como sendo o caminho da vontade do Pai.

A ideologia eclesiástica, porém, tem feito sempre questão de defender a ideia de que a Igreja, como a temos conhecido, está em perfeita continuidade com Jesus. Que as instituições e estruturas de organização foram diretamente fundadas por Jesus, inclusive o regime “hierárquico” e autoritário que conhecemos muito bem. Ou seja, que a Igreja como ela é e a conhecemos é fruto da vontade d’Ele. Sem dúvida, Jesus é o “fundamento” da Igreja, ela se organizou a partir dos Apóstolos e discípulos e discípulas, para levar adiante a mesma missão de Jesus. Mas as formas que a Igreja foi tomando, desde o princípio, são posteriores ao próprio Jesus. É o que constatamos claramente no Novo Testamento, como nos Atos e nas Epístolas dos Apóstolos. Jesus em Sua história de vida, de menos de quarenta anos, o que fez foi desencadear um movimento profético e insistir num novo modo de viver: em comunidade, com partilha e serviço, comunidades inclusivas nas quais todas as pessoas se sentissem iguais: “Não há judeu nem grego, nem escravo nem livre, nem civilizado nem bárbaro, nem homem nem mulher, pois sois uma só coisa em Jesus Cristo”. Por isso, particularmente as pessoas pobres e as marginalizadas se sentiam à vontade, porque readquiriam sua dignidade humana. Isso, porém, não durou muito tempo.

Dentro do próprio Novo Testamento, em textos do século primeiro de nossa era, já se percebe uma regressão em relação a Jesus, a Seus comportamentos e a Suas palavras explícitas. Gente que se sentia ameaçada e tinha medo da radicalidade do Evangelho, começava a voltar atrás, por exemplo, reassumindo categorias do patriarcalismo judaico e gentio, com prejuízo para a igualdade que Jesus tinha provocado; a comunidade vai começando a conviver com as desigualdades que marcavam a sociedade romana escravocrata; as autoridades e lideranças internas já sentiam o gosto de poder típico do que foi chamado depois de “clero” (consagrado, separado) ou “hierarquia” (poder sagrado)… para certas pessoas, viver na contramão do sistema judaico e, sobretudo, do sistema romana podia ser uma aposto muito arriscada e as exigências do começo, “do primeiro amor”, como fala o livro de Apocalipse, começavam a ser atenuadas.

A Igreja não tinha nascido como religião, mas como um movimento de uma rede de comunidades que buscava levar adiante a proposta profética de Jesus, de um novo sistema de vida, fundado no amor fraterno, igualitário e includente, aberto sobretudo aos mais pobres e excluídos pelo sistema social. Mas na altura do século IIº se tornava religião da sociedade, à imitação da religião judaica e da romana, com rituais, clero, hierarquia, doutrinas. Aos poucos foi assumindo o espiritualismo religioso que teve sua expressão radical num movimento sectário chamado de “Gnosticismo”; acolhe a ética do Estoicismo que já vinha dos gregos e tem fortes marcas de elitismo; assume o Neo-Platonismo como filosofia para formular sua maneira de pensar… vai-se adaptando à civilização urbana daquele tempo, com sua “moleza” de costumes e suas mazelas, particularmente, num sistema escravista. Nesse contexto, homens (e também mulheres) rompem com as cidades e se encaminham para viver no deserto “a vida evangélica” de pobreza, de igualdade, de comunhão com Deus, formam um “mundo” à parte, na convicção de que a Igreja estava se deixando contaminar pelos costumes do “mundo”. Foi assim que surgiu Monaquismo. Mais adiante vão surgir movimentos de reação e protesto também nas cidades, como foi o caso do Montanismo que teve como uma de suas lideranças mais célebres o importante teólogo leigo Tertuliano.

