Certa vez, Helder Câmara me chamou à parte e me disse: ‘Não esqueça que já me deixei seduzir pelo fascismo’. Essa franca confissão, por parte do próprio bispo, acerca de um período de sua vida (entre 1931 e 1938) faz com que eu possa aqui abordar o tema espinhoso de sua ‘ilusão fascista’ sem medo de depreciar sua memória.

1. Em agosto 1931, Helder Câmara é ordenado sacerdote. O único, entre os ordenados, a não ser designado para trabalhar em paróquia. (Pelo que me consta, ele nunca trabalhou em paróquia, ao longo da vida). Isso quer dizer que seus superiores nele enxergam uma inclinação por um tipo de apostolado sacerdotal que não se circunscreva ao âmbito estritamente religioso, mas incida diretamente sobre as estruturas da sociedade.

No ano anterior, dois novos líderes aparecem no cenário político brasileiro: Getúlio Vargas (1930-1945) e Sebastião Leme (1930-1942), respectivamente na qualidade de Presidente da República e de Cardeal Arcebispo no Rio de Janeiro, Capital da República. O primeiro é herdeiro da ideologia da ‘República Velha’ de 1889, baseada na ideia da ‘separação dos poderes’ e dos primeiros passos, cambaleantes, no sentido de uma governança leiga. O segundo é um líder religioso convencido, representante de uma sólida estrutura de domínio sobre a sociedade, testada pelos séculos. Os dois ficam, ao longo de doze anos, se espreitando, desconfiam um do outro, se aproximam e se distanciam, num jogo de poder que não dispensa espionagens e inconfidências, como demonstram os biógrafos. Mas o Cardeal tem uma carta na manga que o Presidente não tem: ele é capaz de botar multidões na rua. Assim, por exemplo, organiza, em final de 1931, uma grande procissão que percorre as principais ruas da capital para acolher a imagem de Nossa Senhora Aparecida, vinda do interior de São Paulo para receber sua ‘consagração’ na Capital da República. Um enorme sucesso. Mais de um milhão de pessoas reunidas em torno da imagem da Santa. O Cardeal não perde a oportunidade para, na cerimônia final, no palanque, desafiar o líder do governo, Ele diz: ‘ou o Estado reconhece o Deus do povo, ou o povo não reconhecerá o Estado’. E ainda, no mesmo tom: ‘o nome de Deus está cristalizado na alma do povo brasileira’, deixando implícito o seguinte pensamento: quem controla a alma do povo somos nós, os bispos. O Cardeal, logo depois dessa fala, lança o projeto de uma ‘Liga Eleitoral Católica’ (LEC), uma organização suprapartidária com o intuito de promover e defender os ‘valores católicos’ na sociedade, ou seja, de combater o ‘laicismo’ da República e reinstalar a tradicional ‘obediência’ católica no país, o que significa, concretamente, um ensino controlado direta ou indiretamente pela igreja, aulas de catecismo disfarçadas de aulas de religião, nas escolas públicas, a criação de universidades católicas (as PUCs: Pontifícios Universidades Católicas), de círculos operários, de uma legislação pública de acordo com a moral católica, da preservação dos bons costumes, etc.

2. Nisso se infiltra, inesperada e inadvertidamente, a ideia fascista. Nada, nas tendências políticas brasileiras do século XIX, sinaliza seu aparecimento, embora seus ditames encontrem ressonância na longa tradição católica. Penso que se pode dizer que a sedução fascista, num país como o Brasil, só se compreende a partir dessa ressonância ‘de longa duração’, ou seja, da concordância em determinados paradigmas cultivados durante longos séculos no seio da igreja católica.

