Dasilva 15 de outubro de 2018

1. Um amigo me disse: não tive tempo de ficar velho, quando notei, já tinha 70 anos. Talvez a pessoa viveu tão intensamente que não viu a vida passar ou, então, deixou que a vida o levasse. No ocidente, diferente da Ásia, a ancianidade vem acompanhada do medo de ser descartável ou ante-sala do fim. A aposentadoria para alguns se abre como um tempo de lazer e, para a maioria, a continuidade e aumento de uma vida de sofrimento.

2. Um petroleiro aposentado, ao apresentar-se dizia sorrindo: “meu nome é Jaque”. Em casa ou na rua ou diante de diversas tarefas, as pessoas olhavam pra ele e diziam: “já que você não trabalha”, “já que você não faz nada”, “já que você tem tempo”… que tal assumir essa tarefa? Aposentar, na origem da palavra, significa pausa para descansar. Mas, na história, aposentar já significou saquear a propriedade alheia e aboletar-se em seus aposentos.

3. Quando alguém se aposenta é comum escutar: “agora, é só sombra e água fresca ”, “cansado de não fazer nada, né”. Não sabem eles que, de 88,9 milhões de assalariados, 44 milhões, no Brasil, recebem em média, R$ 747 por mês, mas 889.000 recebem cerca de R$ 27 mil por mês (PNAD/2016). Talvez seja esse disparate que cria nos pobres a fantasia da aposentadoria como descanso, folga, lazer, viagens… privilégio da casa grande.

4. O grupo de 1% que ganha 360 vezes mais que os menores salários, alimenta a fantasia da senzala que aposentar-se é um pedaço do paraíso. Não sabe a massa trabalhadora que o capital já reformou a lei trabalhista e se prepara para abocanhar a seguridade social. Assim, a situação volta ao começo, quando a aposentadoria era auxílio para quem se gastou no trabalho e não tinha como viver. Era uma caridade para quem virou inativo, um ser improdutivo.

5. O povo diz, com razão, que “se soubesse quem inventou o trabalho, acabava com ele”. De fato, tripallium (trabalho) nada tem de criativo, digno, prazeroso: é antes um tríplice instrumento de tortura; também a aposentadoria não é um mar de rosas, é quase castigo. Aposentar-se que seria um tempo para usufruir um direito que já se pagou a vida inteira, repete o horror e a fuga daquilo que sempre foi um castigo extenuante e sem luz no fim do túnel.

6. Sem tempo de ócio, o povo confunde emprego com trabalho. Não sabe mais que no trabalho, a pessoa domina o processo de produção e usufrui os frutos do seu labor. O emprego aliena o sujeito de sua obra, troca por um salário que mal paga sua força de trabalho – o patrão é que se apropria do principal. O desafio é tornar descanso, a aposentadoria, nessa volta dos humanos à arte de transformar o mundo e junto construir a si próprio feliz. 

7. Marcado pela injustiça e continuando na lida para criar netos e pagar remédios, o aposentado dificilmente vai curtir a nova vida. Poucos terão tranquilidade para fazer do seu trabalho o seu prazer. Seria ilusão pedir que escolha a ocupação que o realize, que tenha um hobby, que passeie, que se divirta? Bonito seria saudá-lo assim: Não tenha medo “véio”, Viva! Porque se vives o fim ainda não veio e quando ele chegar, tu já não estarás! outubro/2018

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Este texto expressa exclusivamente a opinião do autor e foi publicado da forma como foi recebido, sem alterações pela equipe do Entrelaços.


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