Passa mais um tempo (século III-IV) e a “nova religião cristã” entra em aliança com o Império Romano e vira elemento integrante do poder do Estado. Sob o imperador Constantino acontecem os primeiros concílios para estabelecer as doutrinas e excluir os “hereges”… Pode-se dizer que se estava em continuidade com o Profeta Jesus? Quando mais adiante cai o Império sob a avassaladora invasão dos povos do Norte da Europa, os chamados de “bárbaros”, isto é, incivilizados, pelos romanos, a única instância moral e política que restava em pé era o papado romano. Com os novos senhores, agora “convertidos” ao Cristianismo, forma-se a “Cristandade” medieval que duraria dez séculos. Nela, Igreja cristã, sociedade europeia e poder político serão uma realidade só. A Igreja se torna plenamente dimensão do Estado. Nascem as Cruzadas para abrir as vias à conquista do Oriente e deixar uma chaga que sangra até hoje nos ressentimentos dos povos islâmicos; institui-se a Inquisição para perseguir e julgar e torturar e matar os “hereges” e as lideranças femininas identificadas como “bruxas”… A Igreja cristã se transformara em poder religioso-mundano, triunfalista e clerical, confundindo-se o poder político com a esfera religiosa, pois bispos e papas eram senhores temporais, e, ao mesmo tempo, senhores feudais, príncipes e imperadores eram poder também na Igreja, pois tudo era a “Cristandade”, isto é, a Igreja. Compravam-se cargos eclesiásticos através da simonia, e as autoridades eclesiásticas eram frequentemente indicadas pelo mecanismo chamado de “investidura”.

No século XI, com o papa Gregório VII, que vinha da renovação monástica do movimento de Cluny, lança-se uma reforma para opor barreiras ao poder leigo dos príncipes e senhores “seculares”. Só que o clero, sobretudo o alto clero de bispos, cardeais e papas, permanecia com suas regalias de “senhores temporais”, com seu poder fundado em grandes propriedades e privilégios políticos. Na verdade, o poder eclesiástico era a legitimação sagrada do poder politico da Cristandade. Sobretudo desde esse século, um “movimento dos pobres” que “serpenteava” pelo chão da sociedade foi cada vez mais perseguido e ameaçado por Cruzadas e pela Inquisição, sob o risco constante da fogueira, na qual foram jogadas grandes lideranças proféticas, seja masculinas, seja femininas, sempre acusadas de “heresia” e insubordinação. Vê-se como a situação da Igreja na Idade Média era um barril de pólvora prestes a explodir. E chegou finalmente o “Dia da Reforma”.

A REFORMA ERA A FACE RELIGIOSA DA MUDANÇA DE ÉPOCA

Mas a Reforma não foi apenas um fenômeno religioso. Na verdade, foi a face religiosa de um fenômeno global, de uma mudança de época. Na verdade, como parece ter sido insinuado acima, a dimensão religiosa está sempre articulada profundamente com as diversas dimensões da sociedade. Religião, de fato, é o topo de um sistema cultural que, por sua vez, se articula com todo o conjunto social: dimensão econômica, social e política. Se falamos da fé, trata-se de outra coisa, pois esta já não é mera criação espontânea das pessoas e dos povos, como a religião, mas a decisão pessoal por um compromisso íntimo e radical com Deus, de assumir a Sua obra, o mundo, Sua criação, buscando a pessoa tornar-se cada vez mais semelhante à divindade. Costumo dizer que, na religião, nós manifestamos “gostar de Deus” (cantamos, celebramos, inventamos rituais, instituições que nos comprazem, projeção de nossa própria face, por isso toda religião tem sempre alguma dimensão de idolatria, adoramos o Deus cuja imagem projetamos, e o modelo somos sempre nós mesmos…). Na fé nós nos comprometemos a “tornar-nos semelhantes a Deus”, compromisso que já está em nossas próprias raízes, pois os seres humanos fomos feitos à imagem de Deus, conforme Gênesis. O que já não é projetar deuses à imagem de nós (religião), mas levar adiante na vida a imagem que Deus mesmo projetou em nós.

A “explosão” religiosa da Reforma acontece numa época histórica em que surge o que veio a chamar-se de burguesia. Uma nova classe social, associada ao comércio e ao renascimento das cidades que já vinha desde o século XII. Fora dos muros dos feudos, vão-se constituindo os “burgos”, mais autônomos e contando com as feiras que abriam novos contatos e horizontes. Esse condicionamento vai ser decisivo para a constituição da consciência de “indivíduo” em meio a uma sociedade ainda corporativa e sem chance de ascensão social. O destino era marcado pelo nascimento “nobre” ou “plebeu”. A pessoa pertencia a um grupo e com ele se identificava. Diferentemente, sentir-se indivíduo era sentir-se constituído em si mesmo como ser distinto e aberto ao futuro na sociedade.