Mesmo assim, a introdução do fascismo no Brasil tem algumas particularidades que merecem ser destacadas. O talentoso escritor Plínio Salgado (1895-1975), que é ao mesmo tempo político, jornalista, teólogo e filósofo, de tendências messiânicas e forte desejo de aparecer em cena pública brasileira, mas cheio de dúvidas quanto ao seu engajamento concreto, viaja à Itália e lá se encontra com o líder fascista Benito Mussolini. Escreve na oportunidade: ‘senti um fogo sagrado queimar em minha alma’. Ele se convence que a via política, enveredada com tanto sucesso na Alemanha com Hitler e na Itália com Mussolini, constitui uma ‘ponte para o futuro’ no Brasil. Resolve criar a Ação Integralista Brasileira (AIB). Na oportunidade, ele não é o único para elogiar a personalidade de Mussolini, pois em 1926 o próprio Papa Pio XI elogia Mussolini, um homem ‘que governa com tanta energia o destino do país, que pratica a justiça’ etc. (veja Google, verbete Pio XI). Enfim, nas palavras do papa, Mussolini aparece como o ‘salvador da pátria italiana’.

Será que Plínio Salgado, em 1932, se considera ‘salvador da pátria brasileira’? A originalidade de sua experiência peculiar de fascismo consiste no fato de ele não se basear unicamente nos focos de fascismo já existentes entre imigrantes alemães e italianos no Sul do Brasil, mas no fato de englobar, não sem originalidade e criatividade artística, símbolos de forte apelo ao imaginário brasileiro em geral, como o ‘retorno à autenticidade indígena’. Nesse sentido, ele transforma o grito ‘Anaué’ (‘presente’), da língua tupi, em palavra de ordem nas reuniões de militantes fascistas pelo Brasil afora. Outrossim, a viagem à Europa lhe ensinou a arte de apelar para simbolismos e gestos marcantes, que na Alemanha de Hitler e na Itália de Mussolini têm grande sucesso entre a juventude, de alimentar o gosto por paradas espetaculares, insistir no apelo moralista, aprimorar a educação física, usar uniformes (as ‘camisas verdes’) e braçadeiras pretas com a letra grega ‘sigma’ (símbolo do integralismo). Muitos jovens ingressam por gosto pela disciplina militar, por paradas nas ruas, por ostentar uniformes, participar de eventos esportivos e acampamentos.

Em seu livro ‘A anatomia do Fascismo’ (Paz & Terra, São Paulo, 2007), o historiador norte-americano Robert Paxtin escreve que ‘na América Latina, o movimento mais aproximado com o fascismo europeu foi a Ação Integralista Brasileira (AIB). Os integralistas superaram de muito os clubes nazistas e fascistas, espalhados entre imigrantes alemães e italianos pelo Brasil. Salgado conseguiu com sucesso aliar um imaginário brasileiro histórico. Em 1934, o integralismo brasileiro chegou ao pique de 180.000 membros, alguns deles proeminentes em profissões liberais, empresariais e militares’. Com habilidade, Plínio Salgado introduz na AIB aspectos marcadamente fascistas, como ditadura, nacionalismo, protecionismo, corporativismo, anti-semitismo. Ele alimenta um forte apelo religioso e nisso suscita interesse na LEC, onde atuam figuras emblemáticas de um novo catolicismo leigo, encorajado pelo Cardeal Leme, como Jackson de Figueiredo (fundador do Centro Dom Vital, no Rio de Janeiro), Alceu de Amoroso Lima (com quem Helder Câmara mantém correspondência desde os tempos do seminário), Plínio Correia de Oliveira, uma liderança proveniente das Congregações Marianas de São Paulo, que em 1932 se torna o deputado federal mais votado em São Paulo e nos anos 1960 fundará o movimento ‘Família, Tradição e Propriedade’ (TFP), e outros.

3. Antes de continuar a narrativa, e para ser justo com a memória de Helder Câmara, há de se fazer aqui uma observação importante. Não se pode projetar para os anos 1930 no Brasil a ideia do fascismo que veio a predominar, no mundo inteiro, após os terríveis anos 1940-1945, ou seja, após a Segunda Guerra Mundial. Seria interpretar dados históricos a partir de contextos posteriores, ou seja, praticar um anacronismo. Em 1930, o fascismo se apresenta como um movimento que, ao combater ao mesmo tempo o comunismo e o liberalismo burguês, ganha a simpatia de muitos. Um movimento de redenção moral, atrativo à juventude, mesmo sendo de cunho autoritário. Quando, no ano 1931, Helder aparece em cena política, a ‘sedução fascista’ é compartilhada pela maioria dos agentes católicos do país, desde o Cardeal Leme no Rio de Janeiro até leigos comprometidos, em paróquias situadas nos mais afastados rincões do país. Há de se considerar também, para ser justo com a memória de Helder Câmara, que o jovem padre faz, desde sua aparição em cena pública, uma decidida opção pela educação e nisso persevera a vida toda. Ao longo de muitos anos, até sua nomeação de bispo auxiliar no Rio de Janeiro, ele permanece atuando em área educacional, seja diretamente como professor e conferencista, seja indiretamente no aparelho burocrático ligado ao Ministério da Educação na Capital da República.

4. Feita essa ressalva, acompanhemos o jovem sacerdote que, aos 23 anos incompletos, mergulha de vez no turbulento cenário político do Ceará. Ele já carrega na bagagem, desde seus últimos anos no seminário, a experiência de viajar pelas paróquias à procura de adesões à Liga Eleitoral Católica (LEC). Uma experiência que colabora com o sucesso da LEC no Ceará, onde em 1934 ela consegue emplacar Menezes Pimentel como Governador. Saindo do seminário, num tempo recorde, Helder reorganiza a Juventude Operária Católica (JOC), funda a Liga dos Professores Católicos, assim como um Sindicato para operárias e empregadas domésticas.

Essas atividades o colocam em contato com o fascismo. Quando, de visita a Fortaleza, Plínio Salgado se encontra com Helder, ele se declara ‘vivamente impressionado pela personalidade’ do jovem sacerdote. Será que nele vislumbra o que mais falta à sua ‘Ação Integralista’, ou seja, um líder carismático? Plínio sabe que, afinal, o fascismo está dando certo na Alemanha e na Itália por ser liderado por figuras carismáticas, o que não acontece na França. Eis o sacerdote embrulhado num jogo da qual ninguém é capaz de medir o alcance. Ele percebe a mútua atração entre a LEC e a AIB de Plínio Salgado e compara o que acontece no Brasil com o que está em marcha na Itália, onde a hierarquia católica flerta com o fascismo de Mussolini. Não lhe escapa que os fascistas oferecem ao catolicismo oportunidades inesperadas: o apoio das massas, jovens entusiasmados e disciplinados, uma forte motivação, uma disciplina rígida, uma fórmula mágica para afastar os trabalhadores do marxismo e superar a desordem. Como escreve Paxton, ‘os fascistas oferecem uma nova receita de governo, contando com o apoio popular, sem implicar numa divisão do poder com a esquerda, e sem representar qualquer ameaça aos privilégios sociais e econômicos e ao domínio político dos conservadores. Eles não ameaçam a classe conservadora do Brasil, que sempre teve em mãos as chaves do poder’. Enfim, como ressalta o mesmo Paxton, ‘o fascismo pode ser definido como uma forma de comportamento político marcada por uma preocupação obsessiva com a decadência e a humilhação da comunidade, vista como vítima, e por cultos compensatórios da unidade, da energia e da pureza, nas quais um partido de base popular formado por militantes nacionalistas engajados, operando em cooperação desconfortável, mas eficaz com as elites tradicionais, repudia as liberdades democráticas e passa a perseguir objetivos de limpeza étnica e expansão externa por meio de uma violência redentora e sem estar submetido a restrições éticas ou legais de qualquer natureza’.