Nesse mesmo período, vai surgindo a consciência de nação. Feudos se reúnem por região geográfica e dialetos aparentados se preparam para chegar a uma língua nacional. O Sacro Império Romano Germânico, legitimado pela suprema autoridade papal, ao lado da autoridade do imperador, começa a desmembrar-se. Em Alemanha, Suíça e Inglaterra se fortalece a consciência de nação. É claro que a autoridade superior do papa vai perdendo força. O sentimento de desamparo e angústia cresce na população: guerras frequentes e longas, peste e graves doenças, a incerteza dos tempos, agravada pela incipiente consciência de “indivíduo”, as chamas da fogueira e as torturas da Inquisição, tudo isso alimenta a preocupação acerca da incerteza da salvação. O século XIV parece ter sido particularmente de tenebrosas sombras.

A Reforma refletia esse clima, pois a nova consciência social necessitava de nova expressão cultural e religiosa. O diálogo com os que Lutero chamava de “os papistas” tonou-se impossível. O papa mesmo nunca se dignou recebê-lo ou teve esse caminho impedido. As próprias categorias de pensamento eram antagônicas: o método da Escolástica, dedutivo, abstrato e até mesmo autoritário e dogmático se chocava com a linguagem existencial, histórica e dialética de Lutero. O diálogo se tornou impossível e o resultado é que a “Cristandade” de dividiu. Dividiu-se o poder no interior da Cristandade (príncipes católicos e príncipes protestantes) e a Igreja se dividiu.

LUTERO

Foi um gênio da humanidade, uma dessas personalidades raras. Um grande mestre e um grande cristão. Por sua própria grandeza, era personalidade paradoxal. Como todo ser humano genial, não podia caber em si e nos surpreende pela complexidade de suas atitudes e de seus comportamentos. Nele se reflete, como em espelho, a complexa e decisiva transição do mundo de seu tempo, com suas contradições. Era um homem da Idade Média, intrinsecamente religioso, e mesmo angustiado com a própria salvação; um piedoso monge que, no entanto, não foi capaz de se submeter e obedecer; um teólogo, pensador, portanto, e, ao mesmo tempo, líder político; amava as Escrituras hebraicas e as estudava e ensinava e, ao mesmo tempo, detestava os judeus e os detratou duramente em seus escritos; era expressão do novo sujeito histórico, a burguesia, e, mesmo assim, selou aliança com a nobreza alemã, até por razões de sobrevivência. Pretendeu ir ao encontro dos anseios do movimento popular, mas surpreendeu-se com o radicalismo do movimento revolucionário dos camponeses. Rebelou-se contra o papado e contra o sistema feudal estabelecido, mas aconselhou os príncipes a matar os camponeses rebelados; Era radical em tudo o que fazia e em tudo o que dizia, xingava adversários e arriscava perigosamente a vida, mas suficientemente sistemático a ponto de empreender a tradução da Bíblia para uma língua, o alemão, que ele mesmo criou, a partir dos vários dialetos populares da região, que escutava ou mandava escutar até nas feiras e aglomerações populares. Sua personalidade paradoxal se manifestava em seu próprio modo dialético de pensar e de falar: “justo e pecador”, “graça e obras”, rebeldia e volta às fontes primitivas, rebelião e unidade… Insistiu enfaticamente na unidade da Igreja, ameaçou quem ousava dividi-la e, no entanto, foi o pivô de sua divisão…

Na verdade, a História não é simplesmente causada por pessoas, mas passa necessariamente por elas e, em certos momentos mais graves, como que necessita delas. Há pessoas que como que captam as ondas do tempo que passam e são capazes de expressá-las e leva-las à prática. Assim se dá com profetas e profetisas, santos e santas, líderes políticos… mas também com grandes criminosos, como Hitler, por exemplo.