5. O historiador cearense João Alfredo de Sousa Montenegro, em seu livro ‘O Integralismo no Ceará’ (Fortaleza, Imprensa Oficial do Ceará, 1986), descreve de modo pormenorizado a atuação de Helder Câmara no movimento fascista em Fortaleza. Ele o mostra ardoroso, dinâmico, excelente orador, bom escritor, hábil articulador, principalmente muito motivado e decidido de defender o fascismo ‘acima de pau e pedra’. Num artigo publicado no Jornal ‘O Nordeste’ (da propriedade da Arquidiocese) em 4 de setembro de 1934, intitulado ‘O Integralismo em face do Catolicismo’, Helder escreve: o nacionalismo orgânico das pátrias totalitárias (leia: Alemanha de Hitler e Itália de Mussolini) é o sentido novo do século (Montenegro, p. 170). Ele considera o encontro entre catolicismo e integralismo ‘providencial’ e fundamenta suas opiniões no verdadeiro intelectualismo tomista. O ideal integralista destaca-se, no conjunto secular dos sistemas, pela dose elevada de dados construtivos (Montenegro, ibidem). Enfim, o padre Helder vê o Integralismo plenamente compatibilizado com o catolicismo. É a única força capaz de combater eficientemente o marxismo, fruto de um projeto determinista. O impetuoso sacerdote chega a justificar a violência, embora em termos meio crípticos: a violência integralista traduz a luta interior profunda e purificadora com que nós temos de violentar. Nós somos os primeiros grandes violentados pelo nosso ideal. Violentos também seremos, não o negamos, contra os inimigos da pátria e os inimigos de Deus, mas quem lê os nossos escritos e conhece nossas doutrinas, sabe que tudo subordinamos à moral (Montenegro, p. 173). O próprio sacerdote, em bilhetes dirigidos a companheiros na lida fascista, se subscreve como sacerdote camisa-verde do Ceará. Efetivamente, veste a camisa verde em baixo da batina, o que não deixa de ser altamente simbólico. Significa a adesão ao princípio da uniformidade, do alinhamento autoritário a um pensamento único, da concordância, do corporativismo, da unanimidade e da obediência. No caderno fotográfico inserido na biografia de Helder Câmara redigida por Piletti & Praxedes, (‘Dom Hélder Câmara, Entre o Poder e a Profecia’, Atica, São Paulo, 1997), há uma foto significativa (embora tecnicamente deficiente) de Helder discursando, de braços levantados, diante de militantes integralistas em pé.

Se os gestos e as palavras de Helder hoje nos parecem exagerados e suas atitudes provocativas, não podemos esquecer que ele, no fundo, está em sintonia com o grupo de leigos católicos do Rio de Janeiro, convertidos pelo Cardeal Leme, como Jackson de Figueiredo (fundador do Centro Dom Vital e da revista ‘A Ordem’), Farias Brito, Alceu Amoroso Lima (empresário convertido em 1928) e Plínio Correia de Oliveira. Mesmo alguns líderes negros, como Abdias do Nascimento e João Cândido, se sentem atraídos pela LEC e pela AIB. O Centro Dom Vital exerce grande influência sobre o grupo de jovens idealistas de Fortaleza, como Jeová Mota, Ubirajara Índio do Ceará, Severino Sombra e Helder Câmara. Os dois últimos lideram o grupo, imitam o modo de trabalhar do referido Centro, escrevem artigos para ‘O Nordeste’, o jornal católico de Fortaleza e para outros jornais. Eles chegam a lançar uma revista, intitulado ‘Bandeirantes’, bem mais dinâmico e irrequieto que ‘A Ordem’, sua congênere carioca.

O Presidente Getúlio Vargas, embora demonstre simpatias pela AIB e pelo fascismo europeu, não se compromete e fica distante, avesso e ao caráter provocativo de demonstrações militarizadas na rua e do Integralismo em geral. Mas não se pode negar que, nos inícios dos anos 1930, se instala no Brasil um movimento expressivo, potencialmente explosivo por ser de caráter autoritário, em diversos pontos idêntico a igreja católica, ansioso por alcançar um poder hegemônico sobre a sociedade, habitado pela ilusão de se pensar que sua tarefa consiste em defender, com garras e dentes, o ideal de uma sociedade teocrática.

Em 1934, o ano da nova Constituição brasileira, a LEC se torna partido político no Ceará (é o único estado da Confederação onde isso acontece). Nas eleições de outubro 1934, a LEC supera PSD (Partido Social Democrático) e consegue emplacar Menezes Pimentel como Governador. Nisso ajudam bastante posturas provocativas expressas por jornalistas improvisados como Helder Câmara, que não receiam em usar expressões como ‘exigências católicas’, ‘reivindicações católicas’, ‘imperativos do Partido de Deus’, ‘ofensivas contra o laicismo do Estado brasileiro’, que defendem o ensino religioso (leia: catequese) nas escolas públicas e que combatem ao mesmo tempo o liberalismo, a democracia, o comunismo, o espiritismo e o protestantismo. Por meio da LEC, a bandeira fascista passa para mãos católicas. Exemplos: o padre Helder promove a aproximação entre a Juventude Operária Católica (a JOC) e a Legião Cearense do Trabalho, capitaneada pelo amigo Severino Sombra e faz com que ambos os movimentos se tornem vertentes da Ação Integralista Brasileira no setor da Juventude. O padre Helder leva igualmente o ‘Movimento da Sindicalização Operária Católica Feminina’, por ele fundado em julho 1933 com o objetivo de reunir e defender os direitos das lavadeiras, engomadeiras, domésticas, cozinheiras, amas e copeiras da cidade, para a AIB, mesmo sob a acusação de ‘despertar o rancor entre patroas e empregadas’ e se prestar à ‘autopromoção e exibição pessoal do jovem padre, as custas das operárias’ (Piletti, p. 84)

As atividades do padre Helder chegam a um paroxismo no ano 1935. Ele é nomeado Diretor da Instrução Pública no Ceará, um dos postos mais altos do Governo, no momento em que o Governador Menezes Pimentel dá sinais de se distanciar dos posicionamentos da Ação Integralista. Como Getúlio Vargas na Capital, Pimentel teme manifestações públicas de cunho provocativo e ostentações militarizadas nas ruas. Sentindo a pressão por parte do Governo, Helder, após cinco meses no cargo, pede demissão. Nisso certamente colaborou um vago sentimento que o Arcebispo Dom Manuel não o apoia mais como antes. Além disso, correm boatos sobre um pretenso caso de namoro seu. Tudo isso faz com que, no segundo semestre de 1935, Helder entre no que Piletti chama ‘inferno astral’ (Piletti, p. 115).

6. Efetivamente, aos 27 anos, uma crise afeta o jovem padre. Ele percebe que seu impulso o levou longe demais e que ele corre o perigo de entrar numa ‘espiral da violência’, uma evolução que mais tarde condenará com muita insistência. Ele sente o contraste entre os quatro primeiros anos de sacerdócio e a ‘Regra de Vida’, acalentada em tempos de seminário, percebe que é relativamente fácil formular proposições generosas, mas que o problema consiste em agir dentro do complexo entrelaçamento de influências, de fios entremeados, que ele não sabe desfiar. Só muito mais tarde, ele será capaz de avaliar o real funcionamento das estruturas, tanto seculares como religiosas, em que está metido. Só pouco tempo antes de morrer, ele faz uma surpreendente avaliação acerca da igreja católica, quando confidencia a um grupo de amigos que em sua opinião a igreja está atrelada à engrenagem internacional do dinheiro e não vai poder livrar-se dele (depoimento de Sebastião Armando Gameleira em Félix Filho, ‘Além das ideias’, Companhia Editora de Pernambuco, Recife, 2012, p. 19). Na mesma oportunidade, ele comenta o fato que o Papa João Paulo II, ao visitar o Brasil em 1982, se deixa acompanhar por Monsenhor Marcinkus, diretor do Banco do Vaticano, metido em processos de corrupção e diz: quando se é beneficiado dessa maneira, fica-se de mãos atadas (ibidem, p. 18). Não posso me imaginar o jovem padre Helder, em 1936, dizendo coisas desse tipo. Metido num sistema marcado pelo autoritarismo de uma hierarquia rigidamente organizada (‘a igreja não é uma democracia’), tendo de lidar com políticos que não dizem o que pensam e fazem o que não dizem, ele mesmo sem saber ao certo como enveredar num caminho de melhoria para a maioria da população, Helder se sente inseguro. Percebe vagamente a ambiguidade com que se recorre ao termo ‘comunista’ para conquistar espaço político e, de outro lado, vislumbra a permanência cruel e mortífero do sistema escravagista, camuflada por expressões como ‘bondade’, ‘cordialidade’ e ‘aversão à violência’, pretensamente atributos das classes dirigentes do país. Lembro aqui que o livro ‘Raízes do Brasil’, de Sérgio Buarque de Holanda (1902-1982), em que se apresenta o modelo do ‘homem cordial’, sai em 1936, exatamente no ano da crise de Helder. Não sei se naquele tempo ressoam ao seu ouvido as seguintes palavras de Joaquim Nabuco, contrárias às teses de Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Holanda: ‘diz-se que, entre nós, os senhores são bons. Acontece que a bondade dos senhores não passa de resignação por parte dos escravos’. Não há, naqueles anos, menção de reflexões, por parte do padre Helder, em torno da questão crucial da escravidão persistente no Brasil. Só em 1955, desafiado pelo Cardeal francês Gerlier, o então bispo auxiliar do Rio de Janeiro conseguirá finalmente segurar uma ‘bússola’ na mão e saberá ‘onde está o Norte’. Mas isso é uma outra história.