PROMOVER A UNIDADE É CONSUMAR A REFORMA

A ruptura foi penosa e sangra até hoje. É pena, pois, na verdade, em meio a toda a conturbação, a Reforma era a redescoberta de valores que vinham da antiga tradição católica, desde a Igreja primitiva: a salvação por graça e fé, da qual decorrem as boas obras, “não por obras, mas para obras” (há alguns anos atrás a tradição católica e a luterana e mesmo a metodista chegar ao “Acordo sobre a Doutrina da Justificação”, infelizmente, só depois de tantos séculos, se reconhece que se pensava a mesma coisa); a principalidade das Escrituras como norma divina da vida da Igreja, guiada pela luz do Espírito Santo que as atualiza na vida dos crentes; a relação profunda entre as Escrituras e a “sacramentalidade” da vida comunitária da Igreja; a comunidade primitiva como modelo da vida cristã; o povo cristão como a base sobre a qual repousa a Igreja, não definida como “hierárquia” (poder sagrado), mas como comunidades articuladas em povo de Deus; o sacerdócio comum do povo cristão; a Igreja católica (universal) enquanto igrejas locais, realizando nelas as notas características da Igreja de Cristo: unidade, santidade, catolicidade e apostolicidade, uma vez que cada Igreja por pequena que seja busque vivenciar, celebre e anuncie o mistério da salvação que Deus está a operar de muitas maneiras no universo inteiro (Igreja invisível); proclamar “ecclesia reformata semper reformanda” (a Igreja reformada sempre deve ser reformada) nada mais era que a mesma verdade enunciada pelos antigos Pais da Igreja: “Ecclesia, casta meretrix” (a Igreja é uma casta meretriz), o que autoriza ao povo cristão a possibilidade de criticar doutrinas, instituições, costumes e práticas com liberdade e por motivos de amor.

O fenômeno da Reforma mostra claramente que a Igreja está profundamente implicada na sociedade, atua sobre ela e, ao mesmo tempo, dela recebe muito de sua forma, de seu modo de ser e de suas instituições, ou seja, há um entrelaçamento permanente entre Igreja e sistema vigente na sociedade, havendo sempre necessariamente assimilação ou resistência. De tal forma que a relevância da Igreja, de um modo ou de outro, tem a ver com sua íntima relação com a sociedade e o sistema social estabelecido: ou proclama profeticamente o juízo de Deus sobre o mundo ou escolhe ser conivente com o “pecado do mundo”.

Hoje, é urgente que a Igreja empreenda um retorno às fontes de sua fé e, assim, se volte para sua missão essencial: ser proclamadora e, ao mesmo tempo, ensaio concreto do Reino de Deus. Para isso se exige que ela se volte firmemente para o Evangelho: conversão pessoal a novo estilo de vida, vida comunitária que testemunhe a fé e o jeito de Jesus: missão voltada à renovação da sociedade; dar testemunho da graça eficaz do Evangelho na vida; estimular relação dialógica e entre as várias formas e os vários ramos da Igreja (macro-ecumenismo); tornar possível a abertura ao povo, sobretudo aos pobres, em sua grande diversidade, inclusive religiosa, pois o foco são as questões da vida, não as da religião; seu método tem de caracterizar-se por escutar a realidade e a diversidade dos sujeitos, por discernir e pela prática no agir, como enfatiza o Papa Francisco.

Finalmente, se a Reforma, nas condições do século XVI, embora sem o desejar, provocou a divisão da Igreja no Ocidente, hoje, por paradoxal que pareça, é a unidade o que torna possível a consumação da Reforma. Sim, o que se queria não era a divisão, mas a reforma da Igreja. E o movimento na direção da unidade se orienta tendo como foco central o POVO e as grandes questões da vida, hoje, particularmente, os desafios do Bem-Viver, do Cuidado com a Vida e a Casa Comum, afinal, o cuidado com o mundo que nos foi dado de presente pela criação de Deus.

Obs: O Autor é Bispo Emérito da Diocese Anglicana do Recife
Igreja Episcopal Anglicana do Brasil – IEAB….

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