7. Voltemos à cena cearense. Ao participar de manifestações provocativas, por parte da Ação Integralista Brasileira, contra as reticências do governador e do arcebispo, Helder percebe que coloca esse último numa virtual rota de colisão com Dom Leme, o Cardeal no Rio de Janeiro, que proíbe os padres a se meter em política. Ele entrevê, inclusive, problemas com o Núncio Apostólico. Diante disso examina, por conta própria (e com a silenciosa aquiescência do arcebispo), as possibilidades de sair do Ceará e conseguir, junto a amigos, um emprego na área da Educação no Rio de Janeiro, na época Capital da República. Resolve apelar para Manuel Lourenço Filho (1897-1970), que trabalha no Ministério da Educação no Rio de Janeiro após uma breve mais significativa atuação no campo da educação pública em terras cearenses. Proveniente do Estado de São Paulo e expoente da ‘Escola Nova’, com Fernando de Azevedo e Anísio Teixeira, ele faz parte de uma vanguarda de educadores que milita contra a elitização da inteligência, a favor das classes populares e do ensino secular. Com isso, entra inevitavelmente em rota de colisão com a ‘escola tradicional’, de cunho religioso, defendida pela igreja católica. Em 1922, Lourenço Filho aceita um convite por parte do governo cearense e, aos 25 anos, se torna Diretor da Instrução Pública no Ceará, função em que permanece apenas dois anos, o tempo suficiente para promover em todo o estado uma educação pública de qualidade (até hoje existe o ‘Colégio Lourenço Filho’ em Fortaleza), uma experiência que repercute em todo o Brasil e mesmo fora dele. Em diversas ocasiões, Helder hostiliza o posicionamento assumido por Lourenço Filho, mas, mesmo assim, estando em apuros, apela para ele e lhe solicita falar com o Ministro de Educação do Governo Vargas, o católico Gustavo Capanema (1900-1985), para ver se ele consegue uma colocação na área da educação no Rio de Janeiro. É com grandeza e numa demonstração de maturidade que Lourenço Filho atende a um pedido de seu sucessor no cargo de Diretor da Instrução Pública no Ceará, Helder Câmara, que lhe deposita inteira confiança, com comprova o seguinte telegrama por ele enviado e que está publicado na biografia de Piletti: Exultaria amigo conseguisse Capanema margem colaborar instituto ou ministério. Solicitaria convite seu possa mostrar mover arcebispo (Piletti p. 117).

8. Lourenço Filho ‘salva’ Helder Câmara, que consegue o que pede e viaja para o Rio de Janeiro. Não se pense, contudo, que ele largue de vez o ideal fascista. Nem ele, nem a maioria dos militantes católicos da época. Ainda em fevereiro 1937, por ocasião de um debate durante a VI Conferência Nacional de Educação, promovida, na cidade de Fortaleza, pela Associação Brasileira de Educação (ABE), ele faz um apelo dramático a seus correligionários da Confederação Católica de Educação, para que, com ele, se retirem do recinto. Tal gesto, que deixa vazio o auditório naquela noite, se deve à inutilidade dos esforços seus e de seus pares para influírem nas conclusões daquele evento, em face do posicionamento de seus promotores, partidários da Escola Nova e defensores da escola pública, obrigatória, gratuita e laica, um posicionamento contrário à orientação da igreja católica. O padre Helder é intransigente e afirma sem mais nem menos que a ‘Escola Nova’ retira a educação das mãos da família, destruindo, assim, o princípio da liberdade do ensino (Rocha, Zildo, A Dimensão sócio-política da religião na vida e na obra de Dom Helder Câmara, Palestra na Câmara Municipal de Olinda em Sessão póstuma de Homenagem a Dom Helder e publicada na terceira edição de um livro do mesmo autor, intitulado ‘Helder, o Dom, uma vida que marcou os rumos da Igreja no Brasil’, Vozes, Petrópolis, 1999). Zildo Rocha acrescenta: ‘causa-nos espanto o episódio da surra infligida, ainda por ocasião daquela VI Conferência Nacional (da Educação, veja acima), ao escolanovista Edgar Sussekind de Mendonça, por um grupo de jovens integralistas, comandados pelo próprio Padre Helder, que ostentava por baixo da batina preta, entreaberta ao peito, a camisa verde integralista, em desagravo por um insulto e um desafio feitos durante um dos debates’ (ibidem).

Ao deixar Fortaleza, Helder continua sintonizado com uma hierarquia católica que acompanha com simpatia as vitórias de Hitler na Europa, como consta na manchete do Jornal A Razão (do Rio de Janeiro) de 15 de março de 1938: ‘Um povo, um reich, um führer. A entrada triunfal de Hitler em Viena. O Cardeal Arcebispo manda celebrar missas em ação de graça pela reincorporação incruenta da Áustria à Alemanha’. Enquanto a hierarquia católica continua atirando por todos os lados, contra o comunismo, o protestantismo, a maçonaria, o espiritismo, enfim, contra tudo que não é católico, ela só abandona definitivamente o ideal fascista em agosto 1942, quando o governo de Getúlio Vargas finalmente rompe com a Alemanha.

Obs: O autor : “Nasci em Bruges, na Bélgica, no ano de 1930. Estudei línguas clássicas na universidade de Lovaina e teologia em preparação ao sacerdócio católico, entre 1951 e 1955. Em 1958 viajei ao Brasil (João Pessoa). Fui professor catedrático em história da igreja, sucessivamente nos institutos de teologia de João Pessoa (1958-1964), Recife (1964-1982), e Fortaleza (1982- 1991). Sou membro fundador da Comissão de Estudos da História da Igreja na América Latina (CEHILA), fui coordenador para o Brasil entre 1973 e 1978, responsável pelo projeto de edições populares entre 1978 e 1992, e entre 1993 e 2002 responsável pelo projeto “História do Cristianismo”. Entre 1994 e 1997 fui pesquisador visitante no mestrado de história da universidade federal da Bahia. Durante esses anos todos administrei cursos e proferi conferências em torno de temas como: história do cristianismo; história da igreja na América Latina e no Brasil; religião do povo. Atualmente estou estudando a formação do cristianismo nas suas origens, especificamente os dois primeiros séculos.”

Explicação do painel(foto)

O autor é o primeiro à direita.

“O painel do fundo, é um quadro desenhado pela Irmã Adélia Carvalho, salesiana (Filha de Maria Auxiliadora) de Recife e ‘artista da caminhada’, que tem muitos trabalhos na linha de uma Igreja libertadora e colabora em diversos programas de conscientização pela arte.
O tema do quadro pode ser descrito assim: ‘a proposta cristã na confusão do mundo em que vivemos’.”